Marcha para Jesus em São Paulo 2019: politicagem e jeitinho brasileiro gospel

marcha191Mais um ano, mais uma Marcha para Jesus, mais uma vez Deus nos permitindo lá estar com frases para reflexão em nossas faixas e camisetas. Mais uma vez estávamos em poucos, mais uma vez houve o que há em todas as demais edições: muito oba oba gospel, muita micareta, muita palavra de vitória, muitos trios elétricos, muitos políticos e muito pouco que remeta à Jesus, o Cristo. E todas essas coisas já foram descritas em artigos deste blog desde 2009, quando o MEEB (Movimento pela Ética Evangélica Brasileira) surgiu.

Assim, nesse artigo trataremos basicamente de dois pontos: o uso político da Marcha e o seu esvaziamento. Comecemos por esse último ponto.

Ao passar por nós, do alto de seu trio elétrico de 24 metros de comprimento e repleto de políticos, pastores famosos, artistas gospel e empresários bons dizimistas, o Apóstolo (?) Estevam Hernandes, dono da Marcha (literalmente, pois patenteou a marca) disse que aquela seria a “maior Marcha da história”. Conseguimos gravar essa fala, que faz parte do vídeo que disponibilizamos nos próximos parágrafos deste artigo.

Os líderes neopentecostais têm uma crença de que tudo o que eles falam vira verdade, afinal são ungidos de Deus e suas palavras têm poder. Assim, quando o Apóstolo (?) Hernandes diz que aquela seria a maior Marcha da história, subentende-se que ele esteja profetizando algo, espiritualmente falando. E, como profeta, não pode falar mentiras.

Porém, talvez o Apóstolo (?) estivesse apenas querendo se engrandecer, fazer marketing da grandiosidade do seu evento, fazer crer que sua Marcha atual era maior do que todas as demais, numa atitude infantil e totalmente contrária ao que é esperado de um líder cristão. O fato é que, seja profecia, seja exibicionismo, a Marcha em São Paulo 2019 foi a com menos gente desde 2009, ano em que começamos a frequentá-la. Mas, ao mesmo tempo, temos fotos de veículos de imprensa mostrando que o local do palco, depois da Marcha, estava repleto de pessoas.

Ué, mas como assim?

O aprendiz reflete o que aprende do seu mestre, o aluno do seu professor, a ovelha do seu pastor. E o que o “povo apostólico” tem aprendido de seus líderes?

Tem aprendido a ser “cabeça” e não “cauda”. A estar “por cima” e não “por baixo”. A ser vencedor e não fracassado. Que possui direito de possuir, de determinar, de ganhar, de receber. Tem aprendido a famigerada Teologia da Prosperidade e a “ética” (ou falta de) que tal doutrina preconiza.

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Então sejamos práticos: para que se vai numa Marcha para Jesus? Para “louvar” com os artistas gospel, para ouvir os “homens de Deus”, para “orar pelos políticos” indicados pela liderança gospel. E onde tudo isso acontece? No palco da Marcha, é claro!

Então, se o objetivo é curtir as 10 horas de shows que acontecem no palco, por que perder tempo “marchando” pela longa Avenida Tiradentes? Se o objetivo é ficar o mais próximo possível dos “ídolos”, por que não ir direto para o local dos shows, garantindo um lugar mais próximo do palco, onde a unção deve correr mais solta?

Eis o Jeitinho Brasileiro Gospel! Beneficiar-se de toda a diversão que o evento Marcha para Jesus pode proporcionar, mas sem se cansar numa longa caminhada (mesmo que, em tese, seja essa caminhada o ponto mais importante do evento, tanto que lhe dá nome)!

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Enquanto estávamos parados, vendo todos os trios elétricos passarem por nós cercados por muito poucas pessoas, até acreditamos que muita gente tinha desistido de participar da Marcha por “N” motivos. Mas, quando em casa pudemos ver os flashes dos shows e o local lotado de pessoas, aí nos caiu a ficha: as pessoas não estão desistindo de ir à Marcha para Jesus, apenas estão desistindo de marchar.

Antes, a Marcha para Jesus se justificava como uma espécie de procissão, onde os líderes e fiéis andavam pela cidade orando e cantando para Deus, decretando bênçãos e quebrando maldições hereditárias segundo a doutrina neopentecostal. Agora, nem essa justificativa existe mais. Em breve, os organizadores poderão economizar com trios elétricos, pois pelo que foi visto nesse ano, talvez não haja quem os siga no ano que vem.

Se a Marcha no sentido literal foi um fracasso de público, os shows da Marcha bombaram. Teve gente que chegou às 7 da manhã para garantir lugar na grade em frente ao palco. Os artistas gospel, políticos e líderes evangélicos fizeram suas apresentações, o povo delirou, aplaudiu, gritou “mito”, adorou (nos dois sentidos). Talvez seja hora de mudar o nome de Marcha para Jesus para Show do Messias, muito mais adequado.

E falando em Messias, como sempre a politicagem correu solta no evento. O governador de São Paulo João Dória, o prefeito Bruno Covas e até o presidente Jair Bolsonaro estiveram presentes, além de vereadores, deputados, senadores em busca de orações, ou seja, de votos. A imagem mais marcante foi o gesto de Bolsonaro simulando estar com uma arma:

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Analisando a foto, vemos que o presidente simula carregar um fuzil ou coisa do tipo. E  direciona a arma para baixo, como se seu inimigo estivesse embaixo, talvez deitado ou caído, possivelmente já rendido. Se a arma estivesse na altura do peito, seu inimigo aparentaria estar em pé. Mas não foi o que aconteceu, o presidente simulou uma execução covarde, desnecessária, pois se o inimigo já está rendido, basta prendê-lo e levá-lo às autoridades.

Mas até aí, nada diferente do discurso político que o elegeu, um discurso de vingança. Como político, Bolsonaro estava lá fazendo o seu papel, como o Dória e os demais também fizeram o seu: aparecer como simpatizantes da religião, para que a multidão lhes dê crédito e continue votando neles nas próximas eleições. O grande problema foi a reação dos pastores.

Pela foto, vemos os pastores rindo, achando graça, se divertindo com a execução virtual efetuada pelo presidente. Eles riem e bajulam o presidente e demais políticos porque dependem deles para a obtenção de benefícios para si e suas denominações. Esses pastores são (im)pastores, que pregam aos fiéis fidelidade total a Deus, mas eles mesmos não creem nisso e colocam sua fidelidade nos políticos do momento, quais sejam: FHC, Lula, Dilma, Bolsonaro e, caso esse também caia, qualquer um que for levantado em seu lugar.

Esses (im)pastores são urubus e hienas, sem ética, sem moral, sem amor a Deus, sem amor aos outros, sem tremor e temor do Senhor. E o triste é que estão formando seguidores com o mesmo péssimo caráter cristão. O Jeitinho Brasileiro Gospel é mais uma prova disso.

Ainda analisando a foto, vemos que todos no palco usam uma camiseta com o slogan da Marcha, igualando-se aos demais participantes. Que lindo, a igualdade nos trajes simbolizando a igualdade na Igreja! Só que não…

Olhe mais atentamente e veja que as pólos do presidente e do Apóstolo (?) apresentam o singular símbolo da marca Lacoste, cuja pólo branca basiquinha custa R$ 329,00:

lacoste

Ou alguém acha que líder bem sucedido se mistura com pobre povo dizimista fiel? Não fazer acepção de pessoas é coisa de nazareno ultrapassado! Rico que é gospel não usa essas camisetinhas de poliéster com algodão que eles vendem pros pobres, pois lhes dá alergia (tanto a camiseta quanto os pobres, diga-se de passagem).

Tudo o mais (imagens gigantes dos líderes nos trios elétricos, uso de dinheiro público na Marcha, demonstração de poderio espiritual e político sobre a multidão, contratação de artistas gospel para atrair os fiéis, etc) são apenas o reflexo de um evento que nada tem de espiritual e que apenas serve para a vaidade dos seus organizadores (além de lhes render muitos lucros!).

O mais patético de tudo é que as lideranças no alto dos trios ficam de costas para nós para não correrem o risco de ler as faixas. Quanto medo de seis pessoas e das frases de juízo que portamos! Pensando bem, eles têm mesmo motivos para temer…

Glorificamos a Deus por, mais uma vez, nos permitir lá estar. Que Ele abra os olhos espirituais de muitos que lá estiveram e puderam ler as faixas e pegar os folhetos, e traga consciência a muitos de que o verdadeiro Cristianismo está além de tudo isso, afinal não conquistamos o título de Protestantes ao longo da história para estarmos do lado daqueles que praticam a iniquidade, como disse Jesus e Seus Apóstolos. Que Ele abra os olhos dos líderes e políticos, e que todos possamos nos arrepender dos nossos maus caminhos e não marchar, mas caminhar em direção ao Pai.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

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