Ainda há esperança para os puros de coração

“E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; e caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E,respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.” – Lc 17.12-19

Após o término da Expocristã, e dos trabalhos que ali realizamos, fiquei durante horas analisando o vídeo produzido, bem como os comentários que o vídeo e os textos provocaram.

Minhas conclusões sobre tudo o que vi na Expocristã 2010 podem até parecer óbvias. A única coisa de que senti falta, pelos anos anteriores, foi a “cueca energizada”. Porém, foram substituídas à altura pelo estande de salames, linguiças e demais frios do gênero.

A pergunta é: o que um estande de cuecas energizadas ou de salames está fazendo numa feira cristã?

A resposta era facilmente perceptível ao se circular pelos pavilhões. Os setores destinados às editoras, à literatura cristã se encontravam vazios, assim como o pequeno e estreito corredor destinado às ONG’s e às missões. Porém, um grande contraste havia quando nos dirigíamos aos estandes das gravadoras. Havia histeria, empurra-mpurra, filas imensas, gritos, tudo para pedir autógrafo ou ser fotografado ao lado de um “ídolo evangélico”.

Foi nauseante assistir a essas cenas.

Com isso, minhas conclusões me levaram a essa passagem bíblica, onde Jesus se encontra com os dez leprosos. A lepra era uma doença cultural para os dias bíblicos, pois ao leproso estava destinado o abismo e a morte, não importando sua posição social, suas posses, sua religião. Não havia retorno. Isso caracterizado por um déficit de saúde, sanitário e político-religioso da época.

Sanitário, porque as cidades tinham uma estrutura horrível. Havia muitos animais, escravos, estrangeiros de toda a parte, e uma doença transmitida pelo contato pessoal poderia se espalhar rapidamente por todo o canto.

Político, porque as lideranças da época eram impostas pela escravidão, não restando qualquer importância ou qualquer comprometimento com o outro, a não ser a troca do trabalho.

Com isso, a cura da lepra se destinava ao contexto místico. Porém, contexto esse barrado fortemente pelas tradições religiosas. Para os judeus, a lepra era uma maldição, maldição essa a ser combatida. Assim, não restavam muitas opções ao leproso a não ser se lançar ao deserto e esperar pela sorte ou pela morte.

Nesse contexto, a revelação bíblica demonstra que Jesus é clamado por dez leprosos. Jesus, de forma simples e rápida, ordena que eles se dirijam aos sacerdotes e demonstrem a cura. Porém, mais uma vez o texto bíblico nos surpreende, pois somente um retorna glorificando e exaltando ao Senhor, e é de admirar que esse era um samaritano, um estrangeiro. Porém, recebe a palavra derradeira: “vai, a tua fé te salvou”.

Em minha meditação sobre tudo o que vi na Expocristã, e refletindo nesse versículo bíblico, chego à conclusão de que nossa tarefa de lutar pela volta da Igreja ao Evangelho puro e simples é uma tarefa bastante árdua, porque o povo evangélico só quer “a bênção”. O contexto evangélico é cercado,em sua maioria, or uma afirmação de que a busca por Deus e Seus caminhos e revelações só tem sentido se houver uma recompensa, ou seja, a bênção. Buscar o sentido da fé, buscar uma definição do Deus Altíssimo, ir de encontro a todas as interfaces da revelação bíblica é tarefa para os pastores, teólogos, o povo não pode perder tempo com isso. O povo precisa receber a bênção. ssim, encontramos as bíblias de auto-ajuda, com tudo mastigadinho, pronto para ir direto à bênção. Pra que pregação? Vamos para a oração! Por isso, muitos porquês das campanhas milagrosas. Com isso, muitos pastores, em conformidade com o “mercado”, nada mais fazem do que adequar sua “filosofia de trabalho” para proporcionar ao povo frequentador o objetivo tão almejado. Em reflexo disso, surgem as igrejas que nada produzem no sentido de formar um caráter cristão, através da ação do Espírito Santo na vida de cada frequentador.

Na história dos dez leprosos, nove não retornaram, pois foram de encontro aos seus sacerdotes. Com certeza, foram confrontados a respeito da teologia de Cristo, e motivados a ofertar no templo e a continuar “agora curados” sua caminhada religiosa.

Esse é o exemplo típico da igreja atual, onde o foco está na bênção, na tradição sacerdotal, que como uma nuvem negra esconde o verdadeiro sentido da obra de Cristo, que é a Salvação, a transformação do homem velho no homem novo, no coração de pedra em um coração de carne, transformação essa proporcionada a todo o homem e mulher que abandona os seus pecados e passa a ser em Cristo nova criatura.

Essa não é a dinâmica de muitas igrejas, e também não é o propósito de muitos cristãos. Em uma graduação, um leigo em qualquer ciência se torna um bacharel em quatro, cinco ou seis anos. Há pessoas que frequentam uma instituição evangélica por dez, vinte e até trinta anos, e não têm nenhuma fundamentação teológica em seus pensamentos, em suas palavras. O que sabe é simplesmente repetir “jargões” de forma isolada do contexto bíblico, demonstrando ser mais uma vítima da desastrosa forma com que a Bíblia é tratada em muitas denominações.

No geral, todos têm ao menos um testemunho da bênção, ou seja, testemunhar se tornou muito mais relevante do que ter uma vida transformada em Cristo.

Esses caçadores de bênçãos são os peregrinos, que vão de ministério em ministério, de pastor a apóstolos, mendigando, a troco de ofertas, desafios, campanhas, as migalhas que caem dos púlpitos, ou são arremessadas pelos paletós, ou lançadas do suor dos vulgos apóstolos dos dias modernos.

Com isso, um outro personagem surge, o sacerdote desfigurado pela busca desenfreada pelo poder. Não basta ser pastor: tem que ser bispo, e agora apóstolo. Muitos, quando caem em si, em meio a tantas mentiras, invenções e toda a mediocridade que envolve ser um sacerdote em uma instituição fantasiosa, entram em um verdadeiro inferno eclesiástico, ou seja, muito do que ele prega lhe serve agora como um constante espinho na carne.

Mas como deixar o salário, e  muitas vezes todos os louros da vida eclesiástica, e partir para um Evangelho da verdade?

O preço é muito alto. Com isso temos um exército de sacerdotes mortos-vivos, sufocados pelo sistema eclesiástico.

Sou profissional da saúde e trabalho numa UTI para pacientes com problemas cardíacos. Recentemente, em atendimento a mais um paciente, vi uma família bastante atribulada, em desespero, pois o pai da família haveria de passar por uma cirurgia de risco. Como cristão, fui à família com uma mensagem de esperança, dizendo “creiam em Deus e fiquem na Sua paz”. Foi quando todo o quarto entrou em prantos. O homem a ser operado era um pastor com quase cinquenta anos de ministério, que tinha os filhos, a esposa, os irmãos, todos no ministério. Porém, em meio à situação, ninguém se lembrou do Deus que nunca abandona Seus filhos. Quando revelei a eles que era um pastor, eles, com bastante constrangimento, disseram: “nós também somos evangélicos, perdoa a nossa falta de fé, ore por nós.”

Esse é o reflexo de muitos cristãos que estão passando suas vidas na igreja, porém não descobrem quem é o Senhor da Igreja, tudo isso em reflexo à forma superficial de conduzir a fé. Isto é refletido em toda sociedade brasileira, vemos isto refletido na política, nas formas de comercio, nas relações famíliares. A igreja é reflexo para o mundo, quando falta ética na igreja imagine como vai ficar toda sociedade. Muitos lideres evangelicos mais se parecem empresarios, porque na verdade suas igrejas são verdadeiras empresas, e muitas realmente são administradas desta forma.

A muito a ser feito, Graças a Deus que nem todos se dobraram a Baal, poderia referir muitos nomes, homens e mulheres que ainda dignificam o Reino de Deus e são exemplos a serem seguidos, com isto continuo a ter esperança.

Ainda bem que a mensagem do Evangelho é a mensagem de esperança e de vida, onde não há vida.

A Expocristã poderia ser uma luz em meio a tanta escuridão, poderia ser um local onde políticos e empresários descobrissem as verdadeiras riquezas do Reino de Deus, e não se tornar um local de trocas e vendas e lucros desenfreados, por parte de muitos que se dizem cristãos.

Talvez o radicalismo de Cristo ao expulsar os vendedores do templo já não seja mais a solução para os dias de hoje. Porém, é preciso persistir, batalhar. Para isso, reconheço que vou necessitar da ajuda e do apoio de muitos.

Como uma pedra que clama no deserto, sei que não posso desanimar, mas confesso que a experiência dessa Expocristã demonstra que a luta é contra as bases de uma igreja contaminada por uma cultura de consumismo, materialismo, vida mundana, e outros pontos mais revelados na própria Palavra.

Parece que a igreja não quer mudar. Há um certo conformismo com tudo isso. Parece ser muito mais fácil descumprir a Palavra do que fazê-la refletir na vida das pessoas. O reflexo disso está nos inúmeros novos ministérios que surgem, até mesmo instituições tradicionais no meio evangélico estão se esfacelando em pequenas comunidades. Muitas dessas divisões, fundamentadas em desrespeito, ganância, vaidades de muitos líderes.

Toda essa situação me faz lembrar o texto de João 8, onde Jesus debate com os fariseus, até que eles se justificam dizendo ser filhos de Abraão, e até mesmo filhos de Deus. Jesus tem uma resposta bastante dura, dizendo que se eles fossem realmente filhos de Deus, praticariam os Seus ensinamentos. Mas, ao contrário, por não fazerem, Jesus os chama de filhos do diabo.

Uma palavra bastante forte, porém a voz que clama no deserto não veio para cumprir a vontade dos homens, mas sim veio proclamar a vontade de Deus. Então se faz necessário proclamar novamente:

Raça de víboras, arrependei-vos, pois vos é chegado o Reino de Deus.

Voltemos ao Evangelho puro e simples, o $how tem que parar!

Que Deus tenha misericórdia de nós.

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3 respostas para Ainda há esperança para os puros de coração

  1. Moacir Teles Maracci disse:

    Paulo, você mencionou que é um profissional da saúde, logo o drama humano lhe espreita diariamente. Provavelmente você já ouviu de algum pastor, destes que “dão banho em teologia” (sic) que “Deus cura”, não importa o diagnóstico médico, pois o médico é…humano! Concordo que Deus cura, sim, o problema dessa afirmação está justamente nos “pingos nos is”. Em outras palavras, reconhecer a glória de Deus não é, de forma nenhuma desvalorizar o humano. Com a imensa fé que o define como um cristão inconformado com o consumismo gospel, Paulo, diariamente você percebe o quanto é usado por Deus, justamente para curar, não no sentido clínico obviamente, mas curar no sentido de devolver a tantas pessoas que frequentam o seu local de trabalho o estatuto de seres humanos, como fez Jesus àquele cego estrangeiro aos olhos daqueles tempos. É a tarefa que me cabe em outro ambiente de trabalho, o do ensino a jovens. Dependo demais das orações dos irmãos para que eu possa levar a bom termo a tarefa de, através da Educação também restituir aos meus alunos o estatuto de seres humanos plenos da capacidade de buscar a felicidade, em uma palavra, a busca do Reino de Deus. Nunca devemos perder de vista, que graças a Deus, somos humanos…demasiadamente humanos! Graça e Paz!

  2. Diogo disse:

    “Parece que a igreja não quer mudar”. Eu não sei se a igreja não quer mudar ou se ela quer mudar para algo bem diferente da proposta inicial! 🙂

    Belo texto!

    Abraço,

    Diogo

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