“Guerra ao inimigo” passa por disputa de números e da visibilidade…

 … e neste caso, vale a retórica do terror = perseguição
Este texto é resultado dos comentários às matérias deste blog acompanhados de questionamentos como: “por que a grande mídia não deu cobertura ao evento?” Vale dizer que os questionamentos são bem-vindos e serão sempre refletidos e respondidos, quando possível – são importantes porque ajudam a aprofundar e olhar o processo sob outras perspectivas.
No caso em questão, vale lembrar que faz  parte das  estratégias no quadro das disputas político-ideológicas baseadas no enfrentamento de inimigos estabelecidos simbolicamente,  criar uma “guerra” pela visibilidade, que comumente envolve números e exposição nas mídias. Nesse sentido, os grupos evangélicos que estão buscando ampliar espaço na arena política fazendo uso da plataforma da defesa da família, da vida e da liberdade de expressão, cujos inimigos são os movimentos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais)  e feministas, encarnados nas ações do governo federal, esta guerra ficou explicitada já na competição entre lideranças da Marcha para Jesus, realizada no Rio de Janeiro e da Parada do Orgulho Gay, realizada em São Paulo. O pastor Silas Malafaia se expôs nas mídias noticiosas para discursar com ironia contra os altos números da Parada Gay divulgados em reportagens (na casa do milhão) indicando que o Instituto Datafolha estimou números bem menores na casa dos 200 mil, veja em: http://noticias.gospelprime.com.br/silas-malafaia-numeros-parada-gay) O líder da Manifestação de Brasília provocou ao final do sue discurso no evento: “Quero ver o movimento gay botar 30 mil pessoas aqui no meio da semana” ou no Twitter:

Outra  estratégia da retórica do terror, é reforçar a ideia da perseguição com argumentos como “querem nos calar” ou “não nos dão o mesmo valor como dão a eles [os inimigos]” ou “vejam quantos aliados contra nós”. E esta prática foi amplamente identificada em discursos de apoiadores da Manifestação de Brasília por meio de blogs e das  redes sociais alegando a pequena ou quase inexistente cobertura das mídias noticiosas ao evento dos evangélicos diferente da ampla cobertura da Parada Gay (veja, por exemplo, http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/ ou os twitts:
Não houve condições de se sustentar este discurso por muito tempo já que os próprios interlocutores destes apoiadores passaram a indicar e a “louvar” a divulgação da manifestação pelas mídias. O próprio organizador, pastor Silas Malafaia, teve que admitir isto no dia seguinte:
E não podia ser diferente por duas razões:
  1.   A Manifestação dos Evangélicos em Brasília foi notícia e tinha que ser reportada pelos veículos da imprensa: reuniu expressivo número de pessoas, trouxe ao palanque celebridades do cenário religioso da esfera política e da midiática, foi apoio ao deputado federal pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, destaque no noticiário político nos últimos meses. A lista do pastor Silas Malafaia apresentada nos twittes acima expressa isto.
  2. A ampla cobertura da Rede  Globo certamente estava garantida já que o organizador da manifestação de Brasília, pastor Silas Malafaia, é assessor da Globo para assuntos religiosos (evangélicos). A Globo deu amplo espaço ao evento (como já tinha dado à Marcha para Jesus em Brasília) no Jornal Nacional (matéria grande de 1’43 e declaração final, o que é marcadamente importante em reportagens, do pastor Silas Malafaia), no DFTV (telejornal regional), no Portal G1, na Rádio CBN e matéria de primeira página no jornal O Globo.

Não havia mesmo como se sustentar a retórica da perseguição por ausência nas mídias, mas ela teve resposta positiva enquanto durou, revelada pelos comentários recebidos por este blog. É preciso reconhecer que as mídias não-religiosas raramente davam espaço aos evangélicos nos noticiários – a não ser em situações de escândalos ou casos bizarros. No entanto, este quadro mudou atualmente, e bastante, muito em função da atenção das mídias aos evangélicos como segmento de mercado e audiência específica. O fato do pastor Silas Malafaia ter sido contratado pela Rede Globo para a assessoria, inclusive com a tarefa de captar público para a nova empreitada da Rede, a Feira Internacional Cristã para concorrer com a Expocristã, mostra como este quadro está radicalmente alterado (sobre a captação para a feira veja em http://www.verdadegospel.com/tag/feira-internacional-crista) . Há uma parte do texto “Caso Marco Feliciano: um paradigma na relação mídia-religião-política” em que este assunto é mais amplamente tratado (clique aqui para ler).
De novo, vale refletir que as lideranças evangélicas que buscam ampliar espaço no cenário da política estão encontrando fórmulas de tentar adquirir controle político sobre expressivo número de fieis das igrejas. Estes, na sua sinceridade e pureza de fé, muitas vezes não conseguem fazer uma leitura crítica desta estratégia e, por  isso dão credibilidade ao discurso simbólico estrategicamente construído pelos líderes.
Neste jogo da política, cada movimento tem que ser monitorado e interpretado como estratégia. Nada é gratuito. Uma palavra do Evangelho revela-se ainda mais apropriada ao tempo presente:  “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mateus 10.16).

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