A grande pergunta que tem surgido desde o início do nosso propósito da marcha pela ética da igreja evangélica brasileira, e muito mais depois que a executamos, é o porquê e qual nossa verdadeira intenção.
Dos inúmeros comentários que recebemos, várias pessoas destacam diversas hipóteses: desejo de 15 minutos de fama dentro do cenário gospel, que somos fariseus, hipócritas, desviados ou nunca convertidos, e muitos outros elogios. Dentro dos diversos comentários de apoio, o destaque está na coragem e na determinação de enfrentar a situação.
Para entendermos os porquês, gostaria que soubessem que sou um homem de quarenta anos, nascido no interior de São Paulo, em uma família muito pobre. Nasci em uma pequena favela, diante de um grande lixão. Meu primeiro berço foi um caixote de frutas, e até minha adolescência todos os alimentos consumidos por mim e por minha família eram tirados do lixão ou provenientes da pouca renda que minha mãe conseguia como empregada doméstica.
Tive um pai ausente desde meu nascimento, devido ao abuso do álcool e dos jogos de azar. Ou seja, sobreviver, no meu caso, já foi uma grande aventura.
Muitos dos meus amigos tomaram o rumo da marginalidade e das drogas, mas em minha casa a questão religiosa veio antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe, também com uma história parecida com a minha, se prendeu ao contexto religioso, firmando uma promessa de que todos os filhos teriam o nome da sua santa devota, a Aparecida. Sendo assim, eu e todos os meus três irmãos somos “aparecidos”.
Cresci com muito sofrimento, porém em minha casa ir à igreja sempre foi algo presente. Dessa forma, a vida religiosa era o único lugar onde eu e minha família éramos reabastecidos de esperança.
Cresci na Igreja Católica. Como católico praticante, tão praticante que fui ao Seminário, e ali permaneci e só não me tornei padre, acredito hoje, pelos planos de Deus. Nesse contexto, aprendi o que era a teologia, e também a filosofia, tornando-me não só um ouvinte mas também um praticante.
Quando saí do catolicismo, me converti em um culto público, em meio à uma praça, num grupo de ex-dependentes químicos da Assembléia de Deus, que testemunhavam a obra de Cristo em suas vidas. Tornei-me pastor muito cedo, pois para mim o Evangelho sempre foi prático. Apesar do conhecimento adquirido no Seminário, fiz diversos cursos teológicos no contexto pentecostal. Sempre fui um contínuo interessado no aprender teológico.
Cheguei em São Paulo em 1996, a convite de uma ong que, após ter contato com meus trabalhos junto a presidiários no interior, me convidou para um trabalho bastante desafiador, que era com prostitutas e travestis nas ruas e prostíbulos em São Paulo. E aqui estou desde então. Passei por algumas igrejas como pastor-auxiliar, ora como cooperador, e ora como simples membro. Aqui casei, e até que chegamos ao porquê da marcha.
Primeiramente, é preciso dizer que toda a minha experiência de vida foi vivida com a presença da igreja. Então, assim como muitos criticaram, o objetivo da marcha não é destruir a igreja. Calvino, em suas Institutas, define que o homem necessita de Deus através da comunhão com Sua Igreja. Na Igreja estão os eleitos. A Igreja é um Corpo do qual Cristo é a cabeça pelo Pai, e o Espírito é o que une o Corpo à Cabeça. E aqui está o verdadeiro ponto do porquê da marcha: de forma romântica e poética, podemos até concluir que a Igreja é o Corpo, porém na realidade eu e você sabemos que não é bem assim.
Muitas coisas ocorreram ao longo da história. A igreja que temos hoje é indefinida se relacionada com os propósitos da Igreja Primitiva. A força institucional da igreja faz com que as manipulações e os desejos de poder ultrapassem as necessidades humanas. Nas cartas paulinas, temos a descrição de diversas situações que assemelham a igreja brasileira à decadência, umas mais, outras menos, mas se somos um Corpo todas estão inclusas, inclusive eu.
Se não posso viver sem a Igreja, e se sou parte dela, então eu tenho que lutar pela Igreja, pois o propósito de Deus é uma Igreja santa, pronta para cumprir sua missão no mundo. A Igreja é o propósito perpétuo e visível da vontade de Deus no mundo. Ela não é um fenômeno transitório da história, ela é a comunidade dos filhos de Deus, onde o Reino de Deus é levado até o fim do drama terreno. E é enxergando e querendo isso ardentemente em nossos corações que nasce o porquê da marcha pela ética na igreja evangélica brasileira.
Sei que também é o desejo de muitos. Vi isso na marcha e nos diversos comentários que recebemos. O primeiro passo foi dado. Não quero ser um reformador, mas se minhas ações e minhas palavras levarem a Igreja a uma nova Reforma, ficarei muito feliz, pois não concordo, não aceito e não me conformo com o evangelho que está sendo pregado.
Por que do Evangelho puro e simples? Porque Calvino e Lutero também queriam. Porque o Evangelho de Cristo era puro e simples. Quero o Evangelho da Graça, de graça, sem barganhas, sem preço, mas sim com as dádivas do amor divino. Para isso, necessitamos de uma Reforma, porém também precisamos de uma Revolução. Mas, acima de tudo, necessitamos de Restauração, e esse processo de restauração deve ser contínuo e duradouro, não pode ser interrompido por mãos humanas.
Faz parte da obra de Deus o homem e a mulher, mas como representantes de Sua imagem em Graça, em amor, em sabedoria, em justiça. Nisso estão manifestas as obras dos verdadeiros apóstolos, pois para os apóstolos houve momentos de acolher, confortar, mas também houve momentos de dizer “raça de víboras”, “arrependei-vos, pois vos é chegado o Reino De Deus”. Um deles ousou dizer: “não mais vivo eu, mas Cristo vive em mim”. Não adianta ameaçar, amaldiçoar, desdenhar, ironizar, pois a Palavra de Deus nos diz: “quem nos separará do amor de Cristo? A espada, tribulação, a morte?” Em Cristo, somos verdadeiramente muito mais que vencedores.
Esse é o primeiro passo de muitos e muitos passos nessa longa e árdua caminhada para devolver a Igreja brasileira aos propósitos reais de estender o Reino de Deus a todo o mundo.
Em Cristo, Aquele em quem me espelho.
Após quarenta anos de vida, posso dizer que já vivi inúmeras emoções amargas, tristes, dolorosas, alegres, que vão desde a dor de reconhecer o corpo de meu pai no IML, com seis anos de idade, ao saltar de pára-quedas no exército aos dezoito, à emoção de minha conversão. Porém, nada se assemelha à emoção e o enorme prazer que tive nesse dia 2 de novembro de 2009, juntamente com minha esposa Vera e nosso futuro bebê, que aos dois meses de gestação já é um verdadeiro protestante.

Deus se revela a nós, compartilha do mundo juntamente conosco. A nossa humanidade busca um sentido da santificação espiritual; a humanidade também quer ir a Deus. Sem querer ser agostiniano, muitos traços de nossa espiritualidade vem do contexto católico, onde os processos de espiritualidade vêm da prática dos dogmas. Esquecemo-nos de que Deus se fez humano para fazer parte da nossa humanidade.
II Co 5.19: Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.
Para muitos, o crescimento religioso brasileiro não passa de um processo natural da própria cultura nacional. Fomos colonizados pela cultura e religiosidade portuguesa, fundamentada no catolicismo europeu. No decorrer de nossa colonização, diferentes avanços de movimentos protestantes europeus tentaram introduzir no Brasil sua “evangelização”, porém os interesses econômicos se sobrepuseram aos interesses religiosos.