Marcha para políticos ou para Jesus?

Aborreço com veemência as vossas celebrações – a vossa hipocrisia, honrando-me com festas religiosas.
Não aceitarei os vossos holocaustos e sacrifícios de gratidão. Nem sequer olharei para os vossos sacrifícios de paz.
Calem antes os vossos hinos de louvor – não passam de mero barulho aos meus ouvidos. Não escutarei a vossa música, por muito bonita que possa ser.
O que eu quero ver é antes a justiça correndo como o poderoso caudal de um rio – como uma torrente abundante de boas obras. – Amós 5:21-24 Edição O Livro

Começamos neste mês em todo o Brasil o evento intitulado Marcha para Jesus, evento esse que é referido por seus fundadores como “o maior evento gospel do mundo”. Um evento que é uma marca registrada da Igreja Renascer em Cristo, e devido a isso, para que esse evento possa ocorrer em qualquer parte do território nacional é preciso que se pague para se utilizar a marca. Por essa razão, em muitos locais o evento ocorre com outros títulos, por exemplo Marcha da Família.

Em decorrência dos fatos ocorridos com os líderes da Igreja Renascer, muitas igrejas e suas lideranças deixaram de participar do evento, fazendo com que a Marcha se tornasse um evento de uma só bandeira, exigindo da liderança acordos e conchavos para a execução do mesmo.

Em São Paulo capital, esses conchavos fizeram com que o evento se tornasse, além de religioso, também um evento político. Isso é facilmente percebível diante das inúmeras reuniões, cafés, cultos com a participação de candidato A, B ou C. Sem contar que são nesses eventos que se apresentam candidatos, partidos, fazem-se orações, profecias em torno desses candidatos e partidos.

Isso foi amplamente visto, por exemplo, pela ampla defesa de Eduardo Cunha em pleno palco do evento no Rio de Janeiro.

E por que deste artigo?

Porque lamentavelmente, ano após ano, nós do MEEB (Movimento pela Ética Evangélica Brasileira) temos denunciado neste e em outros blogs as verdades por trás desse evento que ora tem um título religioso, porém sua essência ultrapassa os limites do Sagrado e do Profano.

Por que esse evento desperta tamanho interesse por parte dos políticos e seus partidos?

  1. Já faz anos que o Ministério Público proíbe o uso de showmícios promovidos por políticos e partidos (Lei 9.504/97).
  2. É proibido pedir votos em templos religiosos segundo o MP (Folha Web).

Diante disso, eventos como a Marcha para Jesus se tornaram um grande trunfo, já que por ser “religioso” pode atrair as grandes massas, podendo ser uma ferramenta de marketing comercial, político ou não.

Se um referido político se diz participante ou simpatizante de determinada instituição religiosa, quem poderá impedi-lo de participar ou “abençoar” ou “ser abençoado” no evento?

Com isso, políticos se tornaram figuras fáceis no alto dos trios-elétricos e nos palcos do evento.

Outro ponto que preciso destacar é que igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Mundial, Renascer, AD Vitória em Cristo e outras fazem, através de seus líderes, uma aberta campanha e projetos em prol da conquista do poder e dos espaços públicos. Para isso, defendem abertamente seus candidatos e seus partidos.

Por exemplo, a Universal encabeça um partido onde lança seus candidatos diretamente vinculados aos propósitos e objetivos da igreja; Silas Malafaia, no Rio de Janeiro, não esconde de ninguém seus candidatos e usa os espaços na mídia para divulgar e buscar votos para esses candidatos, de tal forma que nesse ano São Paulo e Rio se dividem no cenário religioso eleitoral.

Enquanto no Rio Malafaia usa seu universo religioso como cabo eleitoral de Bolsonaro (na intenção de conquistar a presidência da república), em São Paulo Edir Macedo se une a Estevam Hernandes no intuito de lançar seu candidato também à presidência da república – um candidato um tanto desconhecido do público, que necessitará do apoio de seus “padrinhos políticos” para ganhar projeção no cenário nacional.

Então, eventos como a Marcha para Jesus se tornam um grande trunfo nas mãos daqueles que buscam o poder.

Algumas igrejas e suas lideranças não escondem de ninguém que ter um vereador, um deputado, um prefeito, um governador ou um presidenciável como membro é algo de destaque para a promoção e crescimento da referida instituição, tanto que em ano eleitoral vemos uma verdadeira caça, de ambos os lados, em busca desses benefícios.

Muitos são os estudos que divulgam essa realidade a fundo. Um estudioso que já citei em outros artigos sobre essa realidade é o sociólogo inglês Paul Freston, que por muito tempo pesquisou a igreja coreana no intuito de traçar um paralelo entre a igreja coreana e a igreja brasileira. Isso em virtude da igreja coreana fascinar tanto as lideranças evangélicas brasileiras, principalmente as pentecostais.

Do_pulpito_as_midias_sociais-212x300Recomendo o estudo das conclusões de Freston sobre o tema. Já adianto que, por ver os resultados da igreja da Coreia do Sul, a igreja brasileira caminha para uma situação não muito boa.

As lideranças que se utilizam da Marcha para Jesus para negócios com o universo político não têm por alvo a democracia, muito menos o caráter evangelístico-missionário. As intenções são diretas. Por exemplo, Edir Macedo não esconde de ninguém que seu objetivo é tomar o poder. E, assim como os católicos, dirigir o país através de uma teocracia, tendo como base a teologia da Universal. Para isso, não medem esforços para utilizar a Marcha para Jesus.

Uma pena que muitos que participam desses eventos não param um segundo para pensar e refletir. O alto som dos trios-elétricos, o ritmo dos cantores gospel não deixam espaços para isso. Lamentavelmente, não há uma teologia, não há uma reflexão histórica e muito menos uma sociologia ou uma consciência da realidade que tudo cerca.

Hoje, quem tem o conhecimento se tranca em suas instituições e divide o conhecimento só com os seus. Muitos são os pastores que preferem levar os membros da sua igreja para um retiro longe de tudo, com o pensamento de que, não vendo, não serão contaminados. Grande engano!

A Igreja de Cristo é uma só.

Alguns analistas já dizem que o silêncio de Cunha é no propósito de defender a igreja, pois muitos são os líderes envolvidos com os escândalos da política brasileira.

Nós do MEEB estaremos no próximo dia 31 de maio novamente na referida Marcha para Jesus. Temos a consciência de que o evento não é para Jesus. Estaremos com nossas faixas, camisetas e folhetos no propósito de despertar alguns para as verdades do Evangelho. Sabemos que diante do volume das músicas, da grande apoteose do culto, somos meramente insignificantes. Porém, estaremos envoltos no versículo que abre esse artigo. Estaremos ali como uma pequena fonte que goteja justiça e retidão.

faixa5

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

Paulo Siqueira

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