O culto ao Eu: o que foi a Expo Cristã 2018

IMG_20180927_073139377Domingo, dia 30/09, um pequeno grupo com camisetas com frases bíblicas passeou pelos corredores da Expo Cristã (ou Expo Mamom para os mais íntimos). A total ausência de filas na bilheteria já preconizava o que estava por vir.

Embora contasse neste ano com espaços onde se simulavam passagens bíblicas através de telões, além do Bem Festival, com shows de artistas gospel conhecidos, aparentemente havia menos participantes do que nas outras edições, tanto em matéria de estandes como de público. Essa visível queda de público se explica pois muitos estão tendo seus olhos abertos e, cientes, não pensam valer a pena gastar R$ 25,00 apenas para entrar num espaço que se diz cristão, mas onde prevalece o culto a Mamom.

Mas Mamom, em 2018, teve que dividir seu senhorio gospel com outro deus: o Eu. Se, na última edição, o destaque foi a quantidade de estandes vendendo máquinas para arrecadar dízimos e ofertas, nesta edição o destaque ficou totalmente para o ego inflamado dos expositores. Fotos em tamanho gigante dos pastores, bispos, apóstolos (?) e suas esposas. Fotos dos cantores. Fotos dos pregadores. Até um estande gigante chamado de Autógrafos Gospel – Best Sellers havia no local, dividido em vários puxadinhos, cada qual com a foto gigante do Eu que deveria ser adorado, digo, idolatrado, digo, homenageado no lugar.

IMG_20180930_134419753Institucionalizou-se o Culto ao Eu na Expo Cristã (que de cristã nem o nome deveria ter, pois com raríssimas exceções – como os minúsculos estandes de entidades sociais – nada trazia de Jesus, o Cristo).

E claro, o púlpito mor do Culto ao Eu estava no tal Bem Festival.

IMG_20180930_111536352E aí lembro-me da minha primeira impressão quando cheguei ao local, por volta de 11 horas da manhã. Fui ler a programação do Bem Festival, grudada num poste na entrada. Um grupinho chegou e começou a ler também, aos gritos de “ahhhhhh!!!! Hoje tem Ton Carfi!!!!” E por um bom tempo presenciei pessoas chegando, lendo e dando seus gritinhos de êxtase. Afinal, o Evangelho virou um show. E já que é show, “bora” se divertir. E satisfazer o deus Eu.

Como não podia deixar de ser, a política estava também representada na Expo Cristã. Menos no dia 30 (através de cabos eleitorais distribuindo santinhos ou balançando bandeiras na entrada) e muito mais no dia 27, quando houve o Café “político” dos Pastores. Nesse dia também estivemos, só que com uma proposta diferente: estendemos uma faixa em frente ao evento, já que só pastores cadastrados podiam entrar.

E uma das nossas primeiras impressões foi a acepção de pessoas. Uma fila gigantesca e que não andava, para o credenciamento dos pastores “pobres”. E uma Sala Vip para os pastores “ricos” e políticos convidados.

Sobre a tal Sala Vip, fica o depoimento de um dos funcionários que ajudou a montá-la: “Já fiz Sala Vip para a Fórmula 1, para o Presidente Lula, para a Presidente Dilma, para muitos eventos importantes, mas essa Sala Vip foi a mais cara e mais ostentatória de todas”. Nossa fonte deu o depoimento indignado, pois se dizia filho de evangélicos e não entendia como pastores podiam agir assim. E um adendo: nem os seguranças da Sala Vip podiam subir para o andar vip, isso ouvimos de um dos seguranças. Então fique em sua imaginação como deve ter sido o Templo do Eu, onde o Eu de Agenor Duque, Silas Malafaia, Flamarion Rolando, Jabes de Alencar, Renê Terra Nova, Estevam Hernandes, Marco Feliciano e muitos outros líderes religiosos se esbaldaram. E onde receberam o Eu de políticos como Geraldo Alckmin, João Dória, Major Olímpio, Bruno Covas e outros tantos mais.

Sobre a presença de políticos no Café de Pastores, eles estavam no seu papel. Afinal, político tem que ir onde for chamado para angariar votos. O problema não foram os políticos, foram os (im)pastores que convidaram os políticos!

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Houve um tempo em que Café de Pastores era uma reunião para comunhão, para troca de experiências, para auxílio mútuo, para jejum e oração. Hoje, Café de Pastores é espaço para negociação de apoios políticos a quem mais beneficiar as igrejas envolvidas. Não sei o seu deus, mas o Meu Deus vomitaria tudo isso.

Falando em negociação, naquele mesmo panfleto com o horário do Culto ao Eu no Bem Festival estava anunciado também o Business Class, que deixo que a imaginação de cada um defina o que deveria ser (e o que de cristão tem isso, é claro).

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Termino esse triste relato com algo que aconteceu na quinta-feira. Encontramo-nos com uma senhora que, ao ler a camiseta, se pôs em atitude de desabafo. Seu esposo só pensava em dinheiro. Era o dia inteiro na internet vendo a Bolsa de Valores, investimentos, isso e aquilo. Mal tinha tempo para a família. Dissemos que orássemos por ele, pois Deus pode transformá-lo. E nos despedimos.

Um tempo depois, nos encontramos com um senhor, que também leu a camiseta. Ficou eufórico, pois era isso mesmo, o Evangelho estava sendo mal interpretado em muitas igrejas e devemos nos voltar para Deus e nos afastar deste mundo.

E então chegou a senhora. Era a esposa daquele senhor. Oferecemos um folheto para a senhora, mas o senhor nos interrompeu, pois não precisava. E se foram.

Essa situação nada mais é do que a verdade de muitos de nós. Somos como a semente da parábola, semeada entre espinhos:

“E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.” – Mateus 13:7

“E o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera;
Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.” – Mateus 13:22,23

Eventos como a Expo Cristã nos mostram o quanto a Palavra tem sido sufocada pelos espinhos dos cuidados deste mundo e da sedução as riquezas. Fazer uma Sala Vip mais cara e vistosa do que a de um evento mundial como é a Fórmula 1, apenas para demonstrar poder, chega a ser abominação. A Fórmula 1 é um entretenimento mundano, não podendo em nada se comparar a um evento que ostenta o nome de Cristo. Quantos poderiam ter suas necessidades supridas, seu sofrimento aplacado, mas não foram pois alguns queriam satisfazer seu Eu por algumas horas?

E paramos por aqui, pois se formos investigar de onde veio o dinheiro para tantas ostentações… Só de dízimos e ofertas e aluguel de estandes é difícil, viu…

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De Deus não se zomba. Por muito menos, Jesus expulsou os mercadores do Templo.

Nem Mamom, nem o Eu. Cultuemos ao único Deus Supremo, o Criador de todas as coisas.

Arrependamo-nos enquanto é tempo.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A Deus toda a honra e toda a glória para sempre.

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