Por que os evangélicos brasileiros têm dificuldades em apresentar um caráter transformado?

carc3a1ter.jpgPor que as igrejas evangélicas brasileiras têm dificuldades de se apresentar à sociedade através dos exemplos frutos da transformação do caráter dos seus fiéis?

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” – 2 Coríntios 5:17

Essa é uma reflexão bastante difícil. Muitos que acompanham este blog talvez possam pensar: “só há críticas ao sistema evangélico brasileiro?”

A questão é que este blog é uma ferramenta de conscientização cristã, e para isso objetivamos refletir a realidade cotidiana. Lamentavelmente, o que temos observado na nossa vivência ministerial em meio à igreja é que muito do que é pregado nos púlpitos não é vivenciado nem praticado por muitos que se dizem “evangélicos” no Brasil.

Está difícil ver no cotidiano exemplos de uma verdadeira transformação que parte do caráter para a consciência genuinamente cristã, à luz dos Evangelhos. O que temos visto são pessoas superficiais, levadas por modismos, metodologias, que produzem conversões emotivas, sensacionalistas, frutos de um evangelho místico, mágico, centrado muito mais no propósito de satisfazer os anseios humanos do que ser um referencial de espiritualidade para seus fiéis.

Os evangélicos brasileiros perderam sua identidade, ou melhor, será que um dia a tiveram? (https://pedrasclamam.wordpress.com/2012/04/18/a-igreja-barasileira-precisa-recuperar-sua-identidade/)

Segundo a Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha em seu livro Do Púlpito às Mídias Sociais:

“A imagem dos ‘evangélicos’ no país foi construída com base na identidade de dois grupos de cristãos não católicos e ortodoxos: os protestantes de diferentes confissões, que chegaram ao Brasil  por meio de missões dos Estados Unidos, a partir da segunda metade do século XXI, e os pentecostais, que aportaram na primeira década do século X. Os grupos protestantes que alcançaram o Brasil por meio de imigração, luteranos e anglicanos, construíram uma identidade própria com aberturas significativas à contextualização/inculturação. (…)

Independente das peculiaridades dos distintos grupos que formam o segmento, os evangélicos brasileiros são identificados nos estudos de religião por: 1) uma predominante leitura fundamentalista (literalista, a partir das ideias dos fundamentos da fé) do texto sagrado cristão, a Bíblia; 2) ênfase na piedade pessoal, na busca da salvação da alma (influência do puritanismo e do pietismo dos pioneiros missionários que vieram do Sul dos Estados Unidos no século XIX ao Brasil; 3) frequentes posturas de rejeição das manifestações culturais não cristãs no país (fruto da mesma ação de missionários); 4) um isolamento das demandas sociais (resultante da espiritualização das questões da existência individual e social), entre elas a participação política. Tudo isso gera uma imagem construída em torno do nome evangélico, centrada nas práticas e ideias do protestantismo missionário do Sul dos Estados Unidos e do pentecostalismo embranquecido, mostrando ao Brasil um segmento cristão predominantemente conservador teologicamente, marcado pela conjunção milenarista e fundamentalista e puritana – arminiana – pietista. Desprovido de tradição litúrgica, com prática centrada na palavra e pouca ou nenhuma ênfase na comunicação visual e/ou simbólica; rígido em relação aos prazeres do corpo e à moralidade cotidiana, por meio de um rompimento com expressões culturais brasileiras, anticatólico e denominacionalista. Sendo assim, a terminologia evangélico é resultado desta forma de identidade.”

Vários são os autores que tentam definir ou interpretar qual a verdadeira identidade dos evangélicos. Dentro da proposta deste artigo, essa perda ou falta de identidade é um dos principais motivos da igreja evangélica brasileira ter dificuldades em formar um verdadeiro caráter cristão em seus fiéis, pois se partirmos do princípio que a igreja não sabe o que é, fica difícil a caminhada.

Falo isso em reflexão do que temos visto. Se imaginarmos que uma igreja como a Metodista do Brasil está enfrentando um processo de neopentecostalização, o que dizer?

Nessa reflexão vamos analisar diversos pontos:

  1. As conversões não ocorrem influenciadas pelas essências do Evangelho, mas sim moldadas dentro dos interesses, programas das instituições, lideranças ou “donos” das igrejas. As igrejas se tornaram “casas de interesses” tanto das instituições, dos líderes e dos fiéis. Em muitos segmentos, o foco é satisfazer esses interesses. Para isso, o Evangelho não é o centro das ações. Tudo gira em torno de metodologias, ideias, reprodução de estratégias, tudo objetivando o crescimento financeiro, de membresia. Isso faz surgir uma igreja muito mais administrativa, burocrática, onde a espiritualidade é simplesmente um termo empregado para justificar que aquele local tem o nome de “igreja”. As conversões também seguem esse rito, ou seja, não se produzem novas criaturas, mas sim cópias. Quem ainda não viu cópias de Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Agenor Duque e outros? O sujeito não tem o direito de escolher a roupa, o corte de cabelo, o vocabulário. Tudo tem que seguir a padronização da instituição e do líder. Até os trejeitos, cacoetes devem ser copiados das lideranças. Se alguém não seguir essa padronização, está fora. O cabeça, ali, não é Cristo, mas sim o “dono” ou líder da igreja. Com isso, não temos conversões ao Evangelho, mas sim um espírito de convencimento onde o objetivo é se tornar uma cópia do líder. É triste, mas essa é a realidade, e olha que estou tentando descrever essa realidade sem me aprofundar nas bizarrices existentes.
  2. Foco em “teologias” e não em uma prática e vivência cristocêntrica.Vemos muitas igrejas mais preocupadas em divulgar suas teologias institucionais do que o próprio Evangelho. O Evangelho só aparece porque ele é a forma de publicar ou justificar as ideias. Há muitos teólogos e líderes que se tornaram verdadeiros especialistas nos fundadores das suas instituições, dando-se a impressão de que sabem mais da biografia dos criadores de sua denominação do que do próprio Cristo. Chego a pensar muitas vezes que nesses espaços o fundador da instituição é o motivo da fé. Isso tem se refletido na formação de muitos pastores, pois a maioria das instituições de ensino teológico são regidas por ideologias, onde não se aprende uma teologia plural, mas sim uma determinada teologia, ignorando as demais. Isso é refletido na falta de uma verdadeira teologia fundamentada na cultura brasileira. As teologias que temos não são frutos de um pensamento teológico brasileiro. Tudo o que temos e vemos vem de fora. Parece que só há sentido em um pensamento teológico se ele for importado. Muitos teólogos brasileiros que ousam quebrar esse círculo não conseguem encontrar apoio e estão isolados com seus pensamentos. Só há continuidade em um pensamento teológico se ele for amparado pelas antigas cátedras acadêmicas. Fora disso, parece não haver teologia. O resultado disso é que somos obrigados a suportar um cidadão como Agenor Duque se autointitulando teólogo. E somos cotidianamente bombardeados por inúmeras heresias travestidas de teologias. Já é sabido que no Brasil a grande maioria dos pastores não tem uma formação teológica consistente, e isso é fruto de vários dos pontos citados acima. Lamentavelmente, em muitas instituições de ensino não se ensina teologia, ensina-se a manutenção, o crescimento e a subsistência da instituição. Por conta disso, muitas são as instituições religiosas no Brasil onde os pastores e líderes têm seus vencimentos calculados de acordo com as metas e objetivos alcançados.
  3. Para muitos evangélicos, a instituição está acima do próprio Evangelho. Pastores estão sendo transformados em funcionários das instituições. São cobrados e os resultados determinam os passos do seu ministério. Os pastores não são avaliados pela consagração, pelo conhecimento, mas sim pelos resultados. Com isso temos igrejas fracas, e muitas que nem sequer podem ser consideradas igrejas. Isso reflete o porquê de tantos pastores que desistem do ministério em tão pouco tempo. Os que permanecem aos poucos vão esfriando na fé, vão abandonando as práticas cristãs e aos poucos se tornam verdadeiros atores, que encenam um personagem: o pastor. O reflexo disso são pastores doentes, igrejas doentes, fiéis doentes. E essas doenças são graves. Os noticiários estão refletindo isso.
  4. Igrejas que não evangelizam. Hoje é comum se acreditar mais em metodologias de marketing e comunicação do que numa evangelização que espelhe os Evangelhos. Evangelização, hoje, para muitas instituições é o marketing pessoal do seu líder. São suas ideias sendo expostas. A exemplo da Universal, onde os versículos bíblicos são fracionados, isolados e em muitos casos nem sequer citados. O pastor ou apresentador usa pseudônimos para se referir a Deus, a Jesus. Tudo se torna um grande espetáculo. O objetivo ali não é levar a pessoa que assiste ou ouve à consciência de que é um pecador e de que Cristo foi enviado por Deus para lhe salvar, e que essa salvação é mediante a Graça (e de graça). Para isso, é preciso que todos os seres humanos se arrependam, convertam seus caminhos e cheguem à reconciliação com o Criador. Temos visto uma grande confusão, onde alguns acreditam que pelo simples fato de se emocionar, chorar ouvindo uma música com fundo emocional é reflexo de uma conversão. Em alguns locais, chamam de discipulado reuniões de adestramento e doutrinação (para não chamar de lavagem cerebral). Sem falar que transformaram o termo missão em reuniões para arrecadação de fundos, transformando a missão da igreja em algo sem fundamento. Muitas das igrejas que fazem algum tipo de evangelização não conseguem fazer sem a ideia centrada de propagar o Reino de Deus, mas sim com o objetivo de abrir mais uma filial da sua instituição. Sem contar que as chamadas missões estão se transformando em verdadeiras empresas de turismo religioso. Temos irmãos e irmãs que em nome da evangelização ou de missões têm visitado diversos países sem apresentar um trabalho consistente em prol do Reino. E mesmo com todas essas viagens, muitos são os que não apresentam transformação de vida e frutos de uma conversão. Muitos projetos de evangelização só têm sentido se trouxer alguma vantagem ou algum lucro à instituição. Essa é a razão pela qual a evangelização de marginalizados é praticamente ignorada por muitas denominações. Temos visto igrejas cercadas por comunidades carentes, e essas instituições nem sequer um programa social possuem. A falta de evangelização tem gerado um crescimento desordenado, fazendo da igreja pequenas porções e não um todo. Os fiéis são vistos como parte do capital das instituições, e não como vidas a serem reparadas, transformadas.

Muitos são os pastores que enxergam e sabem de todos esses pontos aqui citados, porém não conseguem se desmamar do sistema. Muitos se acovardam e vivem e fazem o jogo. Com isso, muitos frequentam a igreja, porém poucos passam por uma verdadeira transformação. E muitos são os que têm uma conversão incompleta, pois foram convencidos de que para seguir a Cristo basta levantar a mão e ir à frente. Recebem uma oração, aprendem a dizimar e ofertar e buscar a vitória. Muitos são os que nada sabem da Graça transformadora do Espírito Santo Consolador.

Estas são algumas razões pelas quais muitos não conseguem completar sua caminhada de fé. Lamentavelmente, o número de fiéis que sai das instituições é maior do que os que entram. As instituições não estão se atentando para o número crescente de “deixados para trás”, os chamados desigrejados, os machucados, os feridos.

Sem contar que muitas são as denominações que não se importam com o fato de, apesar de termos um grande percentual de evangélicos no país, isso não resulte em uma transformação de caráter do brasileiro. Ainda somos reconhecidos como o povo do “jeitinho”, da sensualidade.

Na minha opinião, o grande problema da igreja brasileira é o fato de que muitos crentes não são levados ao arrependimento, à redenção e à santificação através da consciência bíblica. É triste dizer, mas muitos são os que, apesar de frequentar, dizimar, ofertar, ainda assim não se converteram.

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O caminho é longo e árduo. Nós precisamos voltar ao Evangelho de Cristo. A igreja precisa deixar de dar lucro e começar a ter, se possível, prejuízos, porém ela precisa ser um instrumento unicamente de Deus para o mundo.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

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O que o Natal realmente significa?

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Stephen Nichols

Uma das mais extraordinárias histórias de Natal vem de um dos momentos mais sombrios da história moderna. A Primeira Guerra Mundial devastou um continente, deixando destruição e destroços em seu rastro. As perdas humanas, mesmo de milhões, nos deixam desconcertados. Mas a partir do meio desse conflito tenebroso ocorre a história da Trégua de Natal de 1914. A Frente Ocidental, há apenas alguns meses na guerra, era um cenário deplorável de devastação. Talvez para dar aos combatentes um dia para que respirassem novamente, foi convocada uma trégua desde a véspera de Natal até o dia de Natal.

Enquanto a escuridão caía sobre a frente como um cobertor, o som de explosivos e o barulho do tiroteio desapareceram. Pequenos corais, de vozes francesas ou inglesas de um lado e de vozes alemãs do outro, se elevavam de modo a encher o silêncio da noite.

Pela manhã, soldados, a princípio de maneira hesitante, começaram a sair do emaranhado das trincheiras para o solo terrível e seco da Terra de Ninguém. Havia mais cânticos. Presentes de alimentos e cigarros foram trocados. As fotos de família foram mostradas. Bolas de futebol surgiram. Ao longo de toda a Frente Ocidental, os soldados, que apenas horas antes estavam travando o combate mortal, agora se enfrentavam em jogos de futebol.

Por um dia breve, mas inteiramente extraordinário, houve paz na terra. Alguns chamaram a Trégua de Natal de 1914 de “o Milagre na Frente Ocidental”.

Ansioso para imprimir algumas boas notícias, The Times of London informou sobre os eventos da Trégua de Natal. Os soldados registraram o dia em cartas para a família e em diários. Algumas dessas anotações chegaram aos jornais, enquanto outras permaneceram desconhecidas até serem descobertas posteriormente. Aqui está uma dessas anotações do diário de um soldado alemão da infantaria:

Os ingleses trouxeram uma bola de futebol das trincheiras, e logo ocorreu um jogo animado. Quão surpreendentemente maravilhoso, e, contudo, quão estranho foi. Os oficiais ingleses sentiram o mesmo. Assim, o Natal, a celebração do Amor, conseguiu unir inimigos mortais como amigos por um momento.

“Amigos por um momento”, “a celebração do amor”, “paz na terra” — este é o significado do Natal. Mas essas celebrações, essas tréguas, não duram. Depois do dia de Natal, as bolas de futebol e os soldados voltaram para as trincheiras. As canções natalinas acabaram e a guerra continuou. E mesmo que a 1ª Guerra Mundial terminasse, algumas décadas mais tarde, o campo e as cidades da Europa se tornaram novamente um campo de batalha, assim como a África e o Pacífico, durante a 2ª Guerra Mundial.

Eventos como a Trégua de Natal são dignos de serem celebrados. Mas eles carecem de algo. Falta-lhes a permanência. Essa paz não permanente é o que muitas vezes encontramos em nossa busca pelo significado real do Natal. Se buscamos a boa vontade, o amor e a paz duradouros e definitivos, devemos olhar para além de nossos encontros para entrega de presentes, reuniões e festas no trabalho. Não devemos olhar para outro lugar senão para uma manjedoura.

Devemos olhar para um bebê nascido não com festejo, pompa ou riquezas, mas com pais pobres em momentos de desespero. José e Maria, e o bebê Jesus nesse sentido, foram figuras históricas reais. Mas, de certa forma, José e Maria se estendem além de si mesmos, além de seu lugar e tempo particulares. Eles representam todos nós. Todos nós somos pobres e vivemos momentos de desespero. Alguns de nós são melhores do que outros em camuflar isso. No entanto, todos nós somos pobres e desesperados, então todos nós precisamos da promessa vinculada a esse bebê.

Precisamos de uma saída para nossa pobreza de alma e para o estado desesperado da nossa condição humana. Encontramos a saída nessa criança deitada numa manjedoura, que era e é Jesus Cristo, o Messias, a Semente, o Redentor e o Rei, há muito prometido.

O nascimento de Jesus há séculos atrás pode ter sido um nascimento um pouco fora do comum. Mesmo em épocas antigas, estalagens não eram comumente usadas como salas de parto e manjedouras geralmente não eram usadas como berços para bebês recém-nascidos. E esse bebê recém-nascido era muito fora do comum. Naturalmente, em alguns aspectos, ele era perfeitamente comum. Ele era um ser humano, um bebê. Ele teve fome. Ele teve sede. Ele sentiu cansaço. Quando nasceu, foi envolto em faixas — o equivalente antigo de fraldas.

Um bebê. Desamparado, com fome, frio e cansaço.

Ainda assim, essa criança era o Filho de Deus encarnado. Ele era Emanuel, que traduzido significa “Deus conosco”. De acordo com o relato do apóstolo Paulo, esse bebê criou todas as coisas. Esse bebê criou a sua própria manjedoura. E esse bebê, esse Rei, opera paz na terra, paz definitiva e permanente.

Tradução: Camila Rebeca Teixeira

Revisão: William Teixeira

Original: The Real Meaning of Christmas.

Fonte: Ministério Fiel

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O perigoso precedente aberto pelo MPT no caso das cartilhas da Hirota Foods Supermercados

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Em comemoração ao Dia da Família, a rede Hirota Foods Supermercados distribuiu aos seus clientes uma cartilha com devocionais do pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes. Porém, após denúncias o Ministério Público do Trabalho decidiu pela suspensão da distribuição (que por si só já havia se encerrado, pois abrangeu apenas o período próximo ao Dia da Família).

Para entender o caso: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/mp-manda-supermercado-de-sp-suspender-cartilha-que-condena-gays-aborto-e-sexo-fora-do-casamento.ghtml.

Para quem achava que o Brasil goza de liberdade religiosa, eis aí um perigoso precedente do contrário.

Vejamos.

Liberdade religiosa implica em se poder expressar a fé livremente. Como o Estado é laico, obviamente não é oportuno expressar uma ou outra fé nos equipamentos públicos, pertencentes ao Estado. Assim, fere a laicidade do Estado tanto um culto evangélico como um ritual vudu durante as atividades do órgão governamental, pois ou se dá espaço para todas as demonstrações religiosas, ou não se dá espaço a nenhuma, sob pena do Estado privilegiar essa ou aquela religião. Se o Estado brasileiro não fosse laico, aí seria outra história.

Porém, se o Estado é laico, os cidadãos não são. É direito de todos terem ou não terem uma religião. Até os servidores públicos podem ter sua fé, a ser expressada fora das dependências governamentais. Da porta do governo para fora, a Constituição Federal nos garante o direito de livre expressão da fé.

O caso da Rede Hirota é emblemático. A rede de supermercados não tem qualquer ligação com o governo, sendo uma empresa privada. Seus donos devem professar uma fé, aparentemente evangélica. Por professarem tal fé, decidiram através de SUA empresa, do SEU espaço, distribuir a cartilha com devocionais que, obviamente, pregam a crença que seguem ou que consideram a ideal. Mas aí alguém não concorda com pontos dessa crença e levam o caso ao Ministério Público do Trabalho (do Trabalho???), que resolve por suspender a distribuição, como se o mercado estivesse errado. E o mercado, por sua vez, para não perder clientes é praticamente obrigado a emitir “sinceras desculpas” pelo ocorrido.

Vivemos o tempo absurdo do “politicamente correto”. O que inicialmente poderia ser positivo, inibindo formas de bullying, por exemplo, com o tempo se mostrou uma patrulha contra os que não são do “mundo”. Hoje não podemos usar frases racistas, o que é maravilhoso, mas também não podemos falar do pecado, da perversão, dos valores que essa sociedade moderna está jogando no lixo supostamente em prol da felicidade e da união mundial.

Mesmo no âmbito puramente religioso já não é possível discutir aborto, homossexualismo, poligamia, corrupção, idolatria sem ser taxado de fundamentalista ou coisa pior. Veja que não estou falando em concordar ou discordar, apenas em discutir! Isso porque a religiosidade que o “mundo” nos permite, nesse momento de Era de Aquários e busca por uma unidade mundial, é a religião cantada por Raul Seixas: “faça o que tu queres que é tudo da lei”.

Milhões morrem no mundo todos os dias das mais diversas causas. Mas basta um terrorista matar dez ou vinte na América ou na Europa que a imprensa nos entope com informações de como o fundamentalismo religioso é prejudicial. No que concordo plenamente, diga-se de passagem. O problema não são essas informações, mas a motivação por trás delas.

Engana-se quem pensa que tentam demonizar apenas os muçulmanos. A grande imprensa tenta demonizar, aos poucos e pelas beiradas, as religiões que não se curvarão a um Governo Único. E essas religiões são as monoteístas: muçulmanos, cristãos e judeus. As demais aceitarão um Governo Mundial de bom grado, seja por crerem que o que importa é a paz mundial (espíritas e demais religiões espiritualistas), seja por crerem já em várias divindades, então mais uma, menos uma não fará a menor diferença, conquanto que o mundo conquiste a tão esperada paz.

A demonização dos muçulmanos é fácil, pois os fundamentalistas entregam o prato pronto e cheio. A demonização dos judeus é um pouco mais trabalhosa, foi tentada várias vezes durante a história e atualmente se dá no enfoque de “lobo mau” frente aos pobres palestinos. Já a demonização dos cristãos se dá dividindo-os em duas frentes: dos “que nem parecem cristãos” por serem gente boa, que aceitam a tudo e a todos, e dos “fanáticos”, os que vêem pecado em todos mas são hipócritas com seus próprios pecados. E, após dividi-los, o mundo aprova os do primeiro grupo (como o Papa Francisco ou evangélicos liberais) e desaprova os do segundo (alguns justamente, como boa parte da Bancada Evangélica e lideranças pastorais a eles ligados, e alguns injustamente, apenas porque não respaldam totalmente a doutrina do “politicamente correto”).

Embora o Brasil seja de ampla maioria cristã, intriga saber que o “nem parece cristão” ou “nem parece evangélico” tornou-se um elogio. Culpa do péssimo exemplo que muitos que se dizem cristãos demonstram, culpa da omissão de outros (que preferem ser “politicamente corretos” a desagradar o mundo que os cerca) e culpa também da manipulação que, aos poucos, viabilizará a perseguição conforme as profecias bíblicas.

A Rede Hirota ousou distribuir cartilhas onde o aborto e o homossexualismo são tratados à luz das Escrituras Sagradas e foi punida por isso. Tivesse distribuído cartilhas com fotos de casais homossexuais se beijando e atores globais com cartazes “Meu corpo, minhas regras” e nada teria acontecido. Caso alguém se sentisse ofendido e denunciasse, as autoridades competentes arquivariam o processo por julgá-lo improcedente. Afinal, vivemos o século XXI, a diversidade, a canção de Raul Seixas, o vale-tudo pela felicidade pessoal aqui e agora. Os cristãos têm que respeitar e aceitar o mundo. Mas o mundo não tem que aceitar ou respeitar os cristãos. Ao mundo, total liberdade de ação e de pensamento. Aos cristãos, apenas a liberdade de pensar e agir conforme o mundo.

Por que denunciar a Rede Hirota por ter distribuído uma cartilha com suas crenças religiosas? Se alguém se sentiu ofendido, bastava não comprar mais no supermercado.

Na porta da minha casa recebo publicações das Testemunhas de Jeová e, mais raramente, do Universo em Desencanto. Em alguns estabelecimentos comerciais me deparo com imagens de santos católicos e até com discretos altares budistas. Volta e meia espíritas tentam me demonstrar a racionalidade de sua fé. E nunca cogitei denunciar ninguém por isso.

Hoje foi a Rede Hirota. Amanhã será eu ou você, pois:

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.
Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.
Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.
Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou.” –  João 15:18-21

Aproximamo-nos do Fim. Estejamos vigilantes. Busquemos a santificação. Busquemos o Alto.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

 

 

 

 

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Os evangélicos e a corrupção: delações de Funaro, novo Refis e o direito de comer o melhor desta terra

michel3Há 2 anos, surgiam as primeiras denúncias contra o então deputado Eduardo Cunha. Além de presidente da Câmara dos Deputados, esse dito também era evangélico, dizimista e ofertante na Assembleia de Deus do Brás Ministério Madureira (ADBras). Era convidado de honra nos palcos das Marchas para Jesus, principalmente no Rio, ao lado de aliados e até então fiéis defensores, como Silas Malafaia. Nos bastidores era conhecido por sua agressividade, mas à vista de todos era um homem inteligentíssimo e articulado, que pela “vontade de Deus” alcançou grande poder político.

Com o tempo, e com a necessidade de entregar um “bode expiatório” para justificar o “perdão” aos demais políticos corruptos do seu partido (PMDB) e dos demais aliados, Eduardo Cunha caiu. As denúncias (segundo o Ministério Público) de corrupção, desvio de verbas públicas, a existência de contas no exterior em seu nome e no nome da esposa e filha, acabaram com a perda do seu mandato político e seu envio para um presídio. Por seu caráter agressivo e vingativo, esperava-se que logo faria “aquela” delação, entregando a tudo e a todos, mas misteriosamente mantém-se calado, curtindo seu longo período de férias forçadas.

Também é curioso que Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, tenha sido inocentada de todas as acusações. Com envolvimento parecido, tivemos a prisão (mesmo que absurdamente domiciliar) da esposa de Sérgio Cabral. Poupar Cláudia Cruz do espaço prisional teria sido a moeda que pagou até hoje o silêncio de Eduardo Cunha?

Lembrando de trecho de uma gravação do Senador (suspeito de corrupção) Romero Jucá meses atrás: “tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria, por meio de um acordo com o Supremo, com tudo”. (fonte: UOL Notícias)

2aypx7ijr4_6dqq6q316a_fileEduardo Cunha continua em silêncio, mas seu parceiro operacional no PMDB resolveu falar. Lúcio Funaro fez a delação e dias atrás foram divulgadas as gravações. Incriminou, na delação, todos os caciques do PMDB, citando inclusive o presidente Michel Temer. Apesar de horrível, tudo isso já era esperado. Mas o que mais intriga, e que é o cerne deste artigo, são os trechos a seguir:

“O terceiro encontro com Temer, segundo Funaro, foi uma reunião de apoio à candidatura de Gabriel Chalita (PMDB) para a Prefeitura de São Paulo. Ele diz que o encontro foi na Assembleia de Deus do bairro Bom Retiro, com a presença dos bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira.” (fonte: Revista Veja)

michel6Encontrar-se numa igreja evangélica não tem nenhum problema. Porém, a cúpula do PMDB foi a uma igreja não para um culto, mas para uma “reunião de apoio” a um candidato a prefeito de São Paulo, o católico Gabriel Chalita. Ou seja, era um evento especial, fechado, com o objetivo puramente político. E com o aval dos papas dessa igreja.

E lembrando, essa igreja, que antes era do Jabes de Alencar, agora é do Samuel Ferreira, também dono da ADBras, que é a mesma que tem (ou tinha) Eduardo Cunha como fiel dizimista e ofertante. E a ADBras é a mesma que, tempos atrás, foi acusada de lavar parte do dinheiro de Eduardo Cunha, no caso uns 250 mil reais (fonte: UOL Notícias). E vale lembrar que seu papa, o agora Bispo Samuel Ferreira, foi acusado na delação da JBS de receber 1 milhão de dólares de propina em 10 parcelas de 100 mil dólares, numa conta nos Estados Unidos (por que será? – Fonte: G1 Notícias).

michel4Enfim, Eduardo Cunha é (ou era) membro da igreja certinha para seu (falso) caráter cristão.

Outros trechos da delação de Lúcio Funaro que merecem destaque neste artigo são os seguintes (a partir de 3:15 minutos):

“O Eduardo, ele funcionava como se fosse um banco de corrupção e de políticos. Ou seja, todo mundo que precisava de recursos pedia pra ele e ele cedia os recursos, e em troca mandava no mandato do cara, era assim que funcionava” (3:27 minutos).

“O dinheiro vivo chegando em minha mão, eu distribuía pra quem eu tinha que pagar, e nesse caso era o Eduardo Cunha que fazia o repasse para quem era de direito dentro do PMDB, que eram as pessoas que apoiavam ele dentro do PMDB”. “Que eram?” “Henrique Meireles, Michel Temer, todas as pessoas. A bancada que a gente chamava de bancada do Eduardo Cunha” (4:14 minutos).

No vídeo acima, a partir do minuto 1:40, vemos Lúcio Funaro delatando que a bancada evangélica sempre votava seguindo Eduardo Cunha, e que esse “esquema” se iniciou em 2009, justamente com a ascensão de Cunha. Em 2:40 minutos, Funaro revela que Eduardo Cunha tinha influência no PSC (Partido Social “Cristão” – aspas nossas), na Bancada Evangélica e no PMDB, e com todos esses em suas mãos, Cunha tinha um poder de barganha muito grande na Câmara dos Deputados, podendo “negociar” com empresários interessados a aprovação ou a rejeição de projetos de leis e medidas provisórias. Esse “esquema” é explicado a partir de 4:30 minutos.

Aí fica a dúvida: a Bancada dita Evangélica seguia (obedecia) ao Eduardo Cunha por ver nele um homem de Deus, ungido, santo e cheio de discernimento? Ou o faziam porque, assim como os demais deputados que o seguiam, havia, segundo Funaro, o recebimento de propinas advindas dos empresários que tinham interesses nesse ou naquele projeto de lei?

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Muito grave tudo isso. Diria até abominável, se a delação se confirmar. Afinal, se alguém se diz seguidor de Jesus Cristo, é até aceitável que cometa um ou outro pecado. Porém, é incompreensível que viva em tão grande corrupção.

Dias atrás houve também a votação de uma medida provisória, o novo Refis, que seria o refinanciamento de dívidas tributárias de empresas. Para as igrejas, os deputados deram dois benefícios a mais, segundo a Época Negócios:

“A primeira prevê perdão de dívidas tributárias com a Receita Federal de igrejas, entidades religiosas e instituições de ensino vocacional sem fins lucrativos. A remissão vale para débitos inscritos ou não na Dívida Ativa da União, inclusive aqueles objeto de parcelamentos anteriores ou que são alvo de discussão administrativa ou judicial.

A segunda emenda favorável às igrejas estabeleceu isenção de cobrança de tributos da União incidentes sobre patrimônio, renda ou serviços para igrejas e instituições de ensino vocacional. A isenção valerá por cinco anos para entidades que exerçam atividade de assistência social, sem fins lucrativos.”

michel7As igrejas já possuem isenções fiscais, por seu caráter de entidade sem fins lucrativos (para muitas, pelo menos em tese, não na prática). Além disso, o Brasil passa por um dos mais difíceis períodos de sua história econômica, com altos índices de desemprego, grandes quedas na produção e com os entes da União sem caixa para tratar das mínimas questões. O Estado do Rio de Janeiro amargou falta de dinheiro até para o pagamento de aposentados e servidores ativos. Não há como arcar com os gastos para a segurança, saúde, moradia, educação nas mais diversas regiões do país.

Com o desemprego e a queda na produção, obviamente caiu também a arrecadação através dos impostos. O Refis seria uma alternativa de renegociação para que o governo possa receber valores atrasados e assim investir (e não propinar, por favor) no que é necessário. É claro que também é uma tentativa do governo de se aproximar do empresariado, ao facilitar a renegociação de dívidas. Apesar da necessidade do governo de angariar fundos, os líderes e políticos evangélicos não conseguem se sensibilizar e buscam, através de negociatas travestidas de votações no Congresso, não pagar nem o que antes lhes era devido. Mas eu e você precisamos pagar, sim senhor!

Cabe aqui um adendo: você viu algum líder evangélico, mesmo de igrejas tradicionais, denunciando isso? Será que a mudez geral se deve ao fato de que todos, isso mesmo, todos, serão no final “beneficiados”?

E pensar que Jesus, o Cristo, pagava impostos sem reclamar e sem necessitar, mas para dar e ser exemplo para os verdadeiros cristãos!

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Seja nas delações de Funaro, seja nos esquemas para a aprovação das vantagens gospel no Refis, o que vemos é que muitos líderes evangélicos são capazes de qualquer coisa para ter, no futuro, um presidente da mesma religião. E qualquer coisa, para muitos desses líderes, significa propinar, roubar, mentir, enriquecer às custas do Erário e dos fiéis. Para eles, o fim justifica os meios.

Lembremos de Jesus, quando chamou os fariseus de sepulcros caiados: limpos por fora e podres por dentro. Lembremos das admoestações de Jesus em Mateus 23, quantos ais!

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Certa vez, uma jovem seguiu o Apóstolo (de verdade) Paulo por muitos dias, bradando que ele e os demais eram servos do Deus Altíssimo (Atos 16:16-18). Porém, o Apóstolo (de verdade) Paulo era cheio do Espírito Santo e teve discernimento de Deus. Embora a jovem falasse a verdade, estava tomada por um espírito maligno, que foi prontamente expulso pelo Apóstolo.

O que acontece nas igrejas hoje, que líderes e políticos evangélicos são totalmente enganados por seres como o Eduardo Cunha? Cadê o discernimento dos espíritos? Cadê a prudência?

Ou será que não foram enganados e se aliaram de caso pensado?

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Tudo isso é para se pensar. Funaro deu 13 horas de depoimentos, que podem ser assistidos na íntegra no Youtube. Tive que assistir a muitas horas, pois se você pesquisar no Google “bancada do Cunha” e “bancada evangélica”, não achará absolutamente nenhuma notícia. É como se tivessem orquestrado um cala-boca gospel. Mas assistindo aos vídeos, outros gospel são citados, como o Garotinho e o Pr. Everaldo, e isso provavelmente também não sairá na grande imprensa. Amanhã inventarão algum meme na internet e essa delação, assim como a da JBS e a da Odebrecht, cairá no esquecimento. E os “esquemas” continuarão, com direito a testemunhos nos púlpitos de como “deus” abençoou que apareceu um bom dinheiro para ajudar na reforma do templo.

Nojo. Por muito menos, Jesus expulsou os mercadores do templo. E nós, pelo caminhar da carruagem, acabaremos reelegendo os mesmos indicados de sempre por nossos (im)pastores.

O mais triste é que muitos evangélicos sabem de tudo, mas mesmo assim apoiam suas lideranças e instituições, pois tudo vale em prol do “reino”. Até mesmo corrupção em nome de Jesus.

Será que ninguém mais está vendo isso? Onde estão as vozes para denunciar a iniquidade em parte das igrejas evangélicas brasileiras? Por que estão caladas?

Simples: muitas lideranças e muitas instituições são sustentadas por esse “sistema”. Ninguém quer perder sua parcela dentro do sistema corrupto.

Estamos a cerca de 2 semanas dos 500 anos da Reforma Protestante. O que temos a comemorar é que as Escrituras, como sempre, estão certas:

“E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” – Mateus 7:14

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Igreja Evangélica Brasileira, formada por mim e por você: arrependamo-nos enquanto é tempo.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

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O mal da dependência institucional religiosa

Mundo“Sabemos que aquele que nasceu de Deus não peca; mas o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca.
Sabemos que somos de Deus, e que o mundo todo jaz sob o Maligno.” – 1 João 5:18,19

Sei que muito gente vai se enfurecer com este artigo. Ou melhor, já devem estar enfurecidos só pelo título. Porém, esta é uma reflexão de quem acompanha a vida institucional religiosa desde criança, pois minha vida institucional da qual tenho lembrança se inicia aos 6 anos no catecismo católico.

Sempre tive minhas pulgas atrás da orelha, como diz o dito popular. Já na infância, minha mãe me alertava a tomar cuidado com o pároco da comunidade, pois o mesmo era dado a muito vinho. Na minha adolescência, fiz parte dos então iniciados grupos carismáticos porque acreditava que esses estavam mais próximos da Bíblia do que os católicos convencionais. Na minha conversão para o protestantismo (no meu caso, para o pentecostalismo), sempre me assustava com toda a mística envolvendo a igreja. Isso nunca me atrapalhou, pois sempre estive mais envolvido com a prática do que com as teorias, e nunca me deixei estimular pelos dogmas, preferindo as ações de misericórdia e solidariedade.

Uma das primeiras intrigas que tive com o “sistema institucional religioso” foi quando era professor de escola dominical em uma pequena congregação num bairro extremamente miserável da periferia de minha cidade natal. Tinha quase trinta alunos que chegavam às aulas nos domingos pela manhã, algumas crianças nuas, descalças, sujinhas, famintas, e algumas com somente uma peça de roupa. A maioria, filhos de pais envolvidos no alcoolismo, drogas, em todo o tipo de violência. Eu então trabalhava no período noturno e pela manhã me dirigia para essa escola com sacolas e sacolas de alimentos, roupas, calçados e brinquedos arrecadados durante a semana entre colegas de trabalho, vizinhos e amigos.

Então fui comunicado pela igreja-sede de que eu deveria incluir na classe da escola dominical da congregação as “revistas” exigidas pela instituição. Então comentei: “as crianças não têm roupas, não têm o que comer, como comprarão a revista?” E o irmão superintendente disse: “Paulo, são as regras da igreja!” E então descobri, a partir disso, que a instituição religiosa tem suas falhas, e falhas gravíssimas.

Assim como nesse exemplo, muitas são as perguntas que todo aquele que vive dentro do sistema religioso tem dentro de si e muitas vezes guarda calado.

Nessa história que referi, não adotei as revistas. Mas, aos poucos fui adquirindo bíblias para as crianças, ao ponto de todas as crianças terem uma bíblia. Ou seja, eu comprei uma grande briga com a instituição, pois quebrei a regra. E essa quebra de regra só não me trouxe grandes consequências porque a congregação cresceu, se tornou uma igreja (pois os pais e responsáveis pelas crianças, vendo a transformação que o Evangelho proporcionava em seus filhos, passaram a também frequentar a congregação).

Ou seja, a congregação cresceu, deu frutos. Sendo assim, a quebra de regras foi desconsiderada.

Porém, essa não é a realidade da igreja. A igreja vive sob um sistema pesado na sua dogmática, na sua eclesiologia, onde as regras falam muito mais alto do que a sensatez, a misericórdia, a solidariedade, o amor. Muitas vezes, as regras falam até mais do que a própria razão. E muitas vezes, até mais do que a própria fé.

Estamos no mês em que comemoramos 500 anos da Reforma e é uma boa lembrança nos referirmos aos motivos que levaram Lutero a afixar suas teses. Não é de hoje que o sistema institucional religioso está doente, decadente, ferido e ferindo a muitos.

 

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Dentro do versículo que descrevemos no início, a segunda parte é a que mais nos vem à lembrança. Porém, a primeira parte nos refere sobre a questão do “nascido de Deus”.

Em João 3, Jesus diz a Nicodemus que importa nascer de novo, pois aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. E aqui em 1 João temos que o que realmente é nascido de novo o Maligno não lhe toca. E por que digo isso?

Porque todos aqueles que vivem ou fazem parte do sistema religioso e vivem as mentiras, as armações, as hipocrisias do sistema vivem uma vida de pecado.

Tenho visto, após décadas vivendo no sistema religioso, que muitos são os que vivem os pecados institucionais em troca de salários, em troca da casa pastoral, em troca de um carro, em troca de mestrados e doutorados, ou seja, todas as benesses do sistema. Porém, eles não se atentam de que o que realmente importa nessa vida é o estar em Cristo, como Paulo diz em 2 Coríntios 5: 17: aquele que está em Cristo nova criatura é. Ou seja, uma nova criatura que não se alimenta, que não se veste, que não usufrui dos favores do mundo. E isso inclui os favores institucionais.

Os milhões de desigrejados são vítimas das feridas provocadas pelo sistema religioso. Um sistema que vai coexistindo com a mudez e a conivência dos seus participantes. É muito fácil apontar as falhas do catolicismo, as falhas do espiritismo, mas é preciso entender que o sistema evangélico também é repleto de falhas: falhas doutrinárias, ético-morais, sociais, políticas. Porém, o grande mal é o corporativismo institucional, alimentado por todos aqueles que de certa forma vivem do sistema.

Há alguns anos encontrei um contemporâneo de faculdade teológica. Dialogando com ele, apontei-lhe o porquê dele ter aderido à Teologia da Prosperidade mesmo tendo todo o conhecimento teológico. Ele subitamente interrompe meus argumentos com a pergunta: “quantas vezes você foi para Israel?” Sinceramente, não acreditei estar ouvindo aquilo. E depois veio a outra: “que carro você tem?”

Ou seja, essa pessoa a qual me refiro não só havia sido engolida por um desvio doutrinário. Essa pessoa estava equivocada quanto ao seu novo nascimento.

Tenho enfrentado isso nos últimos anos. Depois que comecei a fazer parte do Movimento pela Ética Evangélica Brasileira e passei a denunciar os problemas da instituição evangélica, sou confrontado com os valores deste mundo. Muitos, quando sabem dos meus problemas de saúde, encontram argumentos para confrontar as verdades bíblicas. É preciso entender que a Igreja só tem sentido de existir se ela for o reflexo de Cristo descrito na Bíblia.

Só há um sentido da prática dogmática da Igreja: se essa dogmática for o reflexo de Cristo na Bíblia. A grande essência de um pastor, de um líder frente a uma comunidade religiosa não está no salário, nas viagens ou no carro, mas sim nos frutos do Espírito que a convivência dos santos proporciona.

A Igreja não é uma empresa. A Igreja não se fundamenta nos lucros. A Igreja é uma instituição totalmente espiritual, apesar de palpável. Para isso, é preciso que os que dela fazem parte vivam uma espiritualidade real, em Cristo. Por isso, ela é o contrário do mundo. Enquanto o mundo jaz no Maligno, a Igreja e os que dela fazem parte são de Deus e vivem os Seus valores. Isso deve ser manifesto com integridade, com transparência, com verdade, não com hipocrisias e mentiras.

A Palavra de Deus nos diz que todo obreiro é digno do seu sustento. Porém, a partir do momento em que o sustento se torna o motivo de eu estar na igreja isso passa a ser um profissionalismo, e aí os valores que norteiam minha vivência são totalmente institucionais.

Há muitos pastores puramente institucionais. Verdadeiros profissionais da fé. Jesus chama a esses de mercadores ou mer-ce-ná-rios. Sim, isso mesmo. Mercenários da fé.

O mercenário é aquele que atua, que age simplesmente pelo pagamento, sem se importar com a essência, os valores e as consequências do trabalho a ser realizado. Essa é a razão de tantas igrejas, apesar de cheias, não produzirem verdadeiros nascimentos em Cristo.

Essa é a razão pela qual, apesar do crescente número percentual de evangélicos, o Brasil ainda sucumbir diante da corrupção, da intolerância, da prostituição, da violência. Reflexos de uma igreja que vive mais os valores do mundo do que os valores de Deus.

Por isso João faz questão de lembrar que o mundo jaz no Maligno.

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A Igreja não depende de verbas públicas, a Igreja não depende de favores políticos, a Igreja não depende de ter um grande empresário. A Igreja depende de Deus, e para isso precisa viver Seus valores descritos na Palavra de Deus.

Sei que muitos não conseguirão ler essa reflexão. É mais fácil ignorar. É mais fácil viver os luxos do que ser confrontado com as verdades. Porém, como o título desse blog é As Pedras Clamam, estou aqui como uma pedra que clama, clamando por justiça, clamando por santificação, clamando por mais de Deus e menos do homem.

Espero que os que chegaram até aqui na leitura desta reflexão possam se sentir aliviados, pois apesar de fazerem parte de uma instituição religiosa, estão com as vestes limpas. Ou senão, que esta reflexão possa levar ao arrependimento e até, se possível, ao abandono do pecado.

Isso mesmo, abandono!

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.” – Mateus 5:29,30

Você está sendo radical, irmão!!! Do que que eu vou viver? Onde vou trabalhar?

Verdade. Porém, é preciso lembrar que essa vida é passageira, mas o inferno será eterno.

“Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar.” – Mateus 18:6

Eu poderia citar mais versículos, como por exemplo o capítulo todo de Mateus 23 ou Ezequiel 34, textos esses esquecidos por muitos.

Muitos devem estar horrorizados deste texto. “Como pode falar mal da instituição?”

Não. Estou falando contra os que fomentam a mentira, a hipocrisia, aos mercadores da fé que transformaram a Igreja num balcão de negócios. Há muitos homens e mulheres que não se venderam ao deus deste mundo. Há muitos mesmo. Porém, o número de mercadores cresce a cada dia.

Esta reflexão tem por intenção despertar os que pecam, pois assim age o Espírito Santo de Deus, sempre no propósito de chamar o homem à consciência, e assim o levar ao arrependimento. Não seremos salvos segundo nossa formação teológica, segundo nosso cargo ou posição dentro do sistema religioso, ou pelo quanto nos adequamos aos valores deste mundo, mas seremos salvos mediante o reconhecimento, em vida, do sacrifício de Cristo no Calvário.

Não viva em mentiras, pois o Pai da Mentira é o diabo. Mesmo que ele lhe pague um bom salário, esse salário pode ser sua ruína, pois o salário do pecado é a morte.

Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

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Expo Cristã, digo Expo MAMOM 2017: quem disse que tínhamos chegado ao fundo do poço?

IMG_20170819_145328392Dinheiro. Essa é a palavra que melhor resume o “espírito” que imperou na ressuscitada Expo Cristã 2017. E dinheiro remete a Mamom.

Mamom é a tradução de dinheiro para o aramaico. Porém, tem conotação de ser um “deus” ou “espírito” pela comparação que Jesus faz em Mateus:

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. – Mateus 6:24

Não sejamos ingênuos em achar que tudo o que se compra remete à adoração a Mamom. Os cristãos precisam comprar alimentos, roupas, ter uma casa, móveis, se possível um meio de transporte, se possível pagar educação para os filhos, plano de saúde, etc. Também precisam adquirir pelo menos uma Bíblia, se possível bons livros para melhor aprender da Palavra, itens para evangelização, e por aí vai. Mas os cristãos não precisam comer até passar mal, não precisam de um closet de sapatos estilo Imelda Marcos, coleções de relógios Rolex ou de carros importados. Os cristãos não precisam de autógrafos de ídolos gospel, não precisam de livros que lhes ensinem heresias em nome de Deus, não precisam de objetos judaicos (ou é judeu, ou é cristão, fujamos do sincretismo religioso), não precisam incomodar os vizinhos tocando shofar de hora em hora.

Entendido isso (que há coisas que devem ser compradas pelos cristãos, outras são apenas vaidades das vaidades, para falar o mínimo), vamos analisar o que vimos nesta edição da Expo Cristã.

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O Pavilhão Amarelo do Expo Center Norte, onde ocorreu a feira, é o menor de todos. Tem cerca de 8 mil metros quadrados. Nas outras edições, a feira acontecia num pavilhão de cerca de 14 mil metros quadrados. Assim, fica difícil saber se havia mais ou menos gente, porque se confinarmos menos pessoas num espaço menor tem-se a impressão de multidão, de gigantismo. E talvez essa foi a intenção dos organizadores.

Mas o fato é que havia beeeem menos expositores que nas edições passadas.

Logo na entrada, é lógico, os estandes dos donos da feira: Apóstolo (?) Agenor Duque e Bispa (?) Ingrid Duque. Em comum, a venda de objetos judaizantes, kipás e talits. Tinha o véu vermelho da Bispa (?), tinha réplicas tamanho playmobil do Templo de Salomão (R$ 120,00), lamparinas de barro (das 10 virgens?) e até as moedas da viúva por R$ 10,00 (pensei em comprar e revender por 5 milhões no Mercado Livre, mas aí descobri que eram réplicas fajutas, sem valor nenhum. Será que essas emprejas as aceitariam como pagamento do dízimo?).

E tinha um tocador de shofar, que tocava de 5 em 5 minutos, acho que para atrair compradores para suas mercadorias.

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E falando em dízimo, esse negócio de ter que passar a sacolinha ou manter um gazofilácio no púlpito já era. Estamos em tempos digitais, onde a maioria das pessoas não costuma andar com dinheiro no bolso. E, sem muito dinheiro no bolso, como era antigamente, também caem bastantes as ofertas dos fiéis.

Mas claro, a Expo Mamom tem a solução! Vimos pelo menos 3 estandes de empresas diferentes, cada uma com sua solução para o recebimento de dízimos e ofertas via app, com cartão de crédito ou emissão de boleto bancário. Uma das 3 empresas ainda inovou mais e lançou também um totem, tipo os das lojas Renner e C&A, onde o fiel escolhe o tipo de pagamento que deseja fazer (dízimo, oferta, campanha, etc) e a forma de pagamento (cartão para os mais antenados, depósito na máquina com envelope para os mais tradicionais). O vendedor nos explicou a praticidade: o fiel vai orar na igreja de manhã e lembra que é o dia de dar o dízimo. Ao invés de ter que voltar à noite, faz o depósito do dízimo na mesma hora. Realmente muito funcional, mas… O preço do totem é 13 mil reais. Imagino que uma igreja que possa “investir” essa quantia não está assim tão necessitada de aumento dos dízimos…

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Onde tem dinheiro, tem que ter banco. E na Expo Cristã tinha, é claro! Em seu estande, o Bradesco distribuía sacolinhas contendo um bloco de anotações, uma caneta e uma pasta de papel expondo seus “nichos de mercado”, entre eles: franquias e negócios, microempreendedor individual, universitário, clubes e associações e RELIGIÕES. Sim, os bancos já perceberam que o negócio religioso é dos mais rentáveis, e não querem ficar de fora dessa boquinha.

E já que ainda falamos de negócios gospel (confesse que achou que exageramos quando resumimos a Expo Cristã na palavra dinheiro), “você sente que sua igreja está paralisada? Os membros da sua igreja estão desmotivados? Parece que sua oração não está funcionando?”

Na Expo Cristã você tem a solução!

Não, não tem nada a ver com orar, com arrepender-se, com ansiar com um avivamento, com buscar a ação do Espírito Santo no acrescentar das almas e na vivificação do rebanho. Isso tudo é coisa do passado. Agora a onda é ser moderno, ser digital, ser neurolinguista, ser COACHING. E um tal de Carlos Di Capi promete ensinar os pastores a levantarem seus ministérios com um curso de coaching de fim de semana por módicos R$ 997,00. Só para comparar, um mês inteirinho de estudos de Teologia na Universidade Mackenzie custa R$ 838,00 para o segundo semestre de 2017.

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E falando em Mackenzie, havia um estande lá. Vazio. Assim como estavam vazios os (raros) estandes de entidades assistenciais. Os Atletas de Cristo estavam vazios. A Jethro estava arrecadando assinaturas de apoio ao trabalho da Polícia Federal na operação Lava-Jato, mas poucos tinham “tempo” para parar e participar. A AMAV – Associação Missionária Atravessando os Vales – que tem trabalhos junto a moradores de rua e famílias em situação de risco no Brasil e na Bolívia, também estava com o estande vazio. E na AMAV o Pr. Paulo Felix estava distribuindo GRATUITAMENTE seu livro Tehillim – Poesia Hebraica Inserida nos Textos. Mas os livros continuavam nas estantes, pois quase ninguém se aproximava. A multidão estava interessada era em dinheiro e nos ídolos gospel.

Quase fomos atropelados pela multidão algumas vezes. Eu pessoalmente cambaleei quando uma turba enlouquecida correu atrás da cantora Priscila Alcântara. Senti-me como que junto aos fãs da Madonna (nos idos nos anos 80, claro).

Também quase caí quando, no estande da Igreja Renascer, surgiram o Apóstolo (?) Estevam Hernandes, Samuel Ferreira, Jabes de Alencar, Silas Malafaia e políticos gospel. Todo mundo queria ver, tirar foto, chegar perto. Até a quase desconhecida Lucimara Parisi (só fui lembrar quem era quando chegamos em casa) tinha sua fila para tirar fotos.

Fila para tirar fotos com um tal de Remuel (ou coisa parecida), gritos com o anúncio dos cantores gospel da Caravana do Raul Gil. O lugar dos shows super cheio. Cheio de fãs ensandecidos pelos seus ídolos. E pensar que esses mesmos fãs torcem o nariz quando alguém diz que vai assistir a um show de música “secular”. E se reviram contra os católicos, por conta da idolatria.

Encontramos um católico na Expo Cristã. Veio falar conosco. Estava horrorizado com tudo o que via ali, e sentiu que nem tudo estava perdido quando viu os dizeres em nossas camisetas.

Muitas pessoas nos abordaram. “Vocês não têm medo de apanhar aqui?”, “Nós os vimos na frente do Café de Pastores”, “Vocês têm muita coragem”.

Não, nós não temos muita coragem. Somos humanos, com medos e aflições como todos. Mas Deus plantou em nossos corações um zelo pela Sua Palavra, pelas Suas coisas. E esse zelo nos impediu de ficar calados, em casa, comendo pipoca e assistindo ao Caldeirão do Huck.

É emblemático que, há poucos dias de comemorarmos os 500 anos da Reforma Protestante, a igreja no Brasil esteja ainda em pior estado do que aquela que Lutero criticou em 1517. Se Tetzel estivesse vivo, teria que tomar umas aulinhas de coaching gospel e comprar um totem para melhor arrecadar, afinal o “espírito” é o mesmo, mas os métodos evoluíram com o tempo.

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E mais emblemático foi encontrar, no estande da editora do Malafaia, lado a lado um livro sobre a Reforma Protestante e um Guia de Sucesso Financeiro. Isso mais do que concretiza a tese de que estudar essas pessoas até estudam, saber até sabem, mas preferem Mamom a Deus abertamente. Não é por falta de conhecimento, é por safadeza e destemor puro e simples mesmo.

O triste é que, em sua ganância, acabam levando para a perdição os que cegamente os seguem. E, pelo que vimos na Expo Cristã, são a grande maioria dos que se dizem cristãos.

A propósito, vimos nos estandes imagens dos (im)pastores, dos artistas gospel, até do Seiya de Pégaso (Cavaleiros do Zodíaco). Mas numa feira que se diz cristã não vimos a Jesus Cristo. Levando-se em conta que na quinta, no Café de Pastores, o intuito era só de politicagem para conseguir dinheiro (vide presenças de João Dória e Geraldo Alckmin, e a “quase” presença do presidente Michel Temer, sobre quem recaem pesadas suspeitas de corrupção), não é de se admirar que a Expo Mamom tenha perfurado o fundo do poço gospel.

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No Café dos Pastores da Expo Cristã 2017

A quem nos abordou, distribuímos folhetos e marcadores de página do movimento. Nossa oração é para que, mesmo quem riu ou não gostou das frases em nossas camisetas, venham no futuro a refletir e a abrir os olhos para o verdadeiro Evangelho. Que as correntes da religiosidade caiam. Que a dependência dos políticos e de Mamom seja substituída pela dependência única e exclusiva de Deus.

A luta é grande, mas já sabemos quem é o vencedor (Apocalipse 22).

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória agora e para sempre.

Obs.: nos próximos dias disporemos o vídeo da Expo Mamom neste espaço.

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Relativizando o Evangelho: os fins justificam os meios?

O-que-é-EvangelhoPor isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos;
Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade. – 2 Coríntios 4:1,2

Muitos não entendemos como, 500 anos depois de Lutero, a situação de boa parte das igrejas ditas cristãs encontra-se igual ou até pior do que a igreja da Idade Média. Mais difícil ainda é entender como, mesmo nos tempos da Igreja Primitiva, enganos eram sutilmente propagados entre os santos, a ponto dos apóstolos (de verdade) terem que lutar pela pureza da fé.

E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. – Colossenses 2:4

Como corações aparentemente sinceros podem se deixar levar por ensinos enganosos? Como esses ensinos penetram nas igrejas e se tornam parte delas?

E Jesus, respondendo-lhes, começou a dizer: Olhai que ninguém vos engane;
Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. – Marcos 13:5,6

Penso que a resposta talvez esteja na relativização da fé, na falsa crença de que os fins justificam os meios. No caso, o fim seria a rápida e mais abrangente divulgação do Evangelho e, consequentemente, do número de salvos. Os meios, quaisquer que aparentemente levem a esse resultado.

Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo. – 2 Coríntios 11:3

Na relativização da pregação do Evangelho, o mal nem sempre é mal. Ora, Raabe não usou de uma mentira para salvar os anjos? O Apóstolo (de verdade) Paulo não disse que se fazia de tudo para alcançar a todos? Para que o nome de Jesus seja conhecido, vale absolutamente tudo!

Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios. – 1 Timóteo 4:1

A pregação do Evangelho não precisa de vale tudo. A pregação do Evangelho não precisa sequer de mim ou de você. Ser um instrumento de Deus é uma grande honra, pois é algo que independe de nós. Deus não precisa de nossos planos mirabolantes de crescimento de igrejas, nem de milhões gastos em rádio e programas de tevê, nem de campanhas financeiras para arrecadar recursos para propaganda evangelística. Deus é. Deus faz. E Deus é quem provê e usa a quem quer, quando quer. Se até uma mula Ele usou certa vez para exortar um (falso) profeta, se Ele quiser até a nós, com todas as nossas imperfeições e dificuldades, também podemos ser usados. E se Ele não quiser, nem com todo o dinheiro do mundo, nem como emissoras de rádio e televisão nossa pregação prosperará (pois seremos nós com a falsa força do nosso braço, não Deus com o Seu Espírito e Poder).

E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.
Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples. – Romanos 16:17,18

Uma vez que usamos nossa falsa força, de forma até inconsciente tendemos a nos apossar do objeto de conquista. E, uma vez com a posse, podemos usufruir da forma que acharmos melhor. E assim é também com a pregação do Evangelho.

Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. – Efésios 4:14

O fim é louvável: a expansão da pregação do Evangelho. Mas a falta de conhecimento bíblico nos faz acreditar que apenas com nosso trabalho árduo tal objetivo será alcançado. E começam esforços mentais em busca das melhores estratégias para se alcançar a meta: cargos de liderança para fidelizar membros-chave, campanhas com promessas de grandes bênçãos em troca de grandes ofertas, cobrança de grandes cachês para sustentar a mais tecnológica parafernália de som (para atrair os jovens), pouca ou nenhuma ênfase no arrependimento dos pecados e outros temas que possam afastar os dizimistas, grande destaque para rituais judaizantes e místicos (inclusive simulando milagres e expulsões demoníacas) para manter a plateia atenta e fiel, incentivo dito divino para o sucesso pessoal do membro (desejo de dez entre dez brasileiros) por ser filho de Deus. E a lista de estratégias ditas evangelísticas vai longe…

Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.
Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. – Judas 1:10,11

Uma vez relativizada a pregação do Evangelho, também torna-se relativa a conversão do fiel e dos líderes. Sem a luz da Palavra de Verdade, as trevas do pecado têm terreno fértil. As duas horas de culto semanal tornam-se suficientes para justificar nossos pecados e fraquezas. Contanto que um dia tenha dito aceitar a Jesus e dizime e oferte com regularidade, o fiel pode ocultamente manter seus vícios, satisfazer seus desejos, retaliar seus inimigos, fazer negócios com as coisas de Deus.

Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição. – 2 Pedro 3:16

Como um abismo chama outro abismo, a cada dia torna-se mais difícil manter a máscara de santidade em meio a uma mente e a um coração não transformados pelo Evangelho (pois o que vemos em muitas igrejas é relativizado, humanizado, deturpado e não tem o poder divino de transformar a ninguém). Pela misericórdia de Deus, algumas dessas máscaras caem, e com elas seus portadores. O universo gospel torna-se então implacável contra o desmascarado, apontando-lhe com toda a força a malignidade do seu pecado, tratando-o como um ser desprezível, excluindo-lhe dos seus ambientes santos. Digo pela misericórdia divina, pois essa é uma chance real que Deus dá a essas pessoas para que encarem suas fraquezas, para que se arrependam daquilo que faziam escondido entre um culto e outro, e assim para que, humilhados, se rendam verdadeiramente ao Pai, tendo um real contato com o verdadeiro Evangelho. Mas nem todos se arrependem, voltando assim que possível ao vômito que fora exposto, mas Naquele Dia não poderão dizer que não tiveram sua chance. Infelizmente, até a Graça tem sido relativizada, sendo para muitos a desculpa perfeita para se manter em seus maus caminhos.

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.
Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.
Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Não erreis, meus amados irmãos. – Tiago 1:13-16

Para muitos, o Evangelho não é missão: tornou-se profissão. Desde pastores que, por ganhar salário de suas denominações, não podem falar nada além do que a instituição religiosa permite (cerceando muitas vezes a mensagem), até os escandalosos casos de líderes e artistas que enriquecem às custas da boa fé do povo. Como esses conseguirão pregar aquilo que a multidão realmente precisa ouvir, se necessitam fidelizá-la para que continuem lhe dando o sustento ou até mesmo bancando suas excentricidades financeiras? É muito triste ver pastores que, mesmo não concordando com suas lideranças, precisam se calar com medo de perder a provisão de suas famílias. E mais triste ainda é ver líderes que formam verdadeiros impérios religiosos (às custas dos fiéis) e que propositadamente aprisionam os pastores das suas filiais com bons salários. O que aparentemente é uma coisa boa, na verdade se torna bastante ruim, pois faz os liderados dependerem exclusivamente do salário da igreja, deixando de buscar provisão por seus outros talentos, tornando-se verdadeiros reféns da denominação em que servem. E essa, querendo servir aos fiéis um Evangelho relativizado, usará dos pastores-reféns. Um círculo vicioso e maquiavélico.

Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. – Colossenses 2:8

Jesus disse que não é possível servir a dois senhores, e os especificou como a Deus e ao dinheiro. Isso porque o dinheiro é essencial no mundo em que vivemos, seja para adquirir alimentos, roupas, moradia, educação, saúde e toda e qualquer futilidade para alegrar, mesmo que momentaneamente, a alma humana. O desejo de ter dinheiro é tão grande que muitas vezes sobrepuja o desejo de servir a Deus. Mas os mais espertos conseguiram relativizar tanto o Evangelho que pensam ter desmentido a Cristo, sendo possível servir aos dois senhores. Assim, inventaram o comércio gospel, a venda de produtos gospel, de entretenimento gospel. O crente fiel não pode ouvir música “do mundo”, mas deve comprar os cds de música gospel; não deve usar roupas “do mundo”, mas deve comprar roupas das grifes gospel; precisa cancelar o canal de tevê a cabo “do mundo” e contratar o canal gospel; não pode frequentar uma balada “do mundo”, mas sim uma balada gospel.

Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem;
Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo.
Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. – 1 Coríntios 5:9-11

Kit de embelezamento da Rainha Ester, óleo de unção de diversas fragrâncias, bíblias de estudo com a relativização do Evangelho que se deseja ter. Idolatria a personalidades gospel (pois não se pode admirar cantores “do mundo”), votos nos políticos indicados pelas lideranças eclesiásticas, congressos e eventos para dar lucro aos empresários gospel. Teremos essa semana a Expo Cristã, uma feira de negócios gospel, onde haverá Evangelhos relativizados em vários estandes. De tão relativo, será possível reunir num mesmo ambiente presbiterianos, “mundiais” e os da Plenitude, sendo a Igreja Mundial do Poder de Deus considerada como “seita” pela Igreja Presbiteriana do Brasil, e sendo a Igreja Apostólica Plenitude de Trono de Deus, com as mesmíssimas características da Mundial e da IURD, apenas ainda não oficializada como seita por faltar literatura a respeito. E observação: a feira é do líder da Plenitude, mas relativizemos a presença dos presbiterianos a título de tentativa de propagação do verdadeiro Evangelho (nada a ver com lucro, espero!).

Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.
Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.
Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.
Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão. – 1 Timóteo 6:7-11

Para expandir, o Evangelho não pode ser relativizado. A Palavra não pode ser deturpada, pois perde Poder. O ser humano não pode ser afagado nos púlpitos, mimado, satisfeito em sua vida mundana, mas confrontado com a Verdade, Verdade essa que doi, que machuca, que desagrada, que humilha. A Verdade é que temos uma Cruz a ser carregada, se queremos seguir ao Mestre e Senhor. E essa Cruz é o instrumento nossa morte para o Eu, para o mundanismo deste mundo tenebroso. Uma vez mortos para o pecado, realmente viveremos para Cristo. E, servindo a Cristo, não haverá espaço para servirmos também a Mamom.

O Evangelho relativizado conseguiu o seu propósito: hoje temos, só no Brasil, a grande maioria dos cidadãos ditos cristãos. Porém, essa grande maioria não dá testemunhos de fé e de caráter na mesma proporção. Ao contrário, o Brasil ainda é o país onde proliferam o “jeitinho brasileiro”, a luxúria, a corrupção, o desamor. Ao invés de Frutos do Espírito, o Evangelho relativizado traz Frutos de Iniquidade.

A porta que leva à Salvação é estreita, e poucos passarão por ela. Os que vivem e se deleitam num Evangelho relativizado perigam não conseguir passar por essa porta.

Uma marca dos verdadeiros profetas é que eles não eram adorados pelas multidões, pois suas duras palavras afastavam a muitos. Não se corrige um filho passando-lhe a mão na cabeça e dando-lhe um beijinho na face.

Quem ama disciplina. O líder que ama as ovelhas que Deus lhe confiou não lhes poupa as palavras, pois não deseja ter seu sangue nas mãos.

O Evangelho, por si só, tem força para sua propagação. Ainda é o Espírito Santo quem acrescenta as almas, não nossa eloquência ou os meios midiáticos dos quais podemos dispor.

Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! – 1 Coríntios 9:16

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

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