O Evangelho segundo a minha igreja

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“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.” – Romanos 8:26

Para chegar a este artigo, estou há meses assistindo dia a dia a realidade da igreja evangélica brasileira. E o cenário é bastante triste.

A ideia de escrever este artigo nasceu nessa semana, após ver notícias em algumas mídias de que a Bancada Evangélica no Congresso e Senado estava quebrando seu pacto com o atual governo.

O que anteriormente foi visto foi um apoio imenso e, para mim, até assustador, em decorrência de alguns pontos defendidos pelo então candidato, que de certa forma são bastante contrários ao Evangelho.

A matéria exposta demonstra que o foco de muitos evangélicos passou a ser suas próprias interpretações do Evangelho e, acima de tudo, estão os interesses das instituições e de seus líderes. Isso faz com que cada instituição tenha suas próprias interpretações e formas de salvação, transformando a igreja de um local de adoração a Deus em um local empresarial e uma comunidade onde cada um busca os seus próprios interesses.

Ou seja, algumas igrejas estão mais preocupadas em existir como instituições criadas para agradar e adorar seus líderes e cumprir suas metas e objetivos do que amar e adorar a Deus.

Exagero? Uma interpretação equívoca da minha parte?

Infelizmente é a mais pura verdade.

Levei meses preparando este artigo, com muita paciência esperei bastante para ver mudanças, mas infelizmente não é o que tenho visto.

A frase que me vem à mente ao ver a realidade da igreja evangélica brasileira é uma: se realmente somos uma nação cristã, precisamos nos atentar para a palavra iniquidade.

Isso mesmo, iniquidade.

Essa é a palavra que realmente define a realidade de nossas igrejas.

Por que cheguei a essa conclusão?

Simples: a igreja trocou a espiritualidade pelo empreendedorismo e profissionalismo. A Bancada Evangélica no Congresso atesta essa conclusão.

As igrejas querem crescer, lucrar e expandir seus domínios pelo mundo. O que antes era Reino de Deus hoje se tornou reinos individuais. Basta ver as expansões de Macedo, Valdemiro, Malafaia, etc. Hoje, cada um defende o “seu” reino. São marcas de um produto comercial no mercado expansivo da fé.

Cada um não mede esforços para ampliar e expandir a sua marca. Para isso não há limites. É preciso alianças políticas, empresariais, comerciais, tudo em busca da satisfação das instituições e suas lideranças.

Hoje o sinal de força e poder de uma igreja não está mais na sua pregação eloquente ou na constante oração ou na intrepidez na evangelização, mas sim na sua capacidade de eleger políticos, construir suas suntuosas e imponentes catedrais, expor o poderio econômico de seus líderes com jatinhos, carros e roupas importadas, sem contar a sua exposição na mídia ao lado de ricos, poderosos e famosos.

É preciso dizer que, para sustentar essa estrutura toda, muitos simples e humildes são usados.

O versículo que encabeça esse artigo descreve a visão de Paulo (o verdadeiro Apóstolo) de que a verdadeira força da igreja e de seus membros está no reconhecimento de nossas incapacidades, incapacidades essas que são fortemente providas por Deus. Quando o texto diz que o Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis, isso nos mostra que Deus é a verdadeira fonte da Igreja.

Ao transformar a Igreja em uma empresa, essas igrejas e seus líderes estão declarando não serem dependentes de Deus. E aqui está o centro da crítica deste artigo: ao deixar de ser dependentes de Deus para dependerem de políticos, partidos, ofertas de empresários, etc, a igreja se alia aos poderes deste mundo e se torna praticante da iniquidade.

Iniquidade, derivada de iníquo, ou seja, aquele que se opõe à equidade, que está associado ao ato de ser mau, injusto e perverso.

Eu pergunto: existe algo que define melhor a palavra iniquidade do que a situação política do Brasil?

A palavra iniquidade aparece 177 vezes no Antigo Testamento e 14 vezes no Novo Testamento. E em muitas traduções essa palavra é atribuída àqueles que têm habilidades de dobrar, torcer, distorcer, perverter as coisas e situações. Ou, em outras traduções, é atribuída àqueles que se desviam da Lei, desrespeitam a Lei, e isso é praticado por aqueles que desprezam e violam a Lei por pura maldade.

Ou seja, a iniquidade está no meio de nós.

Em Mateus 7:23, Jesus repreende aqueles que praticam a iniquidade com a frase: “… nunca vos conheci, apartai-vos de Mim…”

Ou seja, estamos falando de algo sério.

Em Mateus 23:38: “…assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade…”

Essas palavras são de Jesus.

Muitos pastores sabem a Verdade, porém são reféns do profissionalismo que adotaram as instituições.

Nas minhas andanças tenho constatado que o envelhecimento dos pastores e esse é um quadro de todas as denominações. Esses pastores, hoje com 20, 30, 40 anos de trabalho dizem se sentir enfraquecidos para enfrentar a situação. Certa vez ouvi de um pastor: “eu já tenho 67 anos. Onde eu vou ganhar um salário como esse?”. Esse pastor estava enfrentando divisões, brigas por cargos, prostituição, adultério em sua igreja, sem contar que sua instituição está envolta em escândalos financeiros envolvendo políticos. Ou seja, esse homem é um refém e sua visão do Reino de Deus está empobrecida, pois ele não mais depende de Deus, mas na sua empobrecida visão ele depende da sua denominação.

Essa é a realidade de muitas denominações. Vivemos um quadro triste, pois, para muitos, não existe o Evangelho de Jesus, e sim o Evangelho segundo fulano e sicrano. E se eu quero permanecer não posso, em momento algum, contrariar.

Em muitas denominações, contrariar o líder é entendido como ofensa maior do que criar uma heresia ou um falso ensinamento. E aos que contrariam, só há um caminho: o isolamento até a extinção.

Esse outro Evangelho não cumpre sua missão de ser luz para o mundo, pois ele não consegue se apartar do mundo e dos seus valores.

Diante de tantos conflitos e vazios no mundo, a igreja é mera coadjuvante no cenário político, social e econômico. A verdade não é o foco, e muitos pastores sabem disso, porém se omitem e se tornam parte do espírito de mentira e hipocrisia que rege muitas denominações.

Jesus já havia nos avisado sobre isso. Em Mateus 24:12: “…e, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos…”.

A iniquidade será, nos últimos dias, a maior causa de abandono da fé.

Minha conclusão, em tudo isso, é que a igreja está produzindo crentes que também não querem a verdade dos Evangelhos. Muitos querem viver e usufruir dos benefícios do Evangelho, mas segundo suas próprias interpretações. Hoje, o número de teólogos é gigantesco, porém teólogos com suas próprias interpretações das Sagradas Escrituras, de tal forma que hoje textos sobre a negação de si mesmo, sobre o servir ao próximo, sobre o perdão, sobre a misericórdia para os que sofrem e o arrependimento não têm lugar em muitos sermões e em muitas reuniões ministeriais.

Se você perguntar para Macedo, Valdemiro, Malafaia a respeito do que falamos nesse artigo, eles jurarão de pé junto que em suas igrejas há liberdade e que eles são dependentes de Deus. Porém, o dia a dia é totalmente diferente, pois ali eles ditam as regras, instituem formas de agir, de pensar, definem casamentos, número de filhos etc. E a regra é simples: quem não seguir está fora. E isso não só acontece no universo neopentecostal, mas também em igrejas históricas, onde os pastores são avaliados por desempenho, por números de arrecadação e agremiação de novos fiéis. Ou seja, é um mal crescente.

“Pois virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas desejosos de ouvir coisas agradáveis, cercar-se-ão de mestres segundo os seus desejos, e desviarão os ouvidos da verdade e se aplicarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta os sofrimentos, faze a obra de um evangelista, desempenha bem o teu ministério.” – 2 Tm 4:3-5

Essas são as palavras de Paulo ao jovem Timóteo, que iniciava sua vida ministerial.

Que Deus tenha misericórdia de Sua Igreja. Que o Evangelho puro e simples de Jesus seja refletido, e que a igreja volte a ser uma fonte de transformação e de justiça para o mundo.

Quem tem ouvidos, ouça.

Paulo Siqueira

 

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2 respostas para O Evangelho segundo a minha igreja

  1. Weslley Brito disse:

    Maravilhoso artigo, gosto muito dos textos porque me auxiliam para escrever os meus lá no meu blog! A Paz do Senhor!

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