“O Brasil será do Senhor Jesus” x “O meu Reino não é deste mundo”

blog19Por Vera Siqueira

“Tornou, pois, a entrar Pilatos na audiência, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o Rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim? Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste? Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.” – João 18:33-36

Está aberta a temporada de “Marchas para Jesus” no Brasil, ocorrendo cada semana numa cidade diferente (no próximo sábado, no Rio de Janeiro). Também está sendo amplamente divulgada uma “manifestação pacífica” em frente ao Congresso Nacional no início de junho, que se diz “em favor da liberdade de expressão, liberdade religiosa, vida e família tradicional”. E também vemos já há tempos a infiltração de evangélicos na política, sendo que agora temos até um pré-candidato gospel à Presidência, o Pr. Everaldo Dias Pereira do PSC (mesmo partido do Marco Feliciano), que inclusive está aparecendo já nas propagandas gratuitas na tv.

Qual a razão alegada para todo esse movimento evangélico em torno de demonstração de força e busca do poder?

Uma profetada gospel lançada anos atrás e repetida “papagadaioscamente” pelos líderes gospel: O BRASIL SERÁ DO SENHOR JESUS.

Por que digo que repetem essa profetada como papagaios (sem pensar)? Porque essa profetada é totalmente contrária à profecia bíblica! Ora, a Bíblia não diz que o Evangelho reinará em nenhuma nação. Ao contrário, a Palavra de Deus diz que no final as coisas vão ficar bem difíceis para os poucos que permanecerem firmes na fé, e só com a volta gloriosa de Cristo os que sobrarem à sua direita serão do Senhor Jesus.

(Quem ler em sua Bíblia algo diferente disso, por favor, me mande a passagem, não apenas a maldição gospel contra minha vida por ousar tocar nos “ungidos do sinhô”).

Assim, por que tanta ênfase, por parte das grandes lideranças gospel-evangélicas, na tomada do poder da nação através dos seus políticos, e de demonstrar a força e a grandeza do rebanho gospel através de “marchas” e “manifestações pacíficas”?

blog20Porque o interesse não é mais apenas cumprir a vontade de Deus.

Jesus cumpriu a vontade de Deus. Quando preso injustamente, e perante a autoridade romana, Jesus poderia ter invocado sua autoridade espiritual infinitamente superior. Uma simples ordem faria com que poucos anjos destruíssem toda a nação. E, se quisesse, Jesus poderia ter sido aclamado Rei, com o slogan “Roma é do Senhor Jesus”.

Mas não foi isso o que Ele fez. Ele permaneceu manso, como um cordeiro, mesmo sabendo que Seu destino seria o matadouro. Ele não buscou a influência política de Nicodemus e de outros do Sinédrio que, mesmo em silêncio, fossem favoráveis à Sua causa. Ele não orquestrou um levante com Seus seguidores, que poderiam em Sua defesa fazer manifestações e atos a favor de Sua libertação.

Ele não fez nada disso. Apenas se entregou a Seu destino, pois

“Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.” – João 3:14-21

blog21Se Jesus tivesse ouvido o chamado de satanás (“Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.” – Mateus 4.9), teria sido aclamado Rei das nações. As nações seriam do Senhor Jesus, já naquele tempo. Mas a vontade de Deus não teria sido feita, e sim a vontade de satanás.

Pense nisso tudo e reflita: “O Brasil será do Senhor Jesus” é de Deus? Isso está de acordo com as profecias bíblicas para os últimos tempos? Ou apenas serve de plataforma para que líderes gospel afoitos por fama, dinheiro e poder terreno possam buscar seus objetivos aqui na terra, usando o rebanho que os segue na ignorância bíblica como massa de manobra, como “gado gospel”?

Pense nisso tudo, antes de ir na próxima “marcha para jesus” ou “manifestação pacífica” com interesses políticos implícitos. Pense se está fazendo a vontade de Deus, ou se está fazendo a vontade de satanás.

Jesus estaria nas marchas e nessas manifestações pacíficas com fins eleitoreiros? Jesus estaria buscando poder terreno, poder político, poder sobre quem tem outras religiões ou outras orientações sexuais? Ou estaria servindo Àqueles que são marginalizados?

A história já nos mostrou o resultado da união da Igreja com o Estado. Pense nisso.

Se possível, leia agora Apocalipse 2 e 3, onde estão as mensagens às sete igrejas.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

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A BOLA DE NEVE AVANÇA, O DIABO RETROCEDE: PREPARANDO DAVIS PARA A BATALHA E O DOMÍNIO ATRAVÉS DE UM MARKETING DE GUERRA SANTA EM TRÂNSITO

Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho [1]

edumeinberg@gmail.com

Resumo: Demonstro aqui algumas das formas como o marketing de guerra santa da Bola de Neve Church (BDN) – percebido em situação de deslocamento em direção aos interesses dos fiéis – se apresenta, em um cenário de espetacularização/midiatização e relacionado a um discurso bélico que enfatiza as teologias da Batalha e do Domínio Espiritual. A apropriação da guerra e da conquista por territórios como alegorias discursivas para promover esta agência religiosa, associada à doutrinação de fiéis, é o assunto central deste artigo, escrito a partir de observação participante, participação observante, notas de caderno de campo e análise de sites desta agência evangélica.

Palavras-chave: Bola de Neve Church, marketing religioso, identidade religiosa, batalha espiritual, domínio espiritual.

Abstract: I present here  some of the ways of the holy war´s marketing of Bola de Neve Church (BDN) – perceived in a situation of displacement towards the interests of the faithful  – is demonstrated, related to a warlike speech and theologies of the Spiritual Battle and Domain, which also indicate the Prosperity Theology. The appropriation of war and conquest territories as discursive allegories to promote this religious agency, associated with the faithful indoctrination, is the subject of this article, written from participant observation, observant participation, field notes and web analysis of this evangelical agency.

Key words: Bola de Neve Church, religious marketing, religious identity, spiritual warfare, spiritual domain.

Introdução

Mantenha suas forças concentradas na melhor forma possível. Antecipe-se a todos o máximo

 que puder.

                                                                                                                       Karl von Clausewitz

No que se segue, demonstro algumas das maneiras como a Bola de Neve Church (BDN) – agência evangélica de características majoritariamente neopentecostais –, apresenta seu discurso beligerante, no qual a guerra por territórios – espirituais ou/e do mercado religioso – é marcada pelas teologias da Batalha e Domínio Espiritual, referentes discursivos de seu marketing de guerra santaem trânsito.

Esta pesquisa de inspiração etnográfica foi feita a partir de observação participante/participação observante entre 2005 e 2011 e em 2012,[2] notas de caderno de campo, leitura bibliográfica e análise de sites desta firma religiosa, especialmente durante o período de realização de minha dissertação de mestrado sobre a mesma.[3]

O artigo se estrutura a partir de notas sobre o marketing de guerra santa da BDN – que assim como a própria agência, experimenta trânsitos em direção à criação e atendimento de demandas de fiéis –, traz provocações referentes a conceitos que costumamos usar para definir fenômenos religiosos, e apresenta, através de parte mais descritiva, o discurso bélico da BDN, identificado em eventos, ministérios de evangelismo e na campanha/apoio à candidatura de políticos próprios. Tal discurso é responsável pela doutrinação de fiéis e funciona como agenciador da divulgação e consolidação desta firma evangélica.

Analisar a BDN é um trabalho em processo, já que a própria agência encontra-se em constante fluxo de amoldamento de seu discurso e identidade, caracterizados por movimentos de solidificação acompanhada de derretimento – portanto, este texto não pretende ser conclusivo.

Marketing de guerra santa em trânsito

O inimigo avança, retiramos. O inimigo acampa, provocamos. O inimigo cansa, atacamos. O inimigo se retira, perseguimos.

Mao Tsé-Tung

Para Al Ries e Jack Trout, autores de Marketing de Guerra, o livro On War, de 1832, escrito pelo general prussiano Von Clausewitz, é “o melhor livro de marketing escrito até hoje,” já que suas propostas sobre estratégias de combate podem ser facilmente assumidas e praticadas pelos atuais gerenciadores de mercado. Este marketing de guerra é combatido em “campos de batalha de apenas 15 centímetros”: as mentes de estrategistas e de consumidores.[4]

A expressão marketing de guerra refere-se às semelhanças entre gerenciamentos militar e de mercado, em que as empresas devem “aprender como atacar pela frente e pelos flancos sua concorrência, defender suas posições e como e quando fazer guerrilha.”[5] Constituem-se, assim, quatro formas de marketing de guerra: defensiva, ofensiva, de flanqueamento e de guerrilha.

A primeira caracteriza-se pela proteção do território feita pelo líder do mercado; a segunda, pelo ataque direto a este líder, realizado pelo (s) líder (es) mais próximo (s); a de flanqueamento, pela aposta na inovação como forma de conquista; e a de guerrilha, pelo princípio de que se deve “encontrar um segmento de mercado bastante pequeno para defender”, e assim, “tornar-se um peixe grande num pequeno açude.”[6]

Adaptando tais conceitos para o mercado religioso, convencionei marketing de guerra santa a criação, apropriação e resignificação de estratégias de gerenciamento militar e/ou empresarial, efetuadas pelas agências religiosas.[7] O objetivo geral destas[8] é a aquisição de melhor posicionamento no mercado e da preferência e adesão do fiel-consumidor, através da oferta e do atendimento de suas demandas e expectativas religiosas.[9]

Ressalto que marketing de guerra santa não é um conceito “nativo” – mas inspirado em observação participante/participação observante de um contexto “nativo”, bélico –, e uma forma encontrada para (re) pensar diferentes agenciamentos de pessoas, comunidades e instituições relacionadas ao fenômeno religioso. Trata-se de expressão utilizada como chave de compreensão das estratégias de marketing religioso de agências como a BDN – estas, contudo, não usam tal referência metafórica.

O marketing de guerra é pensado como a adaptação de conceitos militares ao gerenciamento de mercado, enquanto o marketing de guerra santa é visto a partir de semelhanças entre gerenciamento marcial,[10] marketing empresarial e marketing religioso, que se (con) fundem. Nesta situação de marketing, “o terreno a ser conquistado é a mente, o imaginário e o desejo do consumidor.”[11]

O marketing de guerra santa é marcado por um contexto ultraconcorrencial e de entre-lugares[12] religiosos, no qual as estratégias – bem como as próprias agências religiosas, com seus produtos e mercadorias – são caracterizadas por deslocamentos e hibridismos, moldando-se a fim de criarem e atenderem demandas específicas.

Os entre-lugares religiosos sinalizam também para as múltiplas experiências e agenciamentos dos fiéis, vistos também em situações de entre-religiosidades. Nesta perspectiva, os fiéis são vistos com agência,[13] promotores/estimuladores de mudanças nas instituições, e não somente como sujeitos agenciados pelas mesmas.

O marketing de guerra santa é identificado pelo trânsito, deslocamento em busca da criação e satisfação de expectativas e desejos. Esta situação de marketing é relacional, havendo duplo agenciamento, tanto por parte do sujeito (individual ou coletivamente) como da firma religiosa. Tal mobilidade, de fiéis e de agências, reflete identidades e discursos (individuais, coletivos e institucionais) móveis, derretidos e múltiplos.

No caso das firmas religiosas, o deslocamento se associa à concorrência por fiéis. São agências em trânsito – e também em hibridismo, por se apropriarem muitas vezes de elementos de outras expressões religiosas em seus discursos e práticas, objetivando maiores fatias do mercado e a preferência do fiel-consumidor.[14] No caso deste hibridismo, é possível se falar em situações de entre-campos religiosos, – isto, se a ideia de campo religioso ainda puder ser considerada conveniente para se entender as expressões de religiosidade do contemporâneo.[15]

As agências religiosas podem promover – dependendo de cada contexto –, diferentes apresentações de um marketing de guerra santa, que se hibridizam, e que podemos denominar – amparados nos conceitos de Ries e Trout – defesa santa, ataque santo, flanqueamento santo e guerrilha santa[16] – vocábulos utilizados com fins pedagógicos e heurísticos.

Defesa, ataque, flanqueamento e guerrilha, utilizados aqui como conceitos – são termos apropriados por agências religiosas que se valem de um arsenal discursivo caracterizado por referências bélicas – o que aponta para uma semelhança entre discursos militares e religiosos, constitutiva de um marketing de guerra santa.[17]

O marketing de guerra santa promove-se fazendo marketing com a “guerra santa”: referentes beligerantes são usados como forma de promoção/consolidação da agência. Neste caso, o próprio conceito de marketing de guerra santa – que pode ser relativizado, subvertido, alterado, ampliado e/ou (des/re) construído –, é rasurado e colocado em trânsito: Passa a relacionar-se não só com as possíveis semelhanças entre gerenciamentos religioso/empresarial/militar, mas com o próprio modo como agências pensam, (re/des) significam e (re/des) apropriam conceitos e termos bélicos para promoverem-se no mercado religioso – apropriar-se de referentes bélicos no discurso pode ser considerado tanto um marketing de guerra santa, quanto um marketing com guerra santa.

Nós vamos invadir sua praia! – e a UFSC. A BDN Floripa entre-mercados

A BDN, fundada em 1999, na cidade de São Paulo, por Rinaldo Luís de Seixas Pereira (apóstolo Rina), apresenta características múltiplas de um marketing de guerra santa, assim como suas filiais. A Bola de Neve Floripa (BDNF), conduzida por Rodrigo Aldeia (pastor Digão), por exemplo, pode ser entendida como praticante de estratégias de guerrilha santa, ao militar por terrenos mais segmentados que as líderes do mercado “neopentecostal”, como Universal, Internacional, Mundial e Renascer, da qual é dissidente[18] – e seu crescimento se associa a esta segmentação, nascida do pluralismo e neta da secularização, agregando sujeitos que transitam entre-lugares religiosos, entre-religiosidades, bem como sem-religião, desigrejados, dentre outros.[19]

A BDNF apresenta ainda um marketing de defesa santa, em razão de sua liderança em um segmento específico, o dos surfistas evangélicos de Florianópolis, concorrendo pela preferência destes com os Surfistas de Cristo, Calvary Chapel, Sara Nossa Terra (do Morro das Pedras) e Renascer (do Campeche).

Com a mudança da sede, em 2010, do Rio Tavares para a Trindade –, onde se situa a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) –, os esforços para a conquista dos universitários se intensificaram,[20] tendo como consequência a substituição/renovação de grande parte dos fiéis. Inicia-se um processo de negociação entre a manutenção e o “resgate” de um público (surfistas, skatistas e afins) e a adesão de outro (universitários), demonstrando um trânsito entre-mercados e entre-segmentos.

Apontando para o público inicial da BDNF, o presbítero André argumentou:

A maioria da galera que veio prá Floripa e tá na igreja veio prá pegar onda, não veio? Mas tem gente que tá com teia de aranha na prancha. Vamos fazer um trabalho com a galera do surfe da Praia Mole? Temos primeiro que preparar o plano espiritual prá não levar piau. Temos uma missão com os surfistas. O surfe precisa de referências, que somos nós, um canal vivo prá resgatar a galera do surfe. Vamos invadir e conquistar a Praia Mole. Temos de conquistar esta galera prá Jesus! Vamos pegar onda junto e se precisar a gente já batiza uns ali dentro da água mesmo![21]

Sobre os acadêmicos, Digão exclamou: “nossa missão é evangelizar esta faculdade!”,[22] objetivo reforçado por Diego Ferreira, líder da Célula UFSC da BDNF:[23]

O Bola foi do Rio Tavares para a Trindade pelo fato da UFSC estar aqui, e tudo girar em torno da Trindade. Na verdade, ouvi o apóstolo Rina dizer assim pro Digão: “vai trocar de lugar, cara… o Bola do Rio Tavares vai mudar” e aí ele começou a buscar a direção do Senhor, e sentiram  aqui na Trindade. Aqui com certeza é também mais bem localizado.[24]

A conquista de estudantes da universidade, através da mudança da sede e da oferta de um novo produto (serviço) religioso, a Célula UFSC, demonstra um marketing de guerra santa que se liquefaz em direção a nichos de mercado. As reuniões desta célula ocorrem às quintas-feiras ao meio-dia, próximo ao Restaurante Universitário e disputando espaço com um grupo de Capoeira Angola estabelecido, segundo seus líderes, desde 1987. Espaço, dia e horário escolhidos afiguram uma estratégia de flanqueamento santo, na qual a inovação está no modo de se aproximar do público, mais arrojado que o de outros grupos evangélicos que tem (ou tiveram) a UFSC como nicho. Outra forma de flanquear concorrentes, promovida pela Célula UFSC, está em oferecer produtos (ou serviços) próprios, como os shows de gospel pop & reggae performatizados pelo conjunto de evangelismo da BDNF.[25]

Dentre os mais recentes produtos da BDNF, destacam-se os ministérios Em Chamas (teatro), Bola Running (corrida), Bola Remo e Moto Clube Bola de Neve.  A “criação” de novos produtos pode flanquear não só os concorrentes, como alguns dos próprios produtos da BDNF, por vezes os substituindo.[26] O marketing de guerra santa da BDNF transita entre-produtos e entre-serviços, em constante renovação.

Mas a BDNF planeja conquistar um público mais ampliado. Os líderes do Bola Running (BR)[27] convocaram: “Neste domingo teremos a Corrida Pague Menos,[28] grande oportunidade que Deus nos deu para “invadir”, então postem em seus perfis de Face, partiu para correr e glorificar! Vamos conquistar a Ilha!”, sinalizando para a beligerância: “Deus levantou um exército de guerreiros que treinam, correm e pregam o evangelho” – remetendo ao sloganevangelizando com os pés”.[29] Postagens no Facebook são importantes na divulgação da BDNF, mediando a invasão de territórios espirituais e mercadológicos: “Galera, as novidades estão bombando! É a igreja avançando e saqueando o inferno! Neste sábado, 24/11/12, estreia o programa Bola de Neve Floripa na rádio Sara Brasil FM, das 18h às 19h. Sintoniza aí e dá um \o/ glória!”[30] Os grifos, meus, demonstram a belicosidade do discurso da BDNF. Como vemos, as estratégias de “marketing santo” podem ser bricoladas, tendo fronteiras borradas – e a interpretação depende do referencial de análise do observador.

Os conceitos de marketing de guerra santa e seus desdobramentos (guerrilha/defesa/ataque/flanqueamento santos) devem ser percebidos a partir de seus possíveis sentidos heurísticos e didáticos –, eles não dão conta da multiplicidade e abrangência de características de agências como a BDN, em processo de derretimento e amoldamento de identidades e discursos, nem das experiências subjetivas de fiéis, constituídas por fluxos identitários, mnemônicos e narrativos.

Rasurando conceitos

Outros conceitos/classificações podem ser atribuídos a BDN ou a outras agências evangélicas. Dentre estes, pentecostal de terceira onda[31], pentecostal de cura divina[32], pentecostal autônoma[33], pentecostal remasterizada[34], neopentecostal[35], pós-pentecostal[36], neopentecostal de supergeração[37]e agência evangélica de características majoritariamente neopentecostais.[38]

Todos eles, contudo, podem ser desnaturalizados/desessencializados,[39] destituídos de um sentido fixo. O mesmo ocorre com conceitos como mercado e economia religiosa, e com as possíveis equações formadas a partir dos termos igreja/agência/firma e religiosa/evangélica, por exemplo. Tais conceitos, classificações e termos não dão suporte para as mediações/negociações/deslocamentos e agenciamentos de instituições, comunidades e pessoas. Ao pesquisador, cabe rastrear e perseguir etnograficamente estes movimentos – sensíveis, por vezes surpreendentes –, aprender com eles e não se engessar com classificações.

O conceito de mercado ou economia religiosa, por exemplo, pode ser repensado quando entendemos que nem todos os sujeitos encontram-se em contexto de seleção ou escolha: As pessoas podem converter-se ou/e aderir a instituições por motivos variados, para além de uma mcdonaldização da fé[40] – e agências religiosas podem ser criadas sem o objetivo de inserirem-se num contexto concorrencial. Pensar as religiões e/ou as religiosidades deve ter como suposto o esforço de não ser reducionista ou essencialista, ainda que a fronteira entre essencialismo e não-essencialismo seja como uma fina camada de gelo.

Vários autores têm relativizado as teorias do mercado e da economia religiosa, como Duarte[41], Frigerio[42], Jungblut[43], Maluf[44] e Mariano[45]. Relativizar tais teorias, entretanto, não as inviabiliza: provavelmente estas possam continuar dando substratos para se compreender tanto as identidades religiosas de pessoas, quanto de comunidades e instituições. Porém, ao defini-las como neopentecostais ou promotoras de um marketing de guerra santa, por exemplo, pode-se estabelecer, ao mesmo tempo, marcação identitária descritiva e prescritiva, reiterada pela nomeação e imersa num conjunto de relações de poder assujeitadoras.[46]

A identidade religiosa, como as demais, é relacional[47]e marcada pela diferença,[48] havendo agenciamento/articulação da elaboração/transição identitária de si e do outro, em fluxo e contrafluxo contínuos. Contudo, as classificações identitárias sobre o outro nem sempre condizem com suas autodeclarações – embora seja fundamental que o pesquisador leve as autodefinições em conta.

Uma possível classificação identitária pode entender sujeitos, comunidades e instituições como caldeirões identitários, nos quais

expressões, impressões, identificações e declarações – próprias e alheias – sofrem processo de (des/re) aquecimento a partir de contexto relacional, em que identidades e identificações são derretidas, resfriadas, solidificadas, fragmentadas – derretidas de novo –, em constante processo de adaptação e amoldamento.[49]

Pensar em derretimento identitário implica na provisoriedade/efemeridade/ transitoriedade da identidade – num processo de (re) elaboração, (des/re) construção, sem sentido fixo.

Ainda se pode indagar: existe uma identidade, ou esta é “imaginada”, sempre em demanda, mas nunca atingida? Provavelmente as ideias de Agier, de “que toda declaração identitária, tanto individual quanto coletiva, é múltipla, inacabada, instável, sempre experimentada mais como uma busca que como um fato”[50], e de Sanchis, de identidade como “o que o sujeito pretende ser, aos olhos dos outros e a seus próprios olhos, eventualmente até o que ele se esforça para se persuadir que ele é”[51], possam suscitar reflexões a respeito.

Classificações como a de identidade – bem como as anteriores – ainda que tenham fins heurísticos e pedagógicos, podem ser entendidas sob rasura:[52] podem ser utilizadas, ainda que a partir de uma (des/re) construção e (des/re) articulação.[53] Sendo assim, o que proponho é pensar nos conceitos a contrapelo – a partir de sua precariedade e transitoriedade.

***

Caso possamos falar em uma “identidade institucional” da BDN, esta se caracteriza pelo trânsito entre mídia e espetáculo. Seu portal no ciberespaço, carro-chefe da agência,[54] transporta o fiel a um universo de mercadorias oferecidas pelo Shopping da Bola[55] –, de Bíblias do Surfista a DVDs gospel e de pregação –, e conduz o mesmo a outros ambientes, como Bola TV, Bola Radio, Mergulhando na Palavra e Mulheres da Bola.

Tal “identidade” é caracterizada pela ambiguidade entre um discurso derretido, flexível em relação a usos e costumes, e um congelado, marcado pelo fundamentalismo, e refletida nos diferentes policiamentos em relação à sexualidade, afetividade e papéis de gênero,[56] nas apropriações e significações em relação ao corpo e ao esporte[57] e no uso das teologias do domínio, cura/libertação, saúde perfeita, prosperidade[58] e batalha espiritual[59].

O marketing de guerra santa da BDN, assinalado pelo uso de referentes bélicos em seu discurso, ou da guerra santa como marketing, agencia davis – crentes-guerreiros – a militar por territórios espirituais e seculares. A liquefação de sua identidade entre-lugares / entre-mercados carrega em seu bojo a permanência e intensificação da batalha espiritual como referente, que com o tempo, cresce como bola de neve e se torna avalanche. Tal discurso beligerante derrete e desliza em direção aos fiéis – e ao mundo.

 

“Porque do Senhor é a guerra”: Preparando davis para a batalha

 

Como um menino e uma pedra lançada ao ar
É mais um Golias que vamos derrubar
Davi, Oficina G3
 
A BDN possui um discurso bélico que aponta para a teologia da batalha espiritual. Nesta agência, Satanás e seus demônios, diabos, capetas e zarapelhos fazem parte de uma força-tarefa obstinada em causar a derrota dos seres humanos, devendo ser combatidos com “unhas e dentes” espirituais.
Para efetuar a peleja contra o exército infernal, soldados especialistas, forjados através de cultos, reuniões celulares, ministérios e eventos – bases de treinamento e operações táticas – utilizam a intercessão (exorcismo/desobsessão/desencapetamento) como bazuca espiritual para aniquilar entidades convocadas à guerra, como Exus-caveiras, Pombagiras, Tranca-ruas, Maria Padilhas,[60] Capa-pretas, Capirôtos, Carochos, Cramulhões, Coisas-ruins, Caramujos-no-lombo[61] e outras sobras das Trevas.[62] Tais esforços são responsáveis por retirar Lúcifer e seus tinhosos do corpo e da alma dos fiéis bem treinados. Agências como a BDN preparam milícias de davis a fim de reprimir golias diabólicos, envergonharem o Inferno[63] e derrubarem a Babilônia.[64]  
A canção Davi ensina: “os gigantes se levantam a cada dia, a todo o momento, nos tentando destruir”, mas “do Senhor é a guerra, o inimigo vem ao chão na força do braço de Deus”.[65] Tal canção, que entre 2005 e 2009 foi muito interpretada na BDNF, cedeu espaço a outras que persistem promovendo um Senhor dos Exércitos: “vem marchando com seus cavaleiros, arvorando a sua bandeira, tem o cetro de ouro e a espada nas mãos” e “há um ruído se espalhando sobre a terra, de uma nação que se levanta para a guerra”.[66]
O portal da BDN na internet convoca os fiéis a eventos que agenciam e reiteram a davidização. Em junho de 2012, a BDN Juquié realizou o Seminário de Cura Interior e Batalha Espiritual Vencendo os Gigantes. O anúncio refere o 1º verso de Samuel (17:49): “Davi meteu a mão no alforje, apanhou uma pedra e arremessou-a com a funda, atingindo o filisteu com tanta força que a pedra se encravou na testa e o gigante caiu com o rosto em terra”. A mão que se prepara para tomar a pedra (figura 1) é hibridizada com uma onda, remetendo à expressão a grande onda vai te pegar, do jingle de abertura do portal da BDN (em sua versão até 2010).[67] Na mesma data, ocorreu na Praia Grande outro Seminário de Cura e Libertação da BDN, diretamente associado à batalha e domínio espiritual (figura 2). [68]
                       
bola1bola2Figuras 1 e 2 – Seminário de Cura Vencendo os Gigantes e Seminário de Cura e Libertação.
 
Para combater o Ferrabrás e suas hostes mefistofélicas, os davis da BDN são moldados através de Congressos de Batalha Espiritual. A imagem seguinte remete à camuflagem militar, com a palavra guerra repetida, compondo a expressão do Senhor é a guerra. Ao lado do capacete, a exortação: Prepare-se para batalha! (figura 3).
Marechais do Reino de Deus como Silas Malafaia, RR Soares, Valnice Milhomens, Chuck Pierce, Neuza Itioka e Rinaldo Seixas dotam tais eventos de eficácia simbólica performativa, apresentam estratagemas de tomada de territórios espirituais e seculares, exaltam a obediência do crente-soldado e imprimem líderes como porta-vozes autorizados e autoritários[69] – vozes e imagens de Deus na Terra, por vezes sacralizados por fiéis. Ao gladiador-evangélico, convém ser disciplinado, pois, como nota Mariano, os neopentecostais “creem que o que se passa no ‘mundo material’ decorre da guerra travada entre as forças divina e demoníaca no ‘mundo espiritual’”.[70]
A invasão de territórios é conduzida por ministérios de evangelismo como o Atacar!, instalado na BDNSP, quartel-general responsável pela convocação/formação de davis, e função logística de criar e gerenciar ardis de inserção no “mundo”. Seu slogan “a Igreja avança, o inferno retrocede” – e o anúncio de que “milhares de vidas sob o comando do inferno aguardam ansiosas a manifestação dos Filhos de Deus” – demonstram a ofensiva contra o Príncipe das Trevas e o Império do Mal. As figuras seguintes (3 e 4) demonstram a apropriação que a BDN faz de referentes bélicos.
 

bola3bola4
Figuras 3 e 4
– Congresso de Batalha Espiritual (2008)[71] e Ministério Atacar (2009).[72]

Os discursos referentes à derrocada das legiões satânicas são reiterados pelos mais novos serviços oferecidos pela BDNF, como a Célula UFSC e os ministérios Remo, Running, Em Chamas e Moto Clube, demonstrando a articulação entre novos serviços – bases de agenciamento/treinamento de davis ­–, e o discurso militar, já “tradicional” da BDN.

Em 8/12/12, o conjunto musical de evangelismo da BDNF alargou suas estacas, ergueu sua tenda e apresentou-se durante o Reveza UFSC, competição esportiva da universidade, combinando estratégias de invasão articuladas pela Célula UFSC e o Bola Running (BR) – demonstrando a corrida pelas almas dos universitários, fazendo o diabo correr pro lado oposto – e dando novo sentido à ideia de Agier de uma “identidade mais como busca do que como chegada”[73], já que a busca assume duplo sentido – correr atrás de si e dos fiéis. A maioria das canções do conjunto tinha a batalha espiritual como tema, e como é de costume, ao menos uma delas aludia ao rei Davi, auxiliado pelos crentes-guerreiros: “a geração de Samuel está se levantando em todo lugar, geração que depõe Saul, geração que unge Davi”.[74] Novamente, derretimento e solidificação são chamados à frente de batalha: novos serviços (BR + Célula UFSC + conjunto de gospel pop & reggae) apresentam canções evangelísticas contemporâneas permeadas por linguagem coloquial, trazendo como resultado um discurso conservador na BDN, o bélico. São odres novos contendo vinho velho – e congelado.[75]

Invadir a universidade, saquear o Inferno e dominar territórios não está relacionado apenas ao mundo sobrenatural – nem ao mercado religioso.[76] Tal como Davi, guerreiro que se torna rei das nações – apoiado pela geração de Samuel –, o crente deve ocupar outros espaços, como o da política.

“A igreja avança, o diabo retrocede”: Preparando davis para a política

Para que a igreja avance, davis são preparados para atuar em vários fronts. Um deles é a mídia evangélica/secular, vinculando cultura gospel[77] e esfera pública, agenciando o estímulo/apoio a candidaturas evangélicas, nas quais slogans como “irmão vota em irmão” (ou “davi vota em davi”), são preciosos: A inserção evangélica no “mundão” representa a tomada de posições ocupadas por diabos, diachos, dianhos e diás – e seus representantes na Terra.

Até alguns anos, como argumenta Bourdieu, a eficácia simbólica de que dispunham os líderes religiosos dependia de “ocultar a si mesmos e aos outros seus interesses políticos (ou seja, em linguagem ‘pagã’, interesses ‘temporais’)”.[78] No Brasil, até recentemente os pentecostais pregavam a exclusão do fiel “deste mundo” – notadamente da mídia e da política –, o que não ocorre mais, como vemos na disposição de algumas agências (neo) pentecostais em estimular candidaturas. Como sustenta Mariano, a doutrina do domínio pensa promover uma espécie de recristianização da sociedade “‘pelo Alto’, quer dizer, pela via político-partidária e pela mídia eletrônica”.[79]

Em 2008, a BDN Santos foi homenageada pela Câmara de Vereadores local por conta de seu aniversário de quatro anos, indiciando uma das primeiras articulações da BDN com o mundo político. Após a entoação de cânticos gospel pelos davis santistas e entrega de placa em homenagem ao pastor Eric Vianna, o presidente da sessão declarou que “essa família, essa Igreja, está fazendo a diferença nessa cidade”. Vianna explicou que “os reis deste mundo” estavam “reconhecendo o trabalho dos filhos do Rei dos reis”, e que “por muito tempo a Igreja foi vidraça do diabo, mas que hoje jogamos as pedras na vidraça do mundo.” (figura 5)[80]

Quebrar a vidraça e dominar o mundo prescinde da eleição de davis – candidatos-guerreiros da BDN. Eduardo Tuma, candidato da BDNSP a vereador, foi eleito em 2012 pelo PSDB (coligação PSDB/PSD/PR/DEM), com 28.756 votos (figura 6). Sua campanha foi alvo de polêmicas: um dos “santinhos” distribuídos por seu comitê veiculava a imagem e apoio do ex-deputado estadual tucano Ricardo Montoro (filho de um dos fundadores do PSDB, André Franco Montoro), que encaminhou carta à executiva paulistana pedindo punição máxima (expulsão) de Tuma, o acusando de falsidade ideológica. Tuma também veiculou sua campanha ao apoio de Bruno Covas, que “disparou” comunicado esclarecendo não ter autorizado a propaganda.[81] 

Outro candidato foi Tanio Barreto, pela coligação PSD/PP a vereador, com apoio da BDN Floripa. Reproduzo carta de Digão, endereçada ao mailing list da BDNF e acompanhada de “santinho” (figura 7):

A Paz do Senhor, estamos perto de momentos decisivos na nossa cidade. Como cristãos, temos que participar e se empenhar para vermos pessoas de família e de caráter que vão representar não somente nós cristãos, mas todo aquele que precisar ser assistido. A palavra de Deus nos diz que quando o justo governa o povo se alegra. Um candidato que indico para colocarmos como representante da sociedade junto à câmara dos vereadores é o Tanio Barreto 55005. Há quinze anos conheço o trabalho que ele realiza junto aos mais necessitados (…). Frequentador da igreja, tem se envolvido em projetos que realizamos junto às comunidades carentes e demonstrando exteriormente o que é no seu interior. Vamos juntar esforços nesses últimos dias que antecedem as eleições para colocarmos um representante não somente da igreja, mas também de toda a sociedade. Tanio Barreto 55005.  Pr. Digão

bola5bola6bola7Figuras 5 a 7 – Homenagem da Câmara de Santos à BDN local;[82] agradecimento de Tuma aos eleitores[83] e “santinho” de Barreto.[84]

 

 

Acompanhei, em 02/09/2012, culto dominical em que a candidatura de Barreto foi apresentada. Após o louvor, Digão assumiu o microfone e contou sua trajetória. Relatou ter sido criado em lar evangélico e se desviado, retornando à fé através de amigo. Este foi responsável por resolver pendência judicial na qual a BDN se envolveu em 2007, e que fizera com que fechasse as portas por alguns meses, reabrindo graças à sua intervenção. Tal sujeito era Barreto, que subiu ao palco para narrar seu testemunho, contando que era chamado de “sem-terra” pelos surfistas graças a sua baixa condição econômica, que comia “banana com pão de manhã e pão com banana à tarde” e que, após ter colocado Deus à prova, dizimando com 25 reais, “o chefe da Mormaii me chamou, me colocou na equipe principal e voltei com 3500 dólares do campeonato.” Após obedecer a Deus contribuindo financeiramente, tornou-se referência no surfe e próspero a ponto “das pessoas me confundirem com o filho do presidente da República”.

Digão comentou que a igreja deveria “honrar a quem tem honra” e que “é importante investir nos que são nossos”, brincando: “se ele fizer algo errado após eleito, levamos ele na salinha de intercessão e batemos nele”. Em seguida, reforçou a importância do dízimo, como forma de “transformar vidas e abrir igrejas”, sendo tarefa “para os que entendem”, e que estes “seriam honrados por Deus”. Amoldar-se a Deus, submeter-se aos líderes e guerrear através de cânticos espirituais foram os motes de sua pregação. Para a BDN, saquear o Inferno se prorroga na canção gospel: As Águias Teens foram chamadas ao palco e tocaram hits recentes sobre batalha, acompanhadas por uma dançarina que prestava continências e pelo presbítero André, que entoava seu shofar. O cantor do conjunto – presbítero Ibirá – repetia de forma mântrica: a igreja avança, o diabo retrocede.

Esta liturgia permite que percebamos uma das ambiguidades da BDN: de um lado do ringue, um discurso congelado[85] se traja com as cores do fundamentalismo, e de outro, um discurso coloquial é moldado pelo derretimento – ambos afinados para atender as expectativas dos fiéis. A Santíssima Trindade do neopentecostalismo se faz presente nas figuras da prosperidade, da batalha e do domínio santo. No front, filisteus demoníacos são aniquilados por artilharia constituída por uma única pedra lançada pelos davis – míssil contra o capeta –, a obediência. A BDN avança, o diabo retrocede.[86]

Considerações inconclusivas

As referências militares são identificadas pelos crentes como representações de significados espirituais,[87] e as forças satânicas, como expressões de dificuldades emocionais, familiares, financeiras e profissionais. Mas também são vistas de modo literal – batalhões encapetados militam pela alma dos humanos: é uma guerra em outro domínio, o do espírito, não separado do real – e desta forma, as citações belicosas devem ser vistas de modo polissêmico. Termos bélicos como referentes discursivos tem objetivo claro: auxiliar na instituição de gladiadores evangélicos que batalham contra potestades demoníacas, que também transitam entre os sentidos figurado e literal.

O marketing de guerra santa da BDN, articulando um marketing com a guerra santa, convoca diversos personagens para seu teatro de operações de guerra espiritual.[88] Na zona de combate, como em um tabuleiro de xadrez, encontram-se peças escuras e claras: O Cão agencia as Trevas, faz de pessoas cavalos e comanda hordas constituídas por erês, pés-de-bode, zarapelhos e ferrabrases. Falanges de rafaéis, gabriéis, querubins e serafins precipitam como avalanche celestial, auxiliando plêiades de crentes-soldados a sabotar os planos demoníacos e encaminhar Satã para o lugar de onde não deveria ter saído.

Tais davis, treinados a partir de diversos discursos, atuam na reiteração de normas, agenciam soldados e consolidam a marca BDN no mercado. Dentre as fronteiras que instauram a dicotomização entre davis e golias, o principal marcador é a obediência aos marechais-sacerdotes. Um bom davi, não somente entende a Palavra, mas tem revelação, disciplina e não peca: sabe marchar direito. A este, Deus é fiel – desobedecer, ao invés de reiterar, torna davis passíveis de goliação.

O preparo de davis é mediado pela articulação entre um discurso marcial caracterizado pela permanência/congelamento e novos produtos que representam um marketing de guerra santa que transita/derrete por entre-lugares religiosos, entre-públicos e entre-serviços, vinculando inovações e continuidades: a bola de neve cresce e se adapta com o movimento,  mas estacionar faz parte do trânsito.

Como reforcei no início do artigo, pensar em agências como a BDN a partir de categorias como a do marketing de guerra santa, por exemplo, não dá conta dos múltiplos agenciamentos institucionais, coletivos e subjetivos relativos a mesma. Conceitos como este servem apenas como recursos didáticos/heurísticos e propositores de diálogos – podendo ser rasurados.

Este trabalho não pretende-se conclusivo – outras observações poderão provocar deslizamentos em direção a novos fiordes de conhecimento. Espero que algumas das ideias apresentadas aqui possam auxiliar na fermentação de debates – e que estes venham tal qual uma avalanche.

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Recebido: 08/12/2012

Aprovado: 17/12/2012


[1] Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), especialista em Marketing e Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero.

[2] No verão de 2005 me mudei de São Paulo para Florianópolis, conhecendo a sede da filial local da BDN, conhecida como Bola de Neve Floripa, que ficava no Rio Tavares, próxima da casa onde residi, no Campeche. Esta primeira visita marcou minha entrada em campo, num primeiro momento de pesquisa que entendo como participação observante (L. WACQUANT, Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe), que se estendeu até parte de 2006. Neste período, fui capitão e líder do ministério de futebol society e passei por ministérios como o de Boas-Vindas, Assistência Social, Dança e Infantil (Bolinha de Neve). Promovi festas gospel da BDN em minha casa e ajudei em diversas das atividades da mesma, como a construção de seu half pipe (pista de skate). Após alguns meses de frequência, fui convidado a participar do curso de formação de líderes de células. Depois da conclusão do curso, fui convidado a me tornar líder, mas recusei o convite por não concordar com as diretrizes da igreja. Minhas curiosidades iniciais fizeram com que eu me inserisse como objeto e sujeito de observação, experimentando as articulações entre pesquisador e aprendiz, e colocando minhas experiências a serviço de minhas indagações. Este período até 2006 foi o que fui mais afetado pelo convívio na igreja (SAADA, Favret. Ser afetado. In: Cadernos de Campo, pp. 155-161; M. GOLDMAN, Jeanne Favret-Saada, os Afetos, a Etnografia. In: Cadernos de Campo, pp. 149-153). Ao mesmo tempo, por não concordar com a doutrina da agência, desenvolvi sentimento que transitava entre afeto e (des)afeto. Um segundo momento – de trânsito para uma observação participante, se inicia em 2006 e é constituído por maior recuo. Se minha participação observante de 2005 a 2006 possibilitou um olhar de perto e de dentro (J. G. C. MAGNANI, De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana), o distanciamento posterior permitiu que eu tornasse aquilo que era familiar, exótico. (G. VELHO, Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea). A partir de 2006, frequentei a BDN Floripa com menor intensidade, visitando outras unidades da BDN, como a de Balneário Camboriú e a sede em São Paulo, e outras agências evangélicas de Florianópolis, como a Banca de Rap Cristão (BRC), desenvolvendo trabalhos sociais com esta, os Surfistas de Cristo e a Calvary Chapel – fiz parte do ministério de louvor desta e convidado a fazer seminário teológico no exterior para me tornar pastor da mesma. Abdiquei do convite para realizar minha pesquisa de mestrado em História sobre a BDN, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Em 2010, prossegui minha observação participante – de modo pouco intenso – na BDN SP, iniciando a publicação de alguns trabalhos. Em 2011 não realizei novas pesquisas sobre a agência, mas continuei refletindo sobre seus agenciamentos – especialmente relativos ao uso do marketing – constituindo um terceiro momento de minha pesquisa. Em 2012, retomei minha observação participante na BDN Floripa, a fim de acompanhar suas inovações e continuidades, marcando um quarto momento, de reencontro com a mesma. Neste momento, fui convidado a retornar à igreja e participar de ministérios, dentre estes, o de louvor evangelístico, a fim de cantar gospel rock e reggae. Todas as informações descritas neste artigo foram obtidas no período em que a liderança da BDN foi comunicada sobre minha pesquisa.

[3] Minha dissertação foi intitulada “A grande onda vai te pegar: Mercado, mídia e espetáculo da fé na Bola de Neve Church”, defendida em fevereiro de 2010 e orientada pelos professores Márcia Ramos de Oliveira (UDESC) e Artur Cesar Isaia (UFSC).

[4] A. RIES e J. TROUT, Marketing de Guerra, p. 45.

[5] A. RIES e J. TROUT, Marketing de Guerra, p. 15.

[6] A. RIES e J. TROUT, Marketing de Guerra, pp. 89-94.

[7] A apropriação de referentes bélicos pelas agências evangélicas – e religiosas em geral – é anterior a Marketing de Guerra, de Ries e Trout. Entretanto – como esta obra costuma ser referência em cursos de marketing –, é possível que alguns líderes religiosos (alguns destes, especializados em marketing, como Rinaldo Seixas, da BDN, e Estevam Hernandez, da Renascer) tenham tido acesso à obra e aplicado alguns de seus conceitos.

[8] O conceito de agência ou firma religiosa é emprestado especialmente de teóricos do paradigma estadunidense de mercado religioso (ou das economias religiosas), como Roger Finke, James McCann, Rodney Stark, Larry Iannaconne e William Bainbridge (comentados por autores como Alejandro Frigerio, Airton Jungblut, Lemuel Guerra e Ricardo Mariano), que dialogam com autores como Peter Berger, mas com perspectivas diferentes.

[9] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Marketing de Guerra Santa”: da oferta e atendimento de demandas religiosas à conquista de fiéis-consumidores. In: Horizonte, pp. 201-232.

[10] A palavra marcial, neste trecho, assume caráter alegórico, remetendo a Marte, deus grego dos campos de batalha.

[11] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Marketing de Guerra Santa”: da oferta e atendimento de demandas religiosas à conquista de fiéis-consumidores. In: Horizonte, p. 212.

[12] A noção de entre-lugares, que inspirou estes conceitos – em andamento pode ser vista em H. K. BHABHA, O local da cultura.

[13] O conceito de agência, neste sentido, é pensado não só como o “elemento ativo da ação individual” (T. T. SILVA, Teoria cultural e educação), mas como o empreendimento coletivo que ultrapassa as ações do sujeito – e também como o comportamento das instituições. Assim, sujeitos, coletivos e agências (firmas) religiosas possuem manifestações de agência, ou agenciamentos.

[14] Tal fenômeno é recorrente em diversas agências evangélicas, como a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), que ao mesmo tempo em que promove a intolerância às religiões de matriz afro, costumeiramente associadas “a uma miríade de encostos, capetas e demônios” (E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Marketing de Guerra Santa”: da oferta e atendimento de demandas religiosas à conquista de fiéis-consumidores. In: Horizonte, p. 213), valem-se da apropriação e (re) significação de alguns de seus referentes discursivos como estratégia de atração de fiéis “nativos” destas expressões religiosas.

[15] Se para Bourdieu, campo religioso se associa à confirmação do monopólio por um corpo de especialistas religiosos, relacionados à despossessão de outros do capital religioso (P. BOURDIEU, Genèse et  structure  du  champ  religieux. In: Revue  Française  de Sociologie, p. 304, apud S. W. MALUF, Além do templo e do texto: desafios e dilemas dos estudos de religião no Brasil. In: Antropologia em Primeira Mão, p. 8); para autores como Maluf e Velho, tal conceito não dá suporte para a análise da religiosidade, “através da qual nós temos algo a dizer sobre o  conjunto  da  experiência  humana” (O. VELHO, Religiosidade e antropologia. In: Religião e sociedade, pp. 46-70), “realidade subjacente dos indivíduos e das relações entre eles” (S. W. MALUF, Além do templo e do texto: desafios e dilemas dos estudos de religião no Brasil. In: Antropologia em Primeira Mão, pp. 5-14). A (in) conveniência do uso do conceito de religião também é rasurada neste texto de Maluf e em sua tese (S. W. MALUF, Les enfants Du Verseau au pays dês terreiros).

[16] Certamente, o epíteto santo não tem aqui um sentido de sacralizado, virtuoso, canonizado ou divino.  Deve ser entendido como alegoria, sinalizando para o contexto bélico das guerras santas promovidas por cristãos e não-cristãos durante a medievalidade – e “guerra santa configura-se em paradoxo, já que guerra sugere um contexto, e santa, outro.” (E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Marketing de Guerra Santa”: da oferta e atendimento de demandas religiosas à conquista de fiéis-consumidores. In: Horizonte, p. 213).

[17] Nesta situação de marketing, típica da Idade Mídia (expressão de Stewart Hoover – S.M. HOOVER, Religion in the media age), as agências investem em terminologias adequadas a diferentes nichos de mercado. No caso de agências que tem surfistas como um de seus nichos mercadológicos, como a BDN, é comum a utilização de expressões como “mergulhar na Palavra” e “surfar na onda do Espírito” para se referir à leitura da Bíblia e à oração – e aludir “Jesus como o primeiro surfista do mundo” por este ter caminhado sobre as águas. Agências com públicos-alvo distintos vão usar outras referências como forma de sedução dos mesmos.

[18] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Marketing de Guerra Santa”: da oferta e atendimento de demandas religiosas à conquista de fiéis-consumidores. In: Horizonte, pp. 217-218.

[19] A segmentação associa-se ao contexto de pluralismo religioso estimulado pelo processo de secularização. Para Berger, tal pluralismo promoveu a ultrapassagem de uma situação de monopólio para uma situação “dominada pela lógica da economia de mercado” (P. BERGER, O dossel sagrado, p. 149). Nesta, impulsiona-se não só a criação e a adaptação de produtos (discursos, serviços, ritos e práticas) e mercadorias (audiovisuais, adesivos, roupas e outros) de firmas religiosas já existentes, como também o surgimento de agências especializadas em determinados nichos, o que foi sinalizado por analistas do paradigma do mercado religioso, como Finke: “quando o mercado não estiver regulado, as religiões dirigir-se-ão aos interesses de segmentos específicos do mercado. À medida que surjam novos interesses, uma nova religião aparecerá para ocupar o vazio.” (R. FINKE, 1990, p. 622, apud A. FRIGERIO, O paradigma da escolha racional. Mercado regulado e pluralismo religioso. In: Tempo Social, pp. 17-39).

[20] Anteriormente, a BDNF já havia empreendido outras formas de se aproximar dos estudantes da UFSC, como eventos de evangelismo e a constituição da Célula Trindade, próxima à universidade.

[21] Presbítero André, dando recados antes da pregação Desertos da BDNF. Culto de 19/11/12. Anotações de diário de campo.

[22] Culto dominical noturno da BDNF de 02/09/12.

[23] As células, na BDN, são encontros entre fiéis, mediados por líderes formados a partir de cursos próprios da agência. Tem o papel de atrair e organizar novos integrantes, reforçando a mensagem transmitida no culto principal, sanando dúvidas e propiciando espaço de interação e sensação de pertencimento. Em geral são realizadas em casas, tendo um líder e um anfitrião, mas podem ocorrer em outros espaços, como no caso da Célula UFSC, realizada em local público.

[24] Entrevista realizada após a primeira reunião da Célula UFSC, em 06 de setembro de 2012. Ferreira é líder da célula Trindade, localizada próximo à UFSC. Realizei, com Talita Sene, pesquisa de observação participante e entrevistas sobre a Célula UFSC durante todo segundo semestre de 2012. Tal pesquisa terá um artigo como produto.

[25] Estes shows foram realizados em duas sextas-feiras de novembro de 2012, no horário noturno, na praça Santos Dumont, ao lado da portaria principal da UFSC. Oferecer shows de gospel pop & reggae não é original – a “inovação” está na aproximação ousada. Até 08/12/12 o nome do conjunto era Ide, mas por já haver banda registrada com este nome, o grupo encontra-se sem designação.

[26] É possível, por exemplo, que o ministério de futebol da BDN, que liderei entre 2005 e 2006, tenha sido flanqueado pelo Bola Running a partir de sua criação, em 2010 – alguns dos praticantes do primeiro deslocaram-se para o segundo, como o próprio Digão. O ministério de futebol encontra-se praticamente inativo e o de corrida, em ampla expansão.

[27] Na BDN, os ministérios representam coletivos de pessoas organizadas em torno de funções ou interesses comuns. Dentre estes, destacam-se: Assistência Social, Atacar, Atalaias, Boas-Vindas, Bolinha de Neve, Comunicação, Intercessão, Lojinha, Mergulhando na Palavra, Mulheres, Nova Vida, Radio, Recrie, Relações Internacionais, Sports, Singers, Surdos, Teens e Zeladoria. Células e ministérios funcionam como agenciadores da midiatização e consolidação da BDN, por estimularem a inserção sócio-religiosa do fiel e atuarem na adequação, reprodução e reiteração dos discursos da agência.

[28] Esta competição foi realizada na Avenida Beira-Mar, em 25/11/12, e patrocinada por uma rede de farmácias.

[29] Bola Running Floripa (Facebook). Disponível em: <www.facebook.com/bolarunningfloripa?ref=ts&fref=ts)>.  Acesso em: 19/11/12. Tenho acompanhado, com Talita Sene, treinos, competições e reuniões do Bola Running. Tal observação será descrita em artigo futuro.

[30] Programa Bola de Neve Floripa. Disponível em: <www.facebook.com/BoladeNeveFloripa?fref=ts>. Acesso em: 25/11/12.

[31] P. FRESTON, Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: A. ANTONIAZZI, Alberto (org.). Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo, pp. 67-159.

[32] A. G. MENDONÇA, O Celeste Porvir: A Inserção do Protestantismo no Brasil.

[33] J. BITTENCOURT F º, Remédio amargo. In: A. ANTONIAZZI (org.). Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo.

[34] R. BITUN, A “remasterização” do movimento pentecostal. In: Ciberteologia, pp. 19-31.

[35] A. P. ORO, Podem passar a sacolinha: um estudo sobre as representações do dinheiro no neopentecostalismo brasileiro. In: Cadernos de Antropologia, pp. 7-44; R. MARIANO, Neopentecostalismo: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil.

[36] P. D. SIEPIERSKI, Pós-pentecostalismo e política no Brasil. In: Estudos Teológicos, pp. 47-61.

[37] E. M. de A. MARANHÃO Fº, Neopentecostalismo de supergeração. In: História Agora, pp. 342-362.

[38] Tenho utilizado esta locução em alguns artigos, ciente de sua instabilidade/provisoriedade. Dentre as características da BDN, encontra-se o apego às teologias da prosperidade, cura e libertação, saúde perfeita, batalha e domínio espiritual, considerados atributos típicos do “neopentecostalismo”. Contudo, tais elementos não dão suporte para entender outros aspectos constitutivos da mesma, nem de seus fiéis, ambos com seus hibridismos e deslocamentos.

[39] E. M. de A. MARANHÃO Fº, Caia Babilônia: análise de uma canção religiosa a partir do contexto, poética, música, performance e silêncio. In: Revista Brasileira de História das Religiões, p. 237.

[40] E. G. de M. PAEGLE, A “mcdonaldização” da fé – um estudo sobre os evangélicos brasileiros. In: Protestantismo em Revista, pp. 86-99; L.A.S. ROSSI, Jesus vai ao McDonalds: teologia e sociedade de consumo; L.M.S. MARTINO, Mídia e Poder Simbólico.

[41] L. F. D. DUARTE, Três ensaios sobre pessoa e modernidade. Boletim do Museu Nacional.

[42] A. FRIGERIO, O paradigma da escolha racional. Mercado regulado e pluralismo religioso. In: Tempo Social, pp. 17-39.

[43] A. JUNGBLUT, O “Mercado Religioso”: Considerações sobre as possibilidades analíticas da Teoria da “Economia Religiosa” para a compreensão da religiosidade contemporânea. In: REVER, no prelo.

[44] S. W. MALUF, Além do templo e do texto: desafios e dilemas dos estudos de religião no Brasil. Antropologia em Primeira Mão, pp. 5-14.

[45] R. MARIANO, Usos e limites da teoria da escolha racional da religião. In: Tempo social, pp. 41-66.

[46] Butler comenta sobre a elaboração subjetiva a partir do assujeitamento, fundamentada em autores como Foucault, Freud, Lacan, Althusser, Hegel e Nietzche, e estabelece uma grade de análise sobre nossa emersão como sujeitos a partir das relações de poder, original e simultaneamente assujeitadoras e marcadas pela vulnerabilidade primária – carregando possibilidades de resistências criadoras em relação à norma serializante da dominação (J. BUTLER, The Psychic Life of Power). Para Butler, reiterações produzem diferenças hierarquizantes entre sujeitos, e nomear é convocar, exercendo efeito não só descritivo, mas prescritivo (J. BUTLER, Vida precária).

[47] Sobre a relação com o Outro, ver J. BUTLER, Vida precária.

[48] A identidade costuma ser concebida como aquilo que o sujeito “é”, de modo fixo e essencialista. Para Silva, identidade e diferença são indissociáveis (T. T. SILVA, A produção social da identidade e da diferença. In: T. T. SILVA (org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais).  Diferença e identidade são articuladas a partir das declarações reiterativas, que demarcam fronteiras entre os que pertencem e os que não pertencem, classificando e hierarquizando sujeitos. Hall também entende que a diferença constitui a identidade através de operações como “eu/ele”, nas quais a exclusão constitui a unidade da identidade, resultando em determinações classificatórias e hierarquizantes entre os pólos (S. HALL, Quem precisa da identidade? In: T. T. SILVA (org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais).

[49] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Inclusão” de travestis e transexuais através do nome social e mudança de prenome: diálogos iniciais com Karen Schwach e outras fontes. In: Oralidades (no prelo). Trabalhei, neste texto, com o conceito de entre-gêneros, para trabalhar distintos trânsitos de gênero.

[50] M. AGIER, Distúrbios identitários em tempos de globalização. In: Mana, p. 10.

[51] P. SANCHIS, Inculturação? Da Cultura à Identidade, um Itinerário Político no Campo Religioso: o caso dos agentes de Pastoral negros, Religião e Sociedade, p. 62.

[52] Hall, retomando Derrida, argumenta que o sinal de rasura (X), indica uma escrita dupla na qual o conceito-chave surge como mediador da inversão e da emergência – a identidade sob rasura demonstra a provisoriedade deste conceito, na qual a forma original não é mais suficiente para ser pensada. Entretanto, com a não superação dialética do conceito e sua não substituição por um diferente, este continua sendo pensado, ainda que sob perspectiva desconstrucionista, de modo diferente da forma original (S. HALL, Quem precisa da identidade? In: T. T. SILVA (org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais). Maluf pensa, a partir das identidades sob rasura, na transitoriedade de sujeitos sob rasura: não há mais sujeitos, mas posições de sujeito, bem como não há mais identidades, mas pontos de apego temporário  (S. W. MALUF, Por uma antropologia do sujeito: da Pessoa aos modos de subjetivação. Parte I – Pessoa, Individualismo e crise do sujeito (no prelo).

[53] O problema da (des) classificação está na (re) classificação de conceitos sem a ciência de que todas (ou quase todas) classificações são (mais, ou menos) frágeis. Do mesmo modo, é relevante perceber as situações e relações de transitoriedade que constituem e envolvem – em maior ou menor medida – pesquisas, pesquisados e pesquisadores.

[54] E. M. de A. MARANHÃO Fº, Neopentecostalismo de supergeração. In: História Agora, pp. 342-362.

[55] O Shopping da Bola é a plataforma virtual de compras da BDN. Tais mercadorias são comercializadas também nos espaços internos das unidades da agência, as Lojinhas da Bola. Estas costumam compartilhar espaço com serviços como a Cantina da Bola e, no caso da BDNF, o Filadélfia Sushi Home.

[56] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “Nós somos a dobradiça da porta”: notas preliminares acerca das ambiguidades do discurso sobre as mulheres na Bola de Neve Church, In: Mandrágora, no prelo; E. M. de A. MARANHÃO Fº, Sensualidade e interdição do desejo na Bola de Neve Church. In: Via Teológica, pp. 147-169.

[57] E. M. de A. MARANHÃO Fº, O corpo e o esporte como estratégias de marketing da Bola de Neve Church. In: Oralidades, pp. 35-52.

[58] E. M. de A. MARANHÃO Fº, “É dando-se à igreja que se recebe a graça de Deus”: Discurso econômico em uma igreja neopentecostal. In: MIRANDA, Daniela da Silveira, et al. O gênero em diferentes abordagens discursivas.

[59] E. M. de A. MARANHÃO Fº, Caia Babilônia: análise de uma canção religiosa a partir do contexto, poética, música, performance e silêncio. In: Revista Brasileira de História das Religiões, pp. 234-272.

[60] Desobsessão é um termo utilizado pelo kardecismo, por exemplo. Mas, escutei tal expressão em agências como a BDN, demonstrando a apropriação de vocábulos de outras religiões e apontando para um hibridismo. Nota-se neste discurso maniqueísta um oponente a ser combatido, também chamado de adversário e inimigo. Orixás e entidades de religiões de matriz afro são entendidos em muitas agências evangélicas como seres demoníacos, e resignificados a fim de afugentarem fiéis de tais expressões religiosas e atraí-los.

[61] Caramujo-no-lombo foi locução utilizada por Valdemiro Santiago, da IMPD (Igreja Mundial do Poder de Deus) em 27/11/12, durante programação vespertina, como atestei através de observação de seu programa televisivo. A frase foi “Você tava capetada, mulher – tava com o caramujo no lombo”.

[62] A expressão sobras das Trevas foi referida por Digão: “Meu guia está falando comigo. Epa, não entendam errado, não tou falando de nenhum guia estranho. Meu guia é o Espírito Santo. Quem veio do “movimento” não confunda. Aqui nosso guia é outro. As sobras das trevas só imitam o que o Senhor faz.” Pregação Desertos, de Rodrigo Aldeia (pastor Digão), em 18/11/12 (Notas de caderno de campo).

[63] A batalha contra o capeta é percebida nas liturgias: em 18/11/12, o presbítero Aldo, da BDN Floripa, comentou: “Igreja, vocês sabem por que batemos palmas no culto? É por que somos uma igreja avivada, cheia de fogo. Dá uma salva de palmas prá envergonhar o inferno!” (Anotações de caderno de campo). Envergonhar o Inferno é expressão recorrente na BDN.

[64] Promover a queda da Babilônia, sendo esta uma alusão aos perigos do “mundo”, é uma locução muito utilizada na BDN – demonstrada pela canção Caia Babilônia, espécie de hino da igreja, como expliquei em ocasião anterior (E. M. de A. MARANHÃO Fº, Caia Babilônia: análise de uma canção religiosa a partir do contexto, poética, música, performance e silêncio. In: Revista Brasileira de História das Religiões, pp. 234-272.)

[65] Esta sentença faz parte do 1º verso de Samuel 17.47: “E saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará na nossa mão”.

[66] Davi é uma canção da Oficina G3. As canções O chão vai tremer, do Toque no Altar, e Eu sou de Cristo, de David Quinlan, foram performatizadas no culto de 25/11/12, dentre outras, e entremeadas por brados de Digão conclamando a igreja a marchar e conquistar.

[67] Os seminários de cura e libertação da BDN costumam ser ministrados por pessoas convidadas. No caso do realizado em Jequié, a missão ficou a cargo do Ministério Apostólico O Libertador de Israel, liderado pelo apóstolo Sírio e a pastora Vanda de Olivença, ambos da Bahia.

[68] Ambos foram realizados entre 8 e 10 de junho de 2012. As inscrições davam direito à apostila e o valor era R$ 30, indicando uma padronização do serviço. Notícias. Bola de Neve Church. Disponível em: <www.boladeneve.com/noticias/boladeneve/jequie-convida-para-seminario-de-cura>. Acesso em: 02 jun. 2012.

[69] P. BOURDIEU, A economia das trocas linguísticas (o que falar quer dizer), p. 105; E. P. ORLANDI, A linguagem e seu funcionamento. As Formas do Discurso, passim.

[70] R. MARIANO, Neopentecostalismo: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, p. 113.

[71] News. Disponível em: <http://www.boladenevechurch.com.br/admin/conteudos/images/news _081201.jpg>. Acesso em: 3 novembro 2009.

[72] News. Disponível em: <http://www.boladenevechurch.com.br/admin/conteudos/images /news_ 080227.jpg>.  Acesso em: 3 novembro 2009. Analisarei mais detalhadamente este ministério em trabalho posterior.

[73] M. AGIER, Distúrbios identitários em tempos de globalização. In: Mana, p. 10.

[74] Geração de Samuel, de Fernandinho.

[75] Para diálogos com a ideia de odres e vinhos, ver M. N. CUNHA, Vinho novo em odres velhos. Um olhar comunicacional sobre a explosão gospel no cenário religioso evangélico no Brasil.

[76] Outra locução “nativa” empregada pela BDN é saquear o Inferno, como se vê na frase retirada do perfil do Moto Clube BDNF no Facebook: “Mais uma frente começando, é a igreja avançando e saqueando o inferno! Mais que um moto clube, uma família. Um propósito e uma missão!” Moto Clube BDN Floripa. Disponível em: <www.facebook.com/MotoClubeBolaDeNeveFloripa>. Acesso em: 28 nov. 2012.

[77] Tal expressão é utilizada por pesquisadores como Magali Cunha (M. N. CUNHA, A Explosão Gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo).

[78] P. BOURDIEU, A economia das trocas simbólicas.

[79] R. MARIANO, Neopentecostalismo: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, p. 44.

[80] News. Disponível em: <http://www.boladenevechurch.com.br/admin/conteudos/images /news_ 080625.jpg>. Acesso em: 3 maio 2009. Esta homenagem se realizou em vinte e um de junho de 2008.

[81] Filho de Montoro pede expulsão de colega sob acusação de fraude. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/poder/1169752-filho-de-montoro-pede-expulsao-de-colega-sob-acusacao-de-fraude.shtml>. Acesso em: 22/10/12.

[82] News. Disponível em: <http://www.boladenevechurch.com.br/admin/conteudos/ images/news_080625.jpg>. Acesso em: 3 maio 2009.

[83] Agradecimento de Eduardo Tuma aos eleitores. Disponível em: <www.eduardotuma.com.br/>. Acesso em: 05 nov. 2012.

[84] Recebido por email em 26/09/2012, juntamente com carta do pastor Digão indicando a candidatura.

[85] E. M. de A. MARANHÃO Fº, Sensualidade e interdição do desejo na Bola de Neve Church. In: Via Teológica.

[86] Em relação aos resultados das eleições de 2012 em Florianópolis: Barreto não foi eleito, mas ficou como suplente, com 753 votos. É pertinente lembrar que a maioria dos fiéis da BDNF são moradores flutuantes desta cidade, e seu título de eleitor é de outras localidades. Provavelmente poucos frequentadores da BDNF tenham votado. Alguns fiéis me comentaram que a baixa votação teve como motivo o início da campanha, muito próximo das eleições, e sem o apoio de pessoas e grupos influentes (Conversa realizada após o culto de 25/11/12).

[87] Expressões bélicas como defesa, ataque, estratégias, avanço, expansão, arma espiritual, conquista de territórios e remover inimigos são referentes discursivos recorrentes e que demonstram o contexto militar esperado aos que obedecem a um Senhor dos Exércitos.

[88] Teatro de operações de guerra é locução utilizada por militares para referirem-se a campos de batalha, ou o espaço geográfico – terrestre, aéreo e marítimo – envolvido nas operações militares de uma guerra.

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Raízes históricas da teologia da prosperidade

Revista Ultimato, edição 313

Alderi Souza de Matos

O evangelicalismo brasileiro apresenta características apreciáveis e preocupantes. Entre estas últimas está o gosto por novidades. Líderes e fiéis sentem que, para manter o interesse pelas coisas de Deus, é preciso que de tempos em tempos surja um ensino novo, uma nova ênfase ou experiência. Geralmente tais inovações têm sua origem nos Estados Unidos. Assim como outros países, o Brasil é um importador e consumidor de bens materiais e culturais norte-americanos. Isso ocorre também na área religiosa. Um movimento de origem americana que tem tido enorme receptividade no meio evangélico brasileiro desde os anos 80 é a chamada teologia da prosperidade. Também é conhecida como “confissão positiva”, “palavra da fé”, “movimento da fé” e “evangelho da saúde e da prosperidade”. A história das origens desse ensino revela aspectos questionáveis que devem servir de alerta para os que estão fascinados com ele.

Ao contrário do que muitos imaginam, as idéias básicas da confissão positiva não surgiram no pentecostalismo, e sim em algumas seitas sincréticas da Nova Inglaterra, no início do século 20. Todavia, por causa de algumas afinidades com a cosmovisão pentecostal, como a crença em profecias, revelações e visões, foi em círculos pentecostais e carismáticos que a confissão positiva teve maior acolhida, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. A história de seus dois grandes paladinos irá elucidar as raízes dessa teologia popular e mostrar por que ela é danosa para a integridade do evangelho.

Essek W. Kenyon, o pioneiro
Embora os adeptos da teologia da prosperidade considerem Kenneth Hagin o pai desse movimento, pesquisas cuidadosas feitas por vários estudiosos, como D. R. McConnell, demonstraram conclusivamente que o verdadeiro originador da confissão positiva foi Essek William Kenyon (1867-1948). Esse evangelista de origem metodista nasceu no condado de Saratoga, Estado de Nova York, e se converteu na adolescência. Em 1892 mudou-se para Boston, onde estudou no Emerson College, conhecido por ser um centro do chamado movimento “transcendental” ou “metafísico”, que deu origem a várias seitas de orientação duvidosa. Uma das influências recebidas e reconhecidas por Kenyon nessa época foi a de Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã.

Kenyon iniciou o Instituto Bíblico Betel, que dirigiu até 1923. Transferiu-se então para a Califórnia, onde fez inúmeras campanhas evangelísticas. Pregou diversas vezes no célebre Templo Angelus, em Los Angeles, da evangelista Aimee Semple McPherson, fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular. Pastoreou igrejas batistas independentes em Pasadena e Seattle e foi um pioneiro do evangelismo pelo rádio, com sua “Igreja do Ar”. As transcrições gravadas de seus programas serviram de base para muitos de seus escritos. Cunhou muitas expressões populares do movimento da fé, como “O que eu confesso, eu possuo”. Antes de morrer, em 1948, encarregou a filha Ruth de dar continuidade ao seu ministério e publicar seus escritos.

Quais eram as crenças dos tais grupos metafísicos? Eles ensinavam que a verdadeira realidade está além do âmbito físico. A esfera do espírito não só é superior ao mundo físico, mas controla cada um dos seus aspectos. Mais ainda, a mente humana pode controlar a esfera espiritual. Portanto, o ser humano tem a capacidade inata de controlar o mundo material por meio de sua influência sobre o espiritual, principalmente no que diz respeito à cura de enfermidades. Kenyon acreditava que essas idéias não somente eram compatíveis com o cristianismo, mas podiam aperfeiçoar a espiritualidade cristã tradicional. Mediante o uso correto da mente, o crente poderia reivindicar os plenos benefícios da salvação.

Kenneth Hagin, o divulgador
O grande divulgador dos ensinos de Kenyon, a ponto de ser considerado o pai do movimento da fé, foi Kenneth Erwin Hagin (1917-2003). Ele nasceu em McKinney, Texas, com um sério problema cardíaco. Teve uma infância difícil, principalmente depois dos 6 anos, quando o pai abandonou a família. Pouco antes de completar 16 anos sua saúde piorou e ele ficou confinado a uma cama. Teve então algumas experiências marcantes. Após três visitas ao inferno e ao céu, converteu-se a Cristo. Refletindo sobre Marcos 11.23-24, chegou à conclusão de que era necessário crer, declarar verbalmente a fé e agir como se já tivesse recebido a bênção (“creia no seu coração, decrete com a boca e será seu”). Pouco depois, obteve a cura de sua enfermidade.

Em 1934 Hagin começou seu ministério como pregador batista e três anos depois se associou aos pentecostais. Recebeu o batismo com o Espírito Santo e falou em línguas. No mesmo ano foi licenciado como pastor das Assembléias de Deus e pastoreou várias igrejas no Texas. Em 1949 começou a envolver-se com pregadores independentes de cura divina e em 1962 fundou seu próprio ministério. Finalmente, em 1966 fez da cidade de Tulsa, em Oklahoma, a sede de suas atividades. Ao longo dos anos, o Seminário Radiofônico da Fé, a Escola Bíblica por Correspondência Rhema, o Centro de Treinamento Bíblico Rhema e a revista “Word of Faith” (Palavra da Fé) alcançaram um imenso número de pessoas. Outros recursos utilizados foram fitas cassete e mais de cem livros e panfletos.

Hagin dizia ter recebido a unção divina para ser mestre e profeta. Em seu fascínio pelo sobrenatural, alegou ter tido oito visões de Jesus Cristo nos anos 50, bem como diversas outras experiências fora do corpo. Segundo ele, seus ensinos lhe foram transmitidos diretamente pelo próprio Deus mediante revelações especiais. Todavia, ficou comprovado posteriormente que ele se inspirou grandemente em Kenyon, a ponto de copiar, quase palavra por palavra, livros inteiros desse antecessor. Em uma tese de mestrado na Universidade Oral Roberts, D. R. McConnell demonstrou que muito do que Hagin afirmou ter recebido de Deus não passava de plágio dos escritos de Kenyon. A explicação bastante suspeita dada por Hagin é que o Espírito Santo havia revelado as mesmas coisas aos dois.

Reflexos no Brasil
Os ensinos de Hagin influenciaram um grande número de pregadores norte-americanos, a começar de Kenneth Copeland, seu herdeiro presuntivo. Outros seguidores seus foram Benny Hinn, Frederick Price, John Avanzini, Robert Tilton, Marilyn Hickey, Charles Capps, Hobart Freeman, Jerry Savelle e Paul (David) Yonggi Cho, entre outros. Em 1979, Doyle Harrison, genro de Hagin, fundou a Convenção Internacional de Igrejas e Ministros da Fé, uma virtual denominação. Nos anos 80, os ensinos da confissão positiva e do evangelho da prosperidade chegaram ao Brasil. Um dos primeiros a difundi-lo foi Rex Humbard. Marilyn Hickey, John Avanzini e Benny Hinn participaram de conferências promovidas pela Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno (Adhonep). Outros visitantes foram Robert Tilton e Dave Robertson.

Entre as primeiras manifestações do movimento estavam a Igreja do Verbo da Vida e o Seminário Verbo da Vida (Guarulhos), a Comunidade Rema (Morro Grande) e a Igreja Verbo Vivo (Belo Horizonte). Alguns líderes que abraçaram essa teologia foram Jorge Tadeu, das Igrejas Maná (Portugal); Cássio Colombo (“tio Cássio”), do Ministério Cristo Salva, em São Paulo; o “apóstolo” Miguel Ângelo da Silva Ferreira, da Igreja Evangélica Cristo Vive, no Rio de Janeiro, e R. R. Soares, responsável pela publicação da maior parte dos livros de Hagin no Brasil. Talvez a figura mais destacada dos primeiros tempos tenha sido a pastora Valnice Milhomens, líder do Ministério Palavra da Fé, que conheceu os ensinos da confissão positiva na África do Sul. As igrejas brasileiras sofreram o impacto de uma avalanche de livros, fitas e apostilas sobre confissão positiva. Ricardo Gondim observou em 1993: “Com livros extremamente simples, [Hagin] conseguiu influenciar os rumos da igreja no Brasil mais do que qualquer outro líder religioso nos últimos tempos”.

Conclusão
Além de apresentar ensinos questionáveis sobre a fé, a oração e as prioridades da vida cristã, e de relativizar a importância das Escrituras por meio de novas revelações, a teologia da prosperidade, através dos escritos de seus expoentes, apresenta outras ênfases preocupantes no seu entendimento de Deus, de Jesus Cristo, do ser humano e da salvação. A partir dos anos 80, várias denominações pentecostais norte-americanas se posicionaram oficialmente contra os excessos desse movimento (Assembléias de Deus, Evangelho Quadrangular e Igreja de Deus). Autores como Charles Farah, Gordon Fee, D. R. McConnell e Hank Hanegraaff, todos simpatizantes do movimento carismático, escreveram obras contestando a confissão positiva e suas implicações. Eles destacaram como, embora essa teologia pareça uma maneira empolgante de encarar a Bíblia, ela se distancia em pontos cruciais da fé cristã histórica.

No Brasil, três obras significativas publicadas em 1993 — “O Evangelho da Prosperidade”, de Alan B. Pieratt; “O Evangelho da Nova Era”, de Ricardo Gondim; e “Supercrentes”, de Paulo Romeiro — alertaram solenemente as igrejas evangélicas para esses perigos. Tristemente, vários grupos, principalmente os que têm maior visibilidade na mídia, estão cada vez mais comprometidos com essa teologia desconhecida da maior parte da história da igreja. Ao defenderem e legitimarem os valores da sociedade secular (riqueza, poder e sucesso), e ao oferecerem às pessoas o que elas ambicionam, e não o que realmente necessitam aos olhos de Deus, tais igrejas crescem de maneira impressionante, mas perdem grande oportunidade de produzir um impacto salutar e transformador na sociedade brasileira.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.
asdm@mackenzie.com.br

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Intimidação, digo, notificação extrajudicial dos organizadores do evento gospel Herdeira

AO
Movimento pela Ética Evangélica Brasileira
Att: Pr. Paulo Siqueira e Sr. Ideraldo de Figueiredo

Prezados Senhores,

Somos do Escritório Jorge Vacite Neto Advogados Associados que representa os interesses da Comunidade Evangélica Internacional Zona Sul.

Desta feita, serve o presente para NOTIFICÁ-LOS EXTRAJUDICIALMENTEnos termos deduzidos no documento em anexo, que também segue colacionado abaixo.

Certos de vossa colaboração,

JVN – JORGE VACITE NETO ADVOGADOS ASSOCIADOS

[...]

http://www.jorgevaciteadvogados.com.br

e-mail: jvnadv@jvnadv.com.br

RIO DE JANEIRO – SÃO PAULO – BRASÍLIA – BELO HORIZONTE – ITAJAÍ – BARCELONA

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

ILUSTRÍSSIMO SENHOR TABELIÃO DO CARTÓRIO DE TÍTULOS E DOCUMENTOS

NOTIFICADO: Movimento pela Ética Evangélica Brasileira, devidamente representado pelo Pr. Paulo Siqueira e pelo Sr. Ideraldo de Figueiredo.

NOTIFICANTE: Comunidade Evangélica Internacional Zona Sul.

Comunidade Evangélica Internacional Zona Sul., entidade religiosa, sem fins lucrativos, inscrita no CNPJ sob o nº. XXX, com sede na Praia do Flamengo, nº. 72-A, Rio de Janeiro, representada por seu presidente Marco Antônio Rodrigues Peixoto, brasileiro, casado, Pastor Evangélico, titular da carteira de identidade nº. XXX, expedida pelo IFP e inscrito no CPF sob o nº. XXX, vem por seu advogado, à presença de Vossa Senhoria, requerer a

N O T I F I C A Ç Ã O

do Movimento pela Ética Evangélica Brasileira, devidamente representado pelo Pr. Paulo Siqueira e pelo Sr. Ideraldo de Figueiredo Figueiredo, pelos motivos que passa a expor:

1 – A Notificante é a organizadora da Conferência Herdeira 2013, que será realizada no Ginásio Gilberto Cardoso – Maracanãzinho – no dia 04 de maio do corrente ano;

2 – Nessa qualidade, a Notificante recebeu missiva dirigida à mesma pelo Notificado (documento anexo), na qual foi informada que representantes e membros desse último se farão presentes na Conferência Herdeira 2013;

3 – No citado documento, o Notificado afirma que:

a) Busca esclarecer o que é e quais são seus propósitos para evitar conflitos desnecessários, decorrentes da incompreensão de nossos motivos e anseios.”;

b) Reconhece na pessoa do Pr. Paulo Siqueira, idealizador e promotor deste movimento, nosso representante.”;

c) Pretende “estar no evento Herdeira com nossas faixas e camisetas, de forma totalmente pacífica, expressando, neste espaço público que nos fora reservado, aquilo que acreditamos ser um chamado à santidade e à unidade”;

d) “Gostaríamos de solicitar que os Organizadores do evento Herdeira alertem sua equipe e, se possível, os participantes quanto a nossas intenções pacíficas, evitando assim conflitos desnecessários como na última edição da Marcha para Jesus em São Paulo, quando fomos alvo de insultos, agressões e coerções.”;

e) “(…) gostaríamos de solicitar que busquem alertar seus integrantes – em especial à equipe de segurança – que não é lícito o roubo de nossas faixas, afinal o roubo de qualquer bem é crime, e é pecado – não convém que o povo de Deus seja associado a tais práticas –“;

f) “Reconhecemos que temos total direito de nos manifestar através de faixas e camisetas, pois no atual Estado de direito é garantida a livre expressão.”

4 – Dúvida não pode haver, pela leitura do texto completo, bem como pelos trechos acima destacados, que os representantes do Notificado e seus eventuais membros, pretendem, assim como o fizeram na Marcha para Jesus, realizar verdadeira manifestação exteriorizada por palavras de ordem, camisetas, faixas e galhardetes durante a Conferência Herdeira 2013;

5 – Nesse contexto, através da presente, cumpre esclarecer que, ao contrário da Marcha para Jesus, que ocorreu em vias públicas, sendo objeto de mera autorização conferida pelo Poder Público, a Conferência Herdeira 2013, terá lugar em local privado, objeto de contrato de uso de espaço junto à SUDERJ, o que caracteriza situação jurídica análoga à locação e transfere toda a administração do espaço, bem como dos objetos e ações que ali podem ter lugar à Notificante;

6 – Embora seja evidente que a Conferência Herdeira 2013, organizada pela Notificante é um evento aberto ao público, resta igualmente claro que se trata de evento privado, sujeito a regras próprias e cujos comportamentos esperados por parte dos participantes são do congraçamento, aprendizado e oração;

7 – Nos exatos termos tornados públicos por diversos meios de comunicação, a Conferência Herdeira tem mobilizado mulheres ao redor do mundo. O evento nasceu há 10 anos com o importante desafio de equipar e conscientizar a mulher quanto ao seu papel e valor. No evento estarão reunidas mulheres e participantes de outras cidades do mundo e de diferentes realidades, para que todos conheçam melhor o propósito para o qual as mulheres foram criadas e os instrumentos que as mesmas detêm para realizar as maiores conquistas;

8 – Precisamente dentro desse contexto, e visando que o foco do evento seja aquele apresentado para todo o público por seus organizadores, não será permitida a entrada ou a manutenção dentro do local do evento de qualquer material de publicidade – camisetas, painéis, galhardetes, faixas e similares, de qualquer natureza – estranhos ao objeto e à Conferência Herdeira 2013;

9 – Como resta evidente, a Notificante não pode permitir que, o momento e local de realização da Conferência Herdeira 2013, seja utilizado por outros grupos ou entidades, sem sua expressa e prévia autorização, para qualquer finalidade ou movimento estranho ao evento;

10 – Nesse contexto e de forma expressa, a Notificante, pelo presente instrumento, informa que o Notificado, seus representantes e seus membros, embora possam participar livremente da Conferência Herdeira 2013, NÃO estão autorizados a ingressar com nenhum material promocional – camisetas, painéis, galhardetes, faixas e similares, de qualquer natureza –,equipamentos de som ou qualquer outro equipamento ou material, bem como NÃO estão autorizados a utilizar o momento e local de realização da Conferência Herdeira 2013, para qualquer finalidade ou movimento estranho ao evento;

11 – Ressalte-se que de nenhuma forma se pretende obstaculizar a livre manifestação do pensamento ou de expressão, que poderá ser realizada pelo Notificado em outros locais e em outras oportunidades, mas não em um evento privado, em local arrendado para esse fim pela Notificante apenas para a realização da Conferência Herdeira 2013;

12 – Por fim, cumpre destacar que qualquer ato em desacordo com o que figura no conteúdo da presente Notificação, notadamente causando tumulto, desconforto aos participantes ou qualquer outro tipo de problema durante a realização da Conferência Herdeira 2013, caracterizará a PRÁTICA DE ABUSO DO EXERCÍCIO DE LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO E EXPRESSÃO, ficando, portanto, sujeito às sanções civis e criminais previstas em lei;

13 – Qualquer conduta da Notificada, de seus representantes ou de seus membros, em sentido contrário ao ora exposto na presente Notificação, irá acarretar a tomada pelaNotificante de todas as medidas que considerar necessárias, inclusive com eventual uso de força policial, sem prejuízo das medidas judiciais cabíveis.

Por todo o exposto, reiterando o convite de participação harmônica, pacífica e não direcionada a nenhum objeto diverso ou estranho aos objetivos da Conferência Herdeira 2013, tem a presente a finalidade de NOTIFICAR o Movimento pela Ética Evangélica Brasileira, devidamente representado pelo Pr. Paulo Siqueira e pelo Sr. Ideraldo de Figueiredo, dos fatos acima narrados, requerendo que o mesma, se abstenha da prática de qualquer ato em desacordo com o ora exposto durante toda a realização da Conferência Herdeira 2013.

Feita a NOTIFICAÇÃO ora pleiteada, requer, ainda, seu subscritor, a entrega, independentemente de traslado, para fins de futuros procedimentos judiciais.

Rio de Janeiro, 02 de maio de 2013.

Att.

Jorge Vacite Neto

OAB/RJ 63.592

Algumas considerações:

1- Nunca invadimos eventos fechados ou privados gospel. Não usamos de palavras de ordem. Nossa manifestação é totalmente pacífica, apenas contando com faixas e camisetas com versículos bíblicos. Sempre nos posicionamos na via pública ou em calçada não pertencente ao local do evento gospel justamente em respeito ao direito de seus organizadores, e como tal também esperamos ser respeitados no nosso direito de expressão;

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2- Nossas faixas e camisetas trazem versículos bíblicos. É absurdo imaginar que os mesmos líderes gospel que dizem pregar a Palavra de Deus se sintam incomodados em ver estampadas nas faixas e camisetas versículos contidos em suas Bíblias, mas isso acontece – quase sempre, infeliz e tristemente;

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3- Estamos totalmente e sempre abertos ao diálogo, mas certas lideranças gospel preferem enviar seus advogados. Será falta de argumentação teológica para o que pregam?;

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4- Embora “notificados”, perseveraremos e lá estaremos, neste e em qualquer evento gospel onde seja necessário levar a Igreja à reflexão sobre seu papel no mundo e a proclamação do Reino. E levaremos os mesmos versículos que alguns líderes gospel gostariam de rasgar de suas bíblias particulares;

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5- Mais do que nunca, voltemos ao Evangelho puro e simples, o $how tem que parar!

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6- A história se repete. Há dois mil anos, um certo nazareno foi perseguido pelos líderes religiosos de sua época porque insistia em pregar a Palavra de Deus como ela realmente é.

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” – Mateus 5:11-12

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A Igreja que não existe mais!

Por Ariovaldo Ramos

“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” At 2. 43-47

Na época do surgimento da Igreja do Novo Testamento, a palavra igreja significava, apenas, uma reunião qualquer de um grupo organizado ou não. Assim, o texto nos revela que havia um grupo organizado em torno de sua fé (Todos os que criam estavam unidos) – todos acreditavam em Cristo.

Segundo o texto, os participantes do grupo do Cristo não tinham propriedade pessoal, tudo era de todos (tinham tudo em comum)– os membros desse grupo vendiam suas propriedades e bens e repartiam por todos – e isso era administrado a partir da necessidade de cada um; e se reuniam todos os dias no templo; e pensavam todos do mesmo jeito, primando pelo mesmo padrão de vida (unânimes); e comiam juntos todos os dias, repartidos em casas, que, agora, eram de todos, uma vez que não havia mais propriedade particular; e eram alegres e de coração simples; e viviam a louvar a Deus; e todo o povo gostava deles, e o grupo crescia diariamente. Diariamente, portanto, havia gente acreditando em Cristo, se unindo ao grupo, abrindo mão de suas propriedades e bens e colocando tudo a disposição de todos.

Essa Igreja era a Comunhão dos santos – chamados e trazidos para fora do império das trevas,
para servirem ao Criador, no Reino da Luz.

Essa Igreja não precisava orar por necessidades materiais e sociais, bastava contar para os irmãos, que a comunidade resolvia a necessidade deles.

Deus havia respondido, a priori, todas as orações por necessidades materiais e sociais, fazendo surgir uma comunidade solidária.

O pedido: “O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje. (MT 6.9) ” estava respondido, e diariamente.

Então, para haver o “pão nosso” não pode haver o pão, o bem ou a propriedade minha, todos os bens e propriedades têm de ser de todos.

Mais tarde, eles elegeram um grupo de pessoas, chamadas de diáconos – garçons, para cuidar disso (At 6.3). Então, diante de qualquer necessidade, bastava procurar os garçons, que a comunidade cuidava de tudo. Era o princípio do direito: se alguém tinha uma necessidade, a comunidade tinha um dever.

Essa Igreja não existe mais!

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“Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungido-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.” Tg 5.14,15

Os membros da comunidade do Cristo não precisavam orar por cura física, bastava procurar os presbíteros: lideres eleitos pelo povo, a partir de suas qualidades como cristãos (1Tm 3.1-7); que eles ungiriam com óleo, que representa a ação do Espírito Santo, porque é o Espírito Santo, quem unge e cura (Lc 4.18), e a pessoa seria curada; claro, sempre segundo a vontade do Senhor, porque essa é a regra de ouro: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na Terra como no Céu. (MT 6.10)”

Os crentes em Jesus de Nazaré, não precisavam fazer varredura espiritual para ver se tinham qualquer problema, parecido com o que hoje é chamado de maldição hereditária, ou similar. A oração dos presbíteros ministrava o perdão de Deus, conquistado por Cristo na cruz e na ressurreição.

Deus havia respondido todas as orações por cura física pela instituição de presbíteros, que tinham a autoridade para ministrar o poder de Cristo sobre a enfermidade, segundo a vontade de Deus, dependendo, portanto, apenas, do que o Altíssimo tivesse decidido sobre a pessoa em questão.

Essa Igreja não existe mais!

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Pelo que orava a Igreja do Novo Testamento?

“Mas eles ainda os ameaçaram mais, e, não achando motivo para os castigar, soltaram-nos, por causa do povo; porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera; pois tinha mais de quarenta anos o homem em quem se operara esta cura milagrosa. E soltos eles, foram para os seus, e contaram tudo o que lhes haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos. Ao ouvirem isto, levantaram unanimemente a voz a Deus e disseram: Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e tudo o que neles há; que pelo Espírito Santo, por boca de nosso pai Davi, teu servo, disseste: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma, contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse. Agora pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para curar e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Servo Jesus. E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a palavra de Deus.” At 4.21-31

Oravam para que nenhum sofrimento os impedisse de glorificar a Cristo, de anunciá-lo com coragem e determinação – o Cristo que eles viviam diariamente pela fraternidade solidária. Oravam por missão!

Para além da Igreja que está sob perseguição, não há sinal de que essa Igreja ainda exista!

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O que existe?

- A Comunhão dos santos existe na realidade da Igreja invisível. Mas, que relevância tem na história uma igreja invisível?
- Ajuntamentos cúlticos – há os que procuram se pautam pela Bíblia, e os que nem tanto.
- Instituições – (muitas e cada vez mais) há as que ainda tentam ser apenas um odre para o vinho, e as que nem tanto.
- Discursos sobre Cristo e sua obra – há os que falam sobre Jesus, segundo a Bíblia, e os que nem tanto.
- Conversões pessoais – há as que trazem marcas do Novo Testamento, e as que nem tanto.
- Missionários – há os que pregam a Cristo, sua morte e ressurreição, e os que nem tanto. O apoio ao missionário está mais para esmola do que para sustento.
- Ação social – há as que querem emancipar o pobre, por amor a Cristo, e as que nem tanto.
- Pastores e Lideres – há os que tentam alcançar o padrão dos presbíteros do Novo Testamento, e os que tanto menos.
- Títulos – em profusão, constratanto com a escassez de irmãos.
- Orações – principalmente, por necessidades materiais, sociais e de cura, que parecem não ser respondidas, pelo menos, não a contento.
- Milagres – (mas pessoais) a misericórdia divina continua se manifestando, porém, não se entende mais o princípio de sua ação.
- Ministérios – há os que são ministros (servos), e os que nem tanto.
- Riqueza – Instituições estão cada vez mais ricas, e há os que usufruem da mesma.
- Ricos e Poderosos – muitos e cada vez mais se declaram conversos, mas não se converteram como Zaqueu.
- Irmãos e irmãs que amam a Cristo e a Igreja, mas que estão cada vez mais confusos sobre o que estão assistindo – e há, cada vez mais, um amor em crise.

E ecoa a voz do Cristo: Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? (Lc 18.8)

Talvez, ainda haja tempo de pedir perdão!

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Palmas para a Teologia da Prosperidade, que está dando frutos em Angola

Cartaz de evento da IURD em Angola, que culminou com mortos e feridos, além das falsas promessas de prosperidade em troca de gordos dízimos e ofertas não serem cumpridas.

Primeiro a matéria da Folha de São Paulo de 27/04/13, depois meus comentários:

Angola proíbe operação de igrejas evangélicas do Brasil

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

O governo de Angola baniu a maioria das igrejas evangélicas brasileiras do país.

Segundo o governo, elas praticam “propaganda enganosa” e “se aproveitam das fragilidades do povo angolano”, além de não terem reconhecimento do Estado.

“O que mais existe aqui em Angola são igrejas de origem brasileira, e isso é um problema, elas brincam com as fragilidades do povo angolano e fazem propaganda enganosa”, disse à Folha Rui Falcão, secretário do birô político do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e porta-voz do partido, que está no poder desde a independência de Angola, em 1975.

Cerca de 15% da população angolana é evangélica, fatia que tem crescido, segundo o governo.

Em 31 de dezembro do ano passado, morreram 16 pessoas por asfixia e esmagamento durante um culto da Igreja Universal do Reino de Deus em Luanda. O culto reuniu 150 mil pessoas, muito acima da lotação permitida no estádio da Cidadela.

O mote do culto era “O Dia do Fim”, e a igreja conclamava os fiéis a dar “um fim a todos os problemas que estão na sua vida: doença, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas na família, separação, dívidas.”

O governo abriu uma investigação. Em fevereiro, a Universal e outras igrejas evangélicas brasileiras no país — Mundial do Poder de Deus, Mundial Renovada e Igreja Evangélica Pentecostal Nova Jerusalém– foram fechadas.

No dia 31 de março deste ano, o governo levantou a interdição da Universal, única reconhecida pelo Estado.

Mas a igreja só pode funcionar com fiscalização dos ministérios do Interior, Cultura, Direitos Humanos e Procuradoria Geral da Justiça. As outras igrejas brasileiras continuam proibidas por “falta de reconhecimento oficial do Estado angolano”. Antes, elas funcionavam com autorização provisória.

As igrejas aguardam um reconhecimento para voltar a funcionar, mas muitas podem não recebê-lo. “Essas igrejas não obterão reconhecimento do Estado, principalmente as que são dissidências, e vão continuar impedidas de funcionar no país”, disse Falcão. “Elas são apenas um negócio.” [grifo nosso]

Segundo Falcão, a força das igrejas evangélicas brasileiras em Angola desperta preocupação. “Elas ficam a enganar as pessoas, é um negócio, isto está mais do que óbvio, ficam a vender milagres.” [grifo nosso]

Em relação à Universal, a principal preocupação é a segurança, disse Falcão.

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Criança ferida por ser acusada de “ser bruxa” por conta da pregação de pastores da prosperidade em Angola. O Caminho da Graça tem feito um trabalho de resgate dessas pequenas vidas abandonadas à própria sorte por conta desse pseudo-cristianismo (que dá muito dinheiro aos seus líderes).

Meus comentários:

Sobre o governo de Angola não vou dizer que sou favorável, mesmo sem conhecer a situação do país. Um governo terreno que se perpetua no poder não pode ser coisa boa, pois, se fosse, daria espaço para a alternância de poder. Isso serve não apenas para países como também para igrejas, onde muitas vezes vemos a liderança passar de pai para filho, ilimitadamente, demonstrando que a igreja em questão pertence à família fundadora e não a Cristo (afinal, cá para nós, será que Deus sempre levantará alguém da mesma família como o melhor para a liderança da igreja? E como explicar que o fundador é o líder, sua esposa é a líder de algum importante setor da igreja e seu filho é o líder do louvor? Isso deixa claro que muitas igrejas ditas evangélicas têm por dono não Jesus, mas seu fundador, que para não perder aquilo que fundou deixa seu “feudo gospel” sempre nas suas mãos e nas de seus familiares).

Porém, mesmo não concordando com o governo de Angola, não posso fechar os olhos aos argumentos que ele encontrou para proibir a operação de igrejas evangélicas em seu país.

Elas são apenas um negócio. Elas ficam a enganar as pessoas, é um negócio, isto está mais do que óbvio, ficam a vender milagres.”

Ora, não é exatamente isso que as igrejas que pregam a demoníaca, abominável e famigerada Teologia da Prosperidade fazem e são?

Tenho que dar uma salva de palmas para a diabólica e insana Teologia da Prosperidade e sua doutrina irmã Cura Interior e Libertação, e seus líderes cães gulosos devoradores.

Parabéns, teólogos e líderes da Teologia da Prosperidade, que em suas igrejas e em seus programas de rádio e televisão dizem anunciar a Cristo. Graças a vocês, ao invés de mais pessoas conhecerem a Cristo, mais e mais estão conhecendo a Mamom, através da busca incessante pelas bênçãos materiais que o falso deus que vocês servem diz distribuir aos que o adoram. Isso é bíblico:

“Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.” – Mateus 4:8-11

Palmas e mais palmas aos loucos que pregam a Teologia da Prosperidade, afinal graças à sua insanidade espiritual conseguiram fechar uma nação ao conhecimento do verdadeiro Evangelho. Ora, alguém acha que o governo de Angola vai saber diferenciar um falso pastor de um verdadeiro pastor do Evangelho? Basta o verdadeiro pregador dizer-se brasileiro que o caldo entornará de vez.

Uma salva de palmas aos seguidores da Teologia da Prosperidade e da Cura Interior e Libertação, pois conseguiram deturpar tanto o Evangelho de Jesus Cristo que tornaram o Puro e Santo em promessas de riquezas na terra e sincretismo religioso com as mesmas religiões afro que costumam defenestrar à luz do dia.

Vejam o vídeo abaixo do que ocorre na África, por conta do ensino deturpado do Evangelho de Cristo, e tirem suas próprias conclusões.

Meu Deus, até quando profanarão Seu Santo Nome??????

Mas agora, cá para nós, vocês acham que estamos muito longe de acontecer o mesmo aqui no Brasil?

Talvez, por nossa atual conquista da “democracia”, não tenhamos igrejas fechadas compulsoriamente. Porém, muito em breve teremos igrejas fechadas por falta de membros, afinal uma hora a carapuça de engano da Teologia da Prosperidade vai cair e muitos abandonarão essas igrejas, e muitos mais não quererão dar ouvidos ao Evangelho, pensando tudo se tratar da mesma coisa. E quanto às atrocidades em nome de rituais de libertação, aqui no Brasil podem não estar ferindo a carne das pessoas, mas estão causando graves feridas nas almas, que se iludem achando que só serão libertas cumprindo o que o(a) apóstolo(a) de libertação mandar fazer. Para eles, Jesus não tem poder para libertar ninguém.

O movimento de fechamento de igrejas no Brasil, por falta de membros, já começou (embora ainda não pareça). Cresce a cada dia o número dos “desigrejados”, daqueles que saíram de igrejas da “prosperidade” e da “cura interior e libertação” e não pensam em entrar em nenhuma outra. E também mudou a concepção que os “do mundo” têm em relação aos evangélicos. Se antes éramos ultrapassados nos costumes, porém pessoas dignas de total confiança, hoje somos desonestos, aproveitadores, supersticiosos e idiotizados, massa de manobra de líderes inescrupulosos gospel.

Uma pessoa busca uma religião buscando uma melhora interior através do contato com o divino. Como pregar o Evangelho, se quem diz segui-lo não demonstra ser uma pessoa melhor, mais tolerante, mais amável? Como pregar o Evangelho, se quem diz segui-lo só demonstra arrogância e prepotência, só demonstra se importar com sua própria vitória (mesmo que isso custe o sofrimento de outros)?

Muitos têm se tornado espíritas por conta do testemunho de caridade e amor ao próximo que os seguidores de Allan Kardec demonstram concretamente. Muitos estão se voltando ao catolicismo por conta do testemunho de humildade e amor que o Papa Francisco tem dado, mesmo no início do seu pontificado, fora os vários exemplos de vida cristã de muitos que foram canonizados. O dalai-lama é conhecido por ser alguém humilde e sábio.

E nós, evangélicos, que exemplos de desprendimento, amor, humildade e vida cristã nossos líderes mais em evidência no Brasil têm demonstrado ao mundo?

Capas da revista Forbes, sendo matéria em ranking de riqueza; uso de dízimos e ofertas para a construção de templos monumentais, jatinhos particulares, haras, fazendas gigantescas, relógios Rolex; uso de horários em rádios e tv’s, comprados com dinheiro dos fiéis, não para a pregação do Evangelho, mas para marketing pessoal e manipulação política; intolerância total com os que professam os chamados “pecados sexuais” e vistas grossas aos estelionatários da fé, corruptos e injustos (pois costumam ter bons dízimos e ser influentes na política).

Que o exemplo do que está ocorrendo em Angola sirva para pelo menos uma coisa: nos abrir os olhos sobre os gravíssimos malefícios que os pregadores da Teologia da Prosperidade têm feito em nosso meio. E que Deus possa levantar homens e mulheres dispostos a tudo para que Sua Palavra seja pregada como ela realmente é.

“Quisera eu me suportásseis um pouco na minha loucura! Suportai-me, porém, ainda. Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo. Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo. Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis.” – 2 Coríntios 11:1-4

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
o $how tem que parar!

Por Vera Siqueira

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Ética e Esperança na Igreja no Brasil

Ariovaldo Ramos - http://ariovaldoramosblog.blogspot.com.br

” Vós não sabeis de que espírito sois. ” disse Jesus em Lc 9.55, aos irmãos Tiago e João, que, quando perceberam que uma aldeia de Samaria se recusava a permitir a passagem de Jesus, perguntaram-lhe se gostaria que pedissem ao Pai que mandasse fogo do céu para destruir aquela vila. Jesus explicou que o filho do homem não veio para destruir o alma dos homens, mas para salvá-los.

Jesus estava ensinando ética para os seus discípulos. O que eles sugeriram não combinava com caráter da obra, da pessoa e da natureza de Cristo. Ética é isso, a coerência entre meio e o fim. Sei que há muitas outras definições possíveis, mas, ficarei com esta, que aponta para a finalidade e a natureza como norte. O meio pode ser um pensamento, uma motivação, uma atitude, um ato, etc..

Tiago e João faltaram com a ética porque não entenderam quem eram, portanto, não sabiam como se portar. Porque quem não sabe quem é e para o que existe, não sabe o que pensar, que motivação deve ter ou aceitar, que atitude deve acalentar, que ação deve tomar. Jesus, ao contrário desses discípulos, sabia quem era, se chamou de o filho do homem, sabia que era o grande representante da humanidade, o modelo de gente e o único caminho para a nossa salvação. Jesus sabia, assim, exatamente, como deveria se portar em todos os sentidos.

Para falar sobre a relação entre a igreja e a ética, temos de entender o que é a igreja. A igreja é a comunhão dos seres humanos que receberam a mesma revelação que Pedro e que, portanto, adora a Jesus. A revelação que Pedro recebeu foi de que Cristo é o filho do Deus vivo, portanto, é Deus, e Deus a gente adora. Adorar a Cristo é proclamá-lo, ele, a encarnação da virtude de Deus e imitar Jesus de Nazaré. Porque o João disse que quem diz estar nele deve andar como ele andou, e Paulo disse, de si mesmo, que ele era um imitador de Cristo, e que nós deveríamos seguir seu exemplo, disse, também, que vivia para anunciá-lo.

Assim, a igreja é a comunhão de pessoas que, individual e comunitariamente, no poder do Espírito, imitam e anunciam a Jesus de Nazaré, o Cristo, no seu dia-a-dia, em tudo o que fazem. O Cristo que a gente imita é o Cristo que habitou entre nós. Porque Paulo disse que a gente devia contemplar a glória do senhor e não o senhor da glória; e a glória do senhor é Jesus de  Nazaré, o Cristo, fazendo da vontade e comunhão com Deus a sua comida e bebida, e andando por todos os lugares fazendo o bem para todas as pessoas.

Também, temos de lembrar que, quando João estava nas regiões celestes chorando porque não havia quem pudesse tomar o livro da mão daquele que estava sentado no trono, um ancião apontou para ele o leão da tribo de Judá, porém, tudo o que ele conseguiu ver foi o Cordeiro que foi morto. O céu pode falar do leão, porém, a gente só vê o cordeiro, se temos de imitar alguém, só podemos fazer isso em relação a alguém que a gente pode observar, e a gente vê o cordeiro, portanto, só dá para imitar o cordeiro. A espiritualidade cristã não é a do leão mas, a do cordeiro. Isso deveria influenciar a nossa liturgia, de modo que tanto as nossas músicas como os demais movimentos litúrgicos deveriam nos mostrar o cordeiro, que foi morto e que ressuscitou ao terceiro dia, em sua devoção ao Pai e serviço aos homens.

A igreja também é um homem coletivo, Paulo disse que Jesus Cristo criou, nele mesmo, um Novo Homem, esse novo homem é fruto da reconciliação entre judeus e gentios. Recordemos que, para a mentalidade judaica, o mundo estava dividido em dois grupos, judeus e gentios. O que os separava era a compreensão e o relacionamento com Deus, os judeus sabiam de tudo sobre Deus e com ele tinham comunhão, os gentios, por sua vez, não tinham nada, estavam sem Deus no mundo e, portanto, sem senso de finalidade e sem esperança. Jesus Cristo ao apresentar-se a ambos como a única possibilidade de realmente se ter acesso às promessas de Deus, colocou-os numa mesma base, acabou a briga, tanto um quanto o outro precisam de Cristo para ter Deus.

A medida que judeus e gentios vão admitindo isso, e se rendendo a Jesus, passam a formar a nova humanidade, porém, com uma diferença significativa em relação a anterior, são habitação do mesmo Espírito e passam a se amar tanto que essa unidade, o homem coletivo, fruto desse Espírito, aparece. E a imagem e semelhança da Trindade é plenamente manifestada.

Então, viver a Igreja é fomentar o surgimento dessa comunidade que manifesta essa unidade. Isso, também, deveria dar o tom de nossa liturgia; vocês já se deram conta de quantas músicas nós cantamos enfatizando a primeira pessoa do singular, eu, eu, eu… onde está o nós?, quando vamos aprender a nos ver a partir da comunidade?

E tem mais, a igreja também está identificada com o Reino de Deus. Em Daniel o Reino é um domínio exercido por um povo que nunca o perderá; em Apocalipse é um povo de sacerdotes que reinará sobre a terra; em João Batista o Reino exige que as pessoas se arrependam, o que vai desembocar na prática da solidariedade; na fala de Jesus, que confirma João, o Reino é um sistema onde o poder é o serviço; é um lugar que só pode ser visto do lado de dentro, pois, tanto para ver como para entrar a pessoa tem de nascer de novo, logo, só vê se entrar, então, quem viu, viu do lado de dentro; e só pode participar dele quem rompeu com tudo para viver apenas por ele; é um lugar onde só a vontade de Deus é feita; é uma realidade a ser vivida e a ser aguardada, assim como, uma mensagem a ser anunciada prioritariamente aos pobres.

Na fala de Paulo, o Reino é um estado de alegria, paz e justiça, onde o trabalhador é o primeiro a desfrutar de seu trabalho; onde quem colheu de mais não tem sobrando e quem colheu de menos não passa necessidade, e todos trabalham para acudir ao necessitado.

A Igreja é o povo do Reino, que o vive e o sinaliza. Ser ético, então, para a Igreja, é ser coerente na história, em meio a sociedade, com a complexidade de sua natureza e finalidade. Em que músicas, leituras e orações, mesmo, nosso compromisso como povo do reino aparece? A ética começa na liturgia, na forma como nós apresentamos o nosso culto a Deus.

A gente é ético no contexto onde a gente vive. O nosso contexto é o Brasil, país de contrastes perversos: uma das maiores economias e um dos piores índices de distribuição dessa riqueza; uma tecnologia desenvolvida ao lado dos piores índices de alfabetização e de aquisição de cultura; uma das arquiteturas mais reconhecidas e respeitadas ao lado de um dos maiores de índices de déficit habitacional e de submoradias; um dos maiores territórios do planeta, com terras das mais férteis ao lado dos piores índices de distribuição de terra; uma das mais eficazes agriculturas ao lado da fome e da subnutrição; uma medicina das mais desenvolvidas ao lado de índices estarrecedores de mortalidade infantil.

Temos uma das legislações mais avançadas na área dos direitos humanos ao lado de graves índices de violência contra a mulher, abuso de crianças e adolescentes e prática de tortura; um dos códigos penais de maior senso humanitário ao lado de um dos sistemas carcerários mais aviltantes e degradados; uma das democracias raciais mais celebradas ao lado de um racismo pérfido, pois, sutil, não confessado e disfarçado de problema sócio-econômico, onde o negro, cantado em prosa e verso, não consegue ser cidadão e está condenado à pobreza e a ignorância.

Temos uma das constituições mais avançadas ao lado dos piores e mais corruptos políticos encontrados numa nação classificada entre as modernas; um dos sistemas de votação mais avançados ao lado de um processo eleitoral marcado pela preponderância do poder econômico e por vícios que perpetuam no poder uma casta de caudilhos, sistema onde se tem a obrigação do voto mas não se tem o direito de veto, onde o eleito pelo povo transforma o mandato em patrimônio pessoal e fonte de riqueza; uma cultura marcada pela criatividade ao lado de um mercado cultural colonizado e emprobecedor; um dos povos que mais confessam a existência de Deus ao lado de uma vergonhosa manipulação religiosa e de arraigadas práticas de superstição, que o tornam prisioneiro de forças malignas.

O que significa agir de forma coerente à nossa natureza e finalidade num contexto desse?

A face mais visível e, aparentemente, a que mais cresce da igreja brasileira ao invés de denunciar a injustiça social e propor e viver uma economia solidária, passou a pregar uma teologia que sustenta a desigualdade ao afirmar que a riqueza deveria ser o alvo do crente, e que o caminho é a fé atestada pelo nível de contribuição e pela capacidade de arbitrar, por decreto, sobre o que Deus deve fazer.

Ao invés de denunciar a miséria e a dívida do estado para com os excluídos passou a denunciar a provável pequena fé dos desgraçados; ao invés de socorrer aos enfermos, enquanto denunciava o descaso, começou a apregoar uma cura instantânea para aqueles que, com um certo tipo de fé, freqüentarem o ministério certo.

Ao invés de combater o racismo passou a estigmatizar como maligna tudo o que se relaciona com a cultura negra, como se o demônio fosse negro e, portanto, tudo o que é negro fosse demônio.

Ao invés de denunciar a corrupção passou a fazer negociatas com sórdidos representantes da camarilha que mantém o país no subdesenvolvimento, assim como, a participar, sem restrições, do jogo político, cassando o direito político de suas ovelhas, pelo constrangimento, para que votem nos candidatos escolhidos pelos líderes; líderes que ao invés de praticarem o serviço para que se forme uma comunidade, tornaram-se caudilhos que se locupletam às custas da boa fé, de gente que apenas queria Deus.

Líderes e que se escondem em títulos pomposos enquanto transformam a igreja numa cultura de massas fácil de manobrar; ao invés de pregar a graça que foi de modo abundante derramada através de Cristo Jesus, passou a demandar sacrifícios acompanhados de doações cada vez mais constrangidas, para que o fiel se tornasse apto para receber a bênção desejada.

Líderes que ao invés de promover a mansa espiritualidade do cordeiro, promoveram a esquizofrênica espiritualidade do leão, que tenta transformar em “já” o “ainda não” do reino, enquanto transforma o “já” do reino em “nunca”; ao invés de viver, sinalizar e anunciar o reino, passaram a caçar os principados e potestades nas regiões celestiais, ora localizando e derrubando os seus postes ídolos, ora ungindo de alguma forma criativa a cidade, inaugurando o que James Houston chamou de evangelização cósmica.

Líderes que ao invés de fomentar o surgimento da comunidade do Reino, importaram modelos de agrupamento que aumentam a produtividade da igreja na promoção do crescimento numérico, que passou a ser aval de benção divina; ao invés de pregar e praticar a vitória de Cristo na cruz e na ressurreição sobre todos os agentes do mal, passou, de um lado, a pregar uma teologia que mais infundia medo do que fé, e, de outro lado, a, segundo, o articulista  Ricardo Machado, umbandizar as igrejas.

É claro que tivemos problemas éticos em outros segmentos de igreja, sim, porque Igreja Brasileira é uma categoria ideológica evocada nas generalizações; o que existe, de fato, é uma gama de Igrejas no Brasil, não estou falando das divisões denominacionais, que, aliás estão desfiguradas, mas, dos vários jeitos de ser igreja, que acabam, por se constituir em segmentos estanques entre si.

Houve segmento que, diante dessa realidade cruel  recrudesceu o fundamentalismo legalista e alienado, outro houve que assumiu a igreja como uma empresa, sonhando também com impérios,  e passou a importar modelos de gerenciamento que a organizasse, desenvolvesse excelência ministerial e produzisse crescimento, usando, muitas vezes, o princípio do “apartheid”, e as ovelhas foram feitas mão de obra e os pastores foram feitos gerentes de programa.

Graças a Deus, porém, não precisamos entrar em desespero, pois, a crise na fé cristã não é o pecar é o não se arrepender. E há sinais de arrependimento. Pois há o outro lado: Jesus Cristo não diz apenas: “vós não sabeis de que espírito sois”,  diz, também: “vinde benditos de meu pai”.

Nos vários segmentos da igreja, a resposta apareceu: pipocaram programas de ação social, creches, distribuição de cestas básicas, distribuição de alimentos para moradores de rua, entre outros. Os programas começaram assistencialistas, mas, pouco a pouco, foram se tornando mais voltados para soluções estruturais.

Milhares de ONGs foram criadas com as mais diferentes finalidades de cunho social: escolas, casas-lar, programas de desenvolvimento comunitário, programas de alfabetização, e muito mais. Um leve mas decisivo movimento do Espírito tem se feito sentir cada vez mais, o interesse de grupos dos vários segmentos em se ajuntarem numa frente evangélica pela inclusão social.

É crescente interesse dos jovens, pastores e leigos, no significado dessa resposta, na retomada da questão da espiritualidade, iniciada por parte do segmento da missão integral, nos fazendo revisitar a patrística, nos encorajando a repensar o fazer pelo fazer. São sinais que evidenciam esse movimento discreto mas firme do Espírito de toda a consolação, que nos está reconduzindo a coerência.

É daqui que temos de continuar. Temos uma teologia para desenvolver, precisamos, sob essa nova ótica, repensar a teologia sistemática e a identidade protestante; temos uma espiritualidade para retomar, a espiritualidade do Cordeiro; temos uma igreja para edificar, de modo que, pelo menos nela, todas as raças e classes desapareçam dando lugar à única raça que Deus criou, a raça humana; e, com o fim das classes, todos sejam gente como gente tem de ser, à imagem de Jesus de Nazaré.

Temos um país para influenciar, temos profecia a proferir. Precisamos refletir, a partir dessa compreensão teológica, sobre o labor político e partidário; sobre economia; sobre genética; sobre bioengenharia; sobre a globalização, sobre a chamada pós-modernidade, sobre a nova sexualidade, sobre a fermentação religiosa, sobre o desafio do Islã, sobre formas de fazer entendida a mensagem da cruz, num mundo em mutação; sobre a questão agrária e o meio ambiente; sobre a urbanização na América Latina; sobre a relação da igreja com o estado.

Temos de nos encontrar mais, trabalhar mais juntos, abrir o círculo para que novos não só sejam atraídos, como já o estão sendo, mas, para que se sintam bem vindos e em casa. Temos um reino para viver e para manifestar. E não estamos sós: o Senhor Jesus está  onde sempre esteve, reinando sobre sua Igreja e sobre todo o universo; e o Espírito Santo está aqui, pairando sobre o caos, soprando vida, levando a Igreja que está no Brasil a um avivamento que ainda não conheceu, o avivamento que chama à história o clamor de Jesus, retratado por Lucas: “Bem aventurados os pobres porque deles é o Reino de Deus.”

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