“Favela”, lugar de cidadania

Já estava há bastante tempo longe do blog, e muitas coisas se passaram: política, eleições, briguinhas e discussões sobre aborto, homossexualismo, pastores e líderes brigando, igrejas se deixando levar pelos movimentos políticos, enfim, coisas de sempre. Tenho a impressão de que nada mudou. Coisas velhas com texto e personagens novos.

Porém, foi só passar a eleição e a candidata do governo e das principais lideranças evangélicas eleita, e tudo voltou à rotina: previsão de CPMF de volta, Congresso parado, esperando novos cargos, e para não mudar o cenário, explode mais uma crise de violência no Rio.

O ponto central de tudo é que tudo ocorre após a eleição. Devemo-nos lembrar que favelado também vota. Nessas últimas semanas, estamos sendo bombardeados pela mídia, pela violência envolvendo traficantes e forças do Estado do Rio de Janeiro e agora forças federais.

A grande questão é que já há décadas, o governo do Rio enfrenta essa guerra contra o tráfico. O que vemos são notícias de uma polícia corrupta, despreparada para enfrentar um problema que vai muito além de drogas e tiros. Os governos do Rio de Janeiro, nas últimas décadas, pouco investiu no alto do morro, e as desculpas sempre foram que o tráfico impedia.

A grande questão é que temos, daqui a quatro anos, uma Copa do Mundo, que trará os olhos do mundo para cada parte desse país. Com isso, também, trará uma infraestrutura de bilhões de dólares. Ou será que podemos acreditar que, da noite para o dia, os governos estadual e federal, resolveram olhar para os pobres dos altos morros?

Antes da polícia invadir o morro, ela deveria limpar, das suas forças policiais, toda a corrupção e essa cultura de extermínio de vidas, que já dura décadas, no Estado do Rio de Janeiro. Para o governo, é muito mais fácil e muito mais barato resolver os problemas sociais envolvendo morros e favelas, exterminando, matando os envolvidos da crise social.

Há tempos que filmes como Tropa de Elite, Carandiru, Cidade de Deus denunciam a forma como a vida social caminha nesse país. De repente, surgem as UPP’s como a solução definitiva para todos os problemas do tráfico. Até hoje foram implantadas pouquíssimas UPP’s, que nada mais são que uma pequena resposta da sociedade, em vista da hipocrisia da sociedade burguesa para com os “cidadãos favelados”. As UPP’s nada mais são do que aquilo que a Constituição diz que é para ser feito, levar paz, segurança, saúde e vida digna para todos os cidadãos, inclusive aqueles que vivem em morros e favelas.

A impressão que temos é que o pobre, o negro e o morador dos morros só servem para o noticiário policial, ou seja, tudo é caso de polícia. Isso é um ponto cultural no nosso país. É um problema velho, os governos anteriores do Rio de Janeiro sempre se esquivaram dos reais problemas.

Isso é o reflexo de um país que não investe em educação, onde falta educação sobra violência, e não estou falando em educação precária, como a que é oferecida. Para isso, basta ver os índices de competência, e veremos que nossa educação alcança índices dos piores países do mundo. O Estado é negligente em oferecer ao povo uma educação de qualidade.

A favela sempre foi o esgoto da sociedade, sempre foi esquecida, abandonada, indesejada por uma sociedade consumista. Basta ser do morro que é bandido. Isso é a cultura, que para muitos prevalece.

As leis são para defender o burguês, o branco. Negro e pobre são o problema. Nossas leis são para defender a propriedade, não a vida. A força militar mobilizada no Rio de Janeiro provém de um Estado que defende a propriedade, e não a vida.

Muitos são os discursos. Basta vermos os índices de violência e veremos que o Estado do Rio matou muito mais com a negligência na saúde, com a negligência na segurança, com a negligência em oferecer vida digna aos cidadãos pobres.

O que vemos são ruas e praias enfeitadas para receber o capital estrangeiro, enquanto os pobres padecem na porta dos hospitais, na falta de saneamento básico. Para isso sempre há os discursos.

Muitos dos que estão no crime são seres humanos, desprovidos de auto-estima, excluídos pelo Estado, que visa o social para se autopromover, para promover seus partidos em proveito próprio. Raras são as exceções, pois nesse país ideologia pessoal sempre sucumbe ao poder do partidarismo político.

A educação que conduz à vida e não ao consumismo e a educação estética. Escola deve ser motivadora de vida. É a verdadeira educação que liberta, pois tira as amarras e traz o conhecimento. É preciso ter coragem para provocar mudanças, é preciso trazer sentido para a vida de muitos jovens do Rio e do Brasil.

Quem são os soldados do tráfico? Quais foram suas oportunidades? O que pode sonhar um jovem do morro, chegar à faculdade? Ser um negro qualificado? Tornar-se um jogador de futebol? Qual o papel da droga em tudo isso?

Por que a alta sociedade, que tem estudo, moradia, carros, roupas de marca, bons perfumes, cultura, é a verdadeira mantenedora das fortunas do tráfico?

Após conquistar dois morros, o governo do Rio decreta que o Rio de Janeiro está livre, e agora políticos e mais políticos posam em fotos, porém na realidade o Rio de Janeiro possui centenas de morros e favelas.

O discurso é de paz e liberdade. Nem sempre quem tem liberdade tem paz. Precisamos de soluções que não sejam exploradoras. Aí sim, teremos liberdade e paz.

Acredito que tudo isso está muito longe de acontecer, pois ainda não fomos libertos do Estado corrupto e explorador da vida. Há um caminho muito grande a ser percorrido, porém o primeiro passo deve ser no sentido da conscientização, para que não percamos de vista a realidade, pois se isso acontecer cairemos na alienação.

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. – Jo 14.27

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2 respostas para “Favela”, lugar de cidadania

  1. Laudinei disse:

    Paulo, bem vindo de volta ao seu blog,
    Estavamos sentindo falta de seus textos.
    Como voce escreveu
    “Há um caminho muito grande a ser percorrido, porém o primeiro passo deve ser no sentido da conscientização, para que não percamos de vista a realidade, pois se isso acontecer cairemos na alienação.”

    Seu blog e suas ações contribuem para esta conscientização;

  2. Moacir Teles Maracci disse:

    Um belo texto, de um blogueiro realmente engajado, desses cristãos raros na sociedade hodierna que pensa no Reino de Deus como uma missão a cumprir, não apenas para alcançar por meio das famigeradas bênçãos de púlpitos (ou de altar, o que dá no mesmo), como se vê por aí em certas instituições a que chamam de “igrejas”. Bem vindo de volta a seu blog, Paulo. A Graça e a Paz. Moacir

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