A igreja brasileira é uma igreja fundamentada na essência bíblica?

igreja-destruida-na-siria“E a meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano, e o farão discernir entre o impuro e o puro.” – Ezequiel 44:23

Gostaria de escrever artigos que exaltassem a vida prática cotidiana da igreja, sua liturgia cúltica e pregação centrada no Evangelho. Gostaria de dizer que a vida pastoral de muitas igrejas fosse exemplo de conduta ética, moral para o sistema político e demais cidadãos. Gostaria de pensar que a igreja fosse fundamentada na Palavra de Deus e na extensão do Seu Reino.

Porém, o que vejo são evangélicos defendendo aborto, se engajando em campanhas de volta ao regime militar, evangélicos favoráveis à tortura e a políticas armamentistas, evangélicos que são a favor de políticas violentas contra imigrantes em diversas partes do mundo, evangélicos que acreditam que o Deus da sua igreja e do seu líder é maior e melhor do que o de outra denominação. E muitos exemplos mais.

Tudo isso que citei acima faz parte de um contexto onde a maioria das instituições estão centradas. Graças a Deus, apesar deste artigo ser uma crítica à realidade da igreja brasileira, eu tenho consciência de que, apesar de poucos, muitos ainda não se dobraram aos deuses deste mundo.

Depois que iniciei, junto com outros irmãos, os trabalhos do MEEB (Movimento pela Ética Evangélica Brasileira), uma das frases que mais ouvimos em nossos trabalhos de conscientização é a referência ao texto de Mateus 12:25: “Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá”, onde alguns pensam que nossas críticas são formas de dividir o chamado “reino de Deus”. Porém, é preciso dizer que o texto referido tem por base mais uma das expressões onde Jesus tenta descrever a essência do movimento religioso de seus dias, nos quais fariseus, escribas, saduceus etc. tentavam viver uma vida aparente, longe das essências da Lei.

Quando alguém diz que minhas críticas dividem o Reino, logo me vem à mente: será que essa pessoa acredita que um dia veremos Edir Macedo, Valdemiro Santiago trabalhando em prol dos mesmos objetivos? Será que essa pessoa acredita que calvinistas, arminianos, pentecostais e neopentecostais vivem a mesma essência de fé?

Lamentavelmente, muitos são os cristãos que não têm consciência das realidades da igreja brasileira. Quando digo realidades, estou dizendo dos bastidores, das reuniões ministeriais, dos acertos de contas envolvendo ministros, membros, diretorias, líderes, professores. O que temos visto é que, para muitos, a igreja se resume aos curtos períodos de permanência na igreja, de tal forma que, para muitos, o ser cristão se resume a uma espiritualidade de cinquenta a noventa minutos semanais.

Porém, isso não é verdade.

A palavra espiritualidade deixou de ser vivida e entendida entre muitos que se dizem evangélicos. Não estou me referindo aos leigos, porque esses vivem daquilo que recebem dos seus líderes. Estou falando de lideranças que não sabem mais definir para si mesmos e para quem os ouve o que é uma verdadeira espiritualidade. Estamos vivendo dias onde igrejas metodistas, luteranas, batistas, presbiterianas, igrejas fundamentadas em uma teologia com bases históricas, fundamentas nas essências do cristianismo, também se deixaram levar pelos modismos e pelas metodologias vigentes.

O camarada se diz presbiteriano, metodista, porém suas reuniões são fundamentadas na Teologia da Prosperidade! Diz crer na infalibilidade da Bíblia, porém também crê em misticismos, práticas neurolinguísticas e muitos até em hipnose “cúltica”!

É assustador, mas é essa a realidade.

igrea2Por que de tudo isso?

Algumas igrejas criaram para si teologias fundamentadas em uma filosofia institucional, filosofia essa que faz líderes e membros acreditarem que sua instituição tem uma missão acima das demais, fazendo com que a vida diária dessas instituições se fundamentem em um crescimento que mais se assemelha à concorrência comercial e industrial de algumas marcas e patentes.

Eu já vivi uma experiência onde, ao criar um projeto de evangelismo que unia membros de várias denominações, após alguns meses, quando começamos a ver frutos do trabalho, alguns líderes retiram seus membros. Algum tempo depois, descobri que esses mesmos líderes haviam mudado o nome do projeto, porém na sua funcionalidade, o projeto era o mesmo que eu havia iniciado, isso porque os líderes não conseguiam exercer o evangelismo sem o pensamento institucional. Tenho conhecimento de um pastor que carrega esse projeto como algo seu, nunca se referindo que o irmão A ou B iniciou aquele trabalho.

Lamentavelmente, a filosofia institucional não permite que muitas igrejas consigam ver o mundo como algo global, mas simplesmente como algo individualista e pessoal. Com isso, a igreja cotidiana vive uma teologia fundamentada na filosofia institucional, onde lideranças e membros só agem nos seus próprios interesses, fazendo com que Deus e Seu Reino e Sua Palavra sejam simplesmente fórmulas e métodos. Nesse sentido, tudo o que a cerca são meios de interesses. E quais são as consequências disso? A falência da missio dei  da igreja. Muitas igrejas não enviam mais missionários, enviam gerentes das novas filiais para o mercado religioso.

O papel do sacerdote não é entreter, nem multiplicar, nem arrecadar.

O versículo base deste artigo traz, nas palavras de Ezequiel, os fundamentos da vida sacerdotal. Estamos observando a nova onda de “coaching“, onde líderes religiosos são treinados para produzir e bater metas institucionais, transformando pastores em gerentes eclesiásticos.

Muitas escolas já oferecem cursos de administração eclesiástica. Não vejo problema nisso, porém dentro do pensamento que rege o universo evangélico brasileiro, que acredita que o bom pastor é aquele que tem uma grande igreja, valores como caráter, ética, moral, santificação, transparência, transcendência se tornam valores de segundo plano dentro da carreira sacerdotal.

Hoje somos obrigados a ver telepastores se vangloriando de suas posses, se vangloriando por usar relógios caríssimos e roupas importadas. Alguns até se dispõem a apresentar os valores e as marcas de seus objetos, criando a imagem do super pastor.

O que diríamos disso, se refletíssemos a realidade de João Batista, dos Apóstolos e do próprio Jesus?

Certa vez, encontrei-me com um pastor que fez parte da minha mocidade. Ao conversarmos, entramos no assunto do ministério. A primeira pergunta dele para mim foi: “que carro você tem?” Ao citar a marca do meu automóvel, com voz de espanto ele disse: “isso não é carro de pastor!” E prossegui a conversa. E daqui a pouco veio outra pergunta: “quantas vezes você já foi para Israel?” E eu disse que nunca fui. E ele, mais assustado ainda, respondeu: “meu irmão, essa sua igreja não tem poder!” E eu lhe contei a história de um pastor que conheci no interior do Estado do Paraná, um pastor que era lavrador e cortava cana o dia todo, e mesmo assim, após o dia de trabalho, pregava em uma pequena igreja de madeira na periferia da cidade.

Passei vários dias com esse homem, e o que aprendi com ele me são referências até hoje. Aprendi que o homem de Deus não deve ser medido pelo seu tablet de marca importada, nem por suas gravatas italianas, nem pelo seu diploma da grande e referida universidade, mas sim pela sua capacidade de reconhecer a sua pequenez e pecaminosidade diante da Glória do Deus que ele prega.

Aos pastores que têm possibilidades de viver com posses, é preciso que tenham a consciência de que nada que possuem poderá comprar a Salvação, pois o que dará o homem em prol da sua alma?

O papel do sacerdote é demonstrar aos seus eclesianos os caminhos para uma vida onde Cristo é o cabeça. Por isso o texto de Ezequiel nos vai dizer que é dever, que é obrigação de todo o sacerdote ensinar, instruir todos aqueles que pararem para ouvi-lo qual a diferença entre o Sagrado e o Profano, qual a diferença entre o entretenimento e a espiritualidade, e esses ensinamentos não são só para sua denominação, mas esses ensinamentos são para o Reino. Só teremos uma igreja fundamentada pelo Sagrado se essas lideranças se multiplicarem.

O pastor, o líder que se submete à ordenanças de entreter, multiplicar e arrecadar precisa rever os seus conceitos, pois o Reino de Deus não é feito de funcionários. O Reino de Deus é feito de filhos e servos.

É triste ver igrejas sendo dirigidas como lojas de fast food e casas de entretenimento. A casa de Deus é casa de oração, é casa de arrependimento e transformação, onde as coisas velhas ficam para trás e as coisas novas ressurgem para todos aqueles que estão em Cristo.

Qual a verdadeira religião?

O livro de Tiago traz vários exemplos de como distinguir um movimento religioso e os discípulos de Cristo.

“A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.” – Tiago 1:27

Muitos vão dizer: “lá vem mais um defensor do assistencialismo!”

Edir Macedo diz que a pobreza e o sofrimento são frutos de uma vida sem Deus, onde o diabo toma conta. Para mudar isso, é preciso fazer sacrifícios, e sacrifícios esses financeiros e monetários.

Silas Malafaia, em um dos seus programas, desafiava aqueles que pagavam aluguel a ofertarem o valor do seu aluguel para que Deus lhes providenciasse uma casa própria.

Muitos e muitos e muitos são os pregadores que afirmam ser bíblico o ato de quanto mais dar, mais receber. Essa se tornou a lógica de muitas igrejas e seus pregadores.

Dia após dia, ano após ano, e isso tem sido pregado e enfatizado. E o que temos visto: líderes e instituições enriquecendo nababescamente.

O exemplo bíblico não descarta o trabalho, não descarta o esforço, não descarta a dedicação em busca do crescimento e da conquista, porém Jesus deixa-nos claro que não devemos juntar para nós tesouros nessa terra, pois onde estiver nosso tesouro ali estará nosso coração. E o texto bíblico tem por essência que todo aquele e aquela genuinamente discípulo de Cristo é capacitado com o Espírito da compaixão, da solidariedade e da misericórdia, e esses são atributos que nos capacitam a dividir. Se temos duas capas, compartilhamos uma com os mais necessitados.

Diante do tal crescimento evangélico, onde as denominações expandem suas catedrais por todo canto das metrópoles, o que pouco vemos são trabalhos palpáveis, substanciais de compaixão e solidariedade aos menos favorecidos.

Dentro do universo pentecostal e neopentecostal, os investimentos de ajuda humanitária são irrisórios, e quando o fazem são fantasiosos e midiáticos. Igrejas como Metodista do Brasil, fundamentas na Teologia Wesleyana e no seu Credo Social perdem a cada dia o ânimo e o enfoque nas práticas humanitárias. Até mesmo os metodistas estão focando o aqui e agora e o ter e poder.

Com isso, o que vemos nas grandes metrópoles: catedrais suntuosas, umas frente às outras, porém rodeadas de famintos, miseráveis, sofrendo com a degradação socioeconômica imposta por um sistema político que satisfaz aos ricos e poderosos.

O que dizer do vulgo Apóstolo, que tem em seu programa televisivo a ênfase em curas e milagres, onde todos que forem tocados por suas mãos receberão um grande milagre? Porém, ao sofrer uma queda e lesionar o joelho, vai de helicóptero para um grande hospital da cidade de São Paulo, onde é socorrido, operado por médicos renomados do hospital dos ricos e famosos.

Quanta incoerência!

Se ele realmente acredita em milagres, e se sua igreja é fundamentada em curas e milagres, nada mais lógico do que pedir aos seus bispos e pastores que impusessem suas mãos sobre ele e orassem. Essa seria a lógica. Mas não. É preciso esnobar, é preciso ostentar. Hoje podemos dizer que existe a “ostentação gospel”. Esse é o Espírito que rege muitas instituições e seus líderes, músicos e membros.

E, enquanto isso, os pobres que se convertam ao deus ostentação que muitos pregam.

A triste notícia de tudo isso é que o planeta Terra conta com 7,7 bilhões de habitantes, onde somente 2,2 bilhões se dizem cristãos, ou seja, 5,5 bilhões de habitantes da Terra não são cristãos. E muitos e muitos e muitos de todos esses vivem na mais profunda miséria.

As nações mais ricas, como os Estados Unidos, hoje já são interpretadas por muitos teólogos como nações pós cristãs, isso porque os valores cristãos sucumbiram diante da materialidade da pós modernidade, que engole dia após dia a espiritualidade e a consciência do Sagrado.

Só há uma saída: voltarmos ao Evangelho puro e simples de Jesus, e essa volta deve ser em consciência e em reflexo aos ensinos de Cristo nas Sagradas Escrituras.

Aí alguém pode dizer: “ah, mas eu sigo a Bíblia, eu cumpro toda a Bíblia, eu sou pós doutor em teologia”. E aí só me resta repetir o que Jesus disse ao doutor da lei em Lucas 10: ama o teu próximo como a ti mesmo e assim terá a vida eterna.

“Só seremos verdadeiros discípulos de Cristo quando vivermos as Suas verdades, enquanto quisermos que Cristo se enquadre nas nossas verdades nossa fé será vã,”

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

Paulo Siqueira

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