Por que algumas igrejas estão se tornando empresas?

cruz“E disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio.” – João 2:16

Alguns anos atrás, no lançamento de uma feira evangélica em São Paulo, ao ser indagado sobre o crescimento dos evangélicos no Brasil Silas Malafaia respondeu de forma rápida e enfática: “É tudo business”.

O que temos observado nos últimos anos nas relações entre igrejas evangélicas e o mundo é de assustar, pois as igrejas vêm se apoderando das mesmas armas utilizadas pelo universo corporativo, tanto para o crescimento quanto para a administração de sua eclesiologia.

Indo direto ao ponto, lamentavelmente muitas igrejas estão se tornando verdadeiras empresas. Isso mesmo.

Não há outro nome para definir a forma como muitas estão agindo.

Para muitos, o grande problema da igreja eram as questões relacionadas à teologia liberal e o neopentecostalismo. Porém, a meu ver, esses já são pontos ultrapassados, pois até mesmo as igrejas históricas já se renderam a esses pontos.

A questão é que muitas, agora, além de abraçarem o liberalismo e as crendices neopentecostais, abraçaram para si o desejo ardente pelo lucro, tornando-se casas de negócios.

No texto base desta reflexão, temos a narrativa na qual Jesus, ao ver no que havia se tornado o templo, faz chicotes e adentra o local expulsando os vendedores e derrubando as mesas, até que diz uma frase: “não faça da casa do meu Pai casa de negócios”.

Para muitos, Jesus está se referindo a Si mesmo como templo que havia de ser restaurado. Porém, há preocupação com a conduta daqueles que frequentavam o templo.

Em Mateus 21, a mesma narrativa é apresentada com mais detalhes nesse sentido, pois além de tombar as mesas, Jesus repreendeu os comerciantes do templo dizendo: “está escrito: a minha casa será chamada casa de oração, vós, ao contrário, estais fazendo dela um covil de salteadores”.

O texto a que Jesus está se referindo é o texto de Isaías 56.7, onde o Senhor nos descreve que a Sua casa será chamada casa de oração para todos os povos. Ou seja: apesar de estarmos na pós-modernidade, a essência de toda a espiritualidade cristã ainda continua na Palavra de Deus. E a igreja ainda é a assembleia dos santos.

O que vemos hoje é que esse referencial foi deixado de lado, pois muitas lideranças abandonaram as Escrituras, rendendo-se às metodologias da administração, da gestão de pessoas, da psicologia e demais ciências. Ou seja, em muitas igrejas há um pouco de tudo, menos uma teologia fundamentada nas Escrituras.

Isso faz com que a igreja também seja um pouco de tudo: casa de show; agência de turismo, principalmente para a Terra Santa; clube social nos finais de semana e feriados; fonte de entretenimento para jovens e crianças; sociedade secreta para empresários; etc.

Lamentavelmente, a solidariedade, a misericórdia, a oração, a promoção da justiça e da paz ficaram em segundo plano. Para muitos, isso se tornou “assistencialismo social”. O que importa hoje, para muitos, é que a igreja cresça, arrecade e apareça.

Sempre ouvi que a igreja não podia ter duas coisas: ter um dono e ter por essência o lucro.

Não ter um dono, porque a igreja tem por cabeça o Senhor Jesus. Em Efésios 5, Paulo se refere à igreja como a Noiva de Cristo e, como tal, deve se apresentar com suas vestes brancas, sem mácula. Triste se compararmos com nossa realidade e vermos que muitos dos escândalos que vêm a tona, relacionados à igrejas e suas lideranças, têm sempre como pano de fundo a ganância e o desejo de desenfreado de se manter no poder.

Exemplos não faltam. Se fosse para citá-los, essa reflexão se tornaria extensa demais. A questão é que temos visto que muitas lideranças parecem não conseguir refrear seu desejo cada dia maior de poder, enriquecimento e vaidades e vaidades.

Esses dias vi uma publicação onde certo pastor ironizava os demais presentes pelo fato do seu avião ser maior e mais caro do que o dos demais. E alguns, cita o pastor, nem avião têm. Ou seja, o bom pastor é que aquele que tem o poder e a capacidade financeira de poder se esbaldar diante dos outros.

E aí entra nosso segundo ponto, o lucro. E aqui está uma questão que muitos ignoram, ou fazem que não vêem.

A igreja nunca foi referência de lucro ou enriquecimento para seus líderes.

É preciso lembrar que ela nasce na narrativa de Atos 2, onde os membros da igreja vendiam tudo o que tinham e depositavam aos pés dos Apóstolos para que todos na comunidade tivessem tudo em comum e não houve necessitados no meio deles.

Isso parece até uma utopia diante do que vemos hoje, pois o que vemos hoje é o contrário. Os pastores e líderes chegam na igreja em helicópteros, limusines, carros importados e blindados, cercados pela comitiva de seguranças, enquanto muitos membros suportam horas nos sucateados transportes públicos.

Em muitas denominações, a desigualdade sócio econômica do líder para com o fiel é assustadora.

livro-economia-e-fe-no-inicio-da-era-crist-justo-gonzalez-D_NQ_NP_379325-MLB25419916715_032017-FGostaria de referir como base para essa questão do lucro envolvendo a igreja o livro de Justo González Economia e Fé no início da era cristã (Ed. Hagnos), no qual o escritor nos descreve bem qual era a relação da Igreja primitiva com o dinheiro, a prosperidade e a riqueza diante dos direitos e obrigações dos ricos para com os pobres e necessitados.

Outra questão a ser referida em razão do lucro são os fundamentos da Reforma Protestante, onde Lutero embasa suas teses principalmente em relação da entregada busca pela Igreja Católica do lucro. Muitos se esqueceram que, em decorrência da ganância dos papas, foram criadas as indulgências, que sacrificaram a vida de muitos unicamente pelo lucro.

Essa relação igreja e lucro também é denunciada por Calvino e muitos outros Pais da Igreja.

É triste, mas o que estamos vendo hoje não tem nada de novo, pois a igreja sempre retorna nessa mesma tentação de ser uma casa de negócios, deixando de lado os valores essenciais do Cristianismo.

Lamentavelmente, até mesmo as igrejas ditas reformadas também se deixaram levar pelo desejo do crescimento desenfreado das riquezas.

Lutero tem vários escritos se referindo à “usura” dos fiéis, porém seu maior embate era contra a ambição da própria igreja.

autoridadeGostaria de citar como referência disso o livro Autoridade Bíblica Pós-Reforma de Kevin Vanhoozer, no qual o autor descreve fatos que resgatam as Solas segundo as essências do cristianismo protestante puro e simples (Ed. Vida Nova).

São muitas obras sobre o assunto. Nessa reflexão, quero tocar na ferida que lamentavelmente tem tirado muitas igrejas e suas lideranças do verdadeiro caminho da santificação e da consagração a Cristo.

Muitos vão dizer: “a igreja sem dinheiro não vive”, “como que a igreja irá sustentar os obreiros e os missionários?”, “como a igreja irá evangelizar?”. São perguntas comuns, e aqui está o grande problema.

Muitas igrejas, por conta desse espírito de dominação e lucro, se esqueceram dessas coisas, pois o que vemos hoje não é mais evangelismo ou missões, são empreendimentos, abertura de filiais para perpetuação da marca.

Já citei isso em muitos outros artigos e não quero ser repetitivo, porém quero refletir que essa não é a missão da Igreja.

Melhor dizendo: a missão da Igreja não é ganhar dinheiro, expandir imóveis, enriquecer as lideranças e se tornar “uma marca famosa” em todo o mundo. O papel da Igreja é a simplicidade, a santidade, a espiritualidade e, acima de tudo, a integridade para com Deus.

É um grande desafio, porém, como disse Jesus, a casa de Deus é casa de oração e não casa de negócios.

A Deus toda a honra e toda a glória.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

 

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