O que esperar dos evangélicos no Brasil?

oração“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas (…).” – Apocalipse 2:10,11

Diante de tudo o que temos visto e ouvido no contexto evangélico brasileiro, atrevo-me mais uma vez a refletir a nossa realidade, numa perspectiva de futuro.

1o.) O universo evangélico vive de aparências

Segundo os principais teólogos da religião, entre eles Paul Freston, o crescimento evangélico é evidente. Porém, para muitas instituições o crescimento é simplesmente uma fonte de marketing; em outras, o crescimento é real; e em outras, é apenas um propósito.

Nessas que têm o crescimento como um propósito ou projeto se destacam as igrejas históricas, como o Metodismo que, em busca desse crescimento, submete suas lideranças e membros a partes remodeladas do pentecostalismo e do neopentecostalismo.

As igrejas que dizem que crescem pelo marketing são as que se utilizam dos movimentos de cura divina, prosperidade e libertação de demônios e opressões cotidianas.

E a terceira, que é a igreja que cresce verdadeiramente (pois as três citadas crescem de alguma forma), tem esse crescimento refletido por diversos estudiosos e não consiste num percentual relativo de novos convertidos.

O que vemos é um movimento cada dia mais frequente do sujeito religioso em trânsito, ou seja, o que chamam de crescimento nada mais é do que uma troca de frequência entre as instituições. E essa troca tem vários motivos: ministérios mais estruturados, ministérios mais midiáticos, ministérios com maior capacidade de promoção de eventos e atrações artísticas, ministérios com maior comodidade.

Ou seja: muitos motivos supérfluos, e acredito que alguns mudam em busca de algo que melhor lhes capacite ao serviço do Reino.

Diante disso, o grande marketing sobre o crescimento do movimento evangélico no Brasil não passa de uma grande maquiagem para encobrir as verdades que entranham o universo evangélico.

2o.) A falta de uma teologia brasileira faz da igreja refém de todo tipo de teologia

O que me assusta no presente é ver igrejas como a própria Metodista trocando sua teologia wesleyana por práticas neopentecostais. Isso também ocorre em igrejas calvinistas, luteranas, tudo tendo como justificativa o crescimento.

É preciso dizer que o Brasil ainda não tem uma teologia propriamente brasileira. As teologias que temos são importadas, e isso já é sabido por todos há muito tempo.

O que muitas instituições tentam explicar é que o que está sendo feito são adaptações no sentido de aproximar as teologias europeias e americanizadas à realidade brasileira. Porém, calvinismo continua calvinismo, metodismo continua metodismo, etc. O cotidiano revela bem ao contrário.

Em viagem ao Rio de Janeiro presenciei, em frente a uma igreja histórica, uma faixa anunciando uma campanha de cura e libertação.

Vemos, pelas redes sociais, flashes de cultos em igrejas históricas onde os pregadores desenvolvem uma homilética semelhante a dos pregadores pentecostais e neopentecostais. Sem contar a constante ênfase na arrecadação e no crescimento.

No meio pentecostal temos de pessoas sóbrias e dedicadas na prática de uma teologia bíblica a extravagâncias, arrogâncias, tudo em nome do crescimento.

A referência nesse sentido é o próprio Silas Malafaia e seu ministério Vitória em Cristo, que só não saiu das Assembleias de Deus porque o mesmo insiste no sonho de ser presidente da denominação. A prova disso é que, na sua existência, ele se faz distinto de todos os demais. Seu discurso teológico é totalmente pragmatizado pela cultura americana, em prol dos seus objetivos de ter uma igreja brasileira aos moldes da igreja pentecostal americana. E ele faz muitos discípulos nesse mesmo propósito.

O neopentecostalismo já é uma coisa desenfreada, desequilibrada ladeira abaixo. Vemos de tudo: desde heresias, mágicas, espetáculo, e eu tenho a esperança de que exista nesse meio alguns inconformados com essa realidade.

A questão é que a falta de uma teologia genuinamente brasileira traz grandes prejuízos para nossa cultura religiosa.

3o.) A igreja quer o poder, porém resiste a uma visão social

Alguém pode me dizer: mas e o pessoal da Missão Integral? E o Pastor Ariovaldo e sua turma?

Eu respondo: estão aí tomando pedradas de todos os lados e são dia após dia endemonizados por muitos.

Para que eu não entre nessa guerrinha, digo que meu pensamento social não é ideológico nem partidário. Quando falo de social estou falando de uma visão dentro do padrão bíblico e dentro de uma visão que contempla a história do cristianismo. Que parte da Igreja Primitiva no ato de dividir tudo para que todos tivessem tudo em comum.

A visão social da igreja busca a paz, a justiça, a igualdade, tudo no sentido de testemunhar Cristo na busca e na esperança de que um mundo melhor é possível. E essa é uma visão de Reino. E para isso se faz necessários projetos de educação, de capacitação profissional, de fornecimento de ferramentas para enfrentar as dificuldades do cotidiano (como orientação sobre doenças sexualmente transmissíveis, uso indevido de drogas), sem contar que a igreja precisa ser um braço de apoio à população que a rodeia em momentos de dificuldades, catástrofes, sendo uma fonte a ser utilizada até mesmo pelo Estado na promoção da vida para os cidadãos.

O que vemos são muitas igrejas com seus templos enormes, rodeados por pobreza, por fome, doenças, violência, e essas igrejas simplesmente ignoram o que está à sua volta. E, quando indagadas, respondem que o problema vem do fato das pessoas ao redor ainda não terem se convertido.

O que dizer dos já convertidos que ainda são pobres, que ainda não têm moradia, dos que ainda necessitam de programas sociais do Estado?

Já sei! Muitos vão responder: minha igreja distribui cestas básicas.

E eu pergunto: uma cesta básica resolve o problema social de uma vida toda? Com certeza que não.

O que estou tentando dizer é que a igreja precisa elaborar projetos com começo, meio e fim, no intuito de promover uma vida melhor para os que necessitam.

4o.) Uma igreja fracionada tentando existir cada um por si, cega na sua capacidade de enxergar o outro

Essa é a mais triste face da igreja brasileira. Ela é incapaz de enxergar a pluralidade do Evangelho.

O que dizer das ações da IURD e da Mundial, que vivem uma verdadeira guerra pelos fiéis? Onde temos a existência de patéticos vídeos onde os demônios dizem vir e frequentar uma e outra?

E essas divisões são muito profundas. Muitos a levam para o campo teológico.

O que dizer dos programas de debates onde arminianos e calvinistas se digladiam com seus academicismos em prol de ganhar a razão?

Enquanto isso, os fiéis são disputados como uma marca comercial. Ou seja, não temos um Corpo. Temos ideias e discursos que se aproximam. Quando vemos uma ou mais igrejas unidas, tudo vem por um interesse, por exemplo a busca por poder político.

Os evangélicos descobriram que na hora do voto uma união pode fazer a diferença, mas na essência não há união, mas sim o famoso cada um por si e Deus por todos.

Suas lideranças são incapazes de perceber que temos uma igreja refém do seu próprio pragmatismo, o que a impossibilita de cumprir a sua verdadeira missão. Assim, a essência é trocada pelo supérfluo, fazendo da igreja uma instituição meramente comercial e empresarial, onde a espiritualidade é entendida e transformada numa fonte semelhante a uma empresa comum.

O que vemos hoje no meio evangélico é o mais do mesmo, e tudo dentro de uma visão puramente empresarial.

Muitos pastores sonham em ver suas igrejas funcionando como uma empresa e conquistando espaços e adeptos como uma líder do seu mercado. Para isso, é comum ver que muitos estão dispostos a morrer por suas “marcas”.

Conheço muitos pastores que relatam ter consciência dessas realidades, porém não sabem e não conseguem reagir e nem sair dessa situação. Muitos pastores hoje estão sendo obrigados por suas lideranças a fazer cursos de coaching porque nos Estados Unidos isso se tornou moda no meio pastoral.

Muitos não percebem, mas a igreja caiu numa mesmice de programas e atividades onde os discursos que exaltam o ego e faz dos cultos uma mera atividade para suprir os desejos dos “clientes religiosos”, fazendo da igreja “comunidades de interesses”.

5o.) O que esperar

É possível uma saída? O que fazer com as frustrações? Como resistir a institucionalização da fé?

Acredito que essas respostas só são possíveis através da sociologia da religião, e para isso recomendo a leitura dos estudos de Paul Freston nos anos que estudou a igreja da Coreia do Sul.

Freston teve a oportunidade de acompanhar a igreja coreana desde seu crescimento até a chegada no ápice do poder político. Também reflete a queda dos coreanos através da igreja que dominava o poder.

Muitos não sabem, mas a igreja coreana chegou à presidência da República, a dominar o Senado e o Congresso porém, em decorrência de anos, teve suas principais lideranças envolvidas em grandes escândalos de corrupção, ao ponto de que a igreja que mais cresce hoje na Coreia é a Católica.

E a igreja da Coreia muito influenciou a igreja brasileira, principalmente o pentecostalismo.

A questão é que muitos não param para refletir o que aconteceu com a igreja coreana.

No Brasil, o crescimento evangélico teve muito a ver com o êxodo dos fiéis católicos, e esse êxodo ocorre quando os fiéis percebem que a igreja católica estava passando e vivendo os mesmos problemas em que hoje as lideranças evangélicas estão se entranhando. Dentre esses problemas, os citados acima.

Hoje muitas práticas católicas do passado são práticas do presente das lideranças evangélicas. Hoje o crescimento evangélico tem como alvo, pelas suas lideranças, premiar o mais efetivo, o mais lucrativo, o mais popular como o Papa ou como aquele que fala em nome de todos os evangélicos.

Não é difícil ver Silas Malafaia, Valdemiro, Macedo, Ernandes e outros se tentando fazer porta-vozes de uma dita nação evangélica. E, para isso, não poupam recursos. Esse exibicionismo vai da aliança com políticos e partidos a construção de templos, como o Templo de Salomão, a compra de concessões de tv e rádio, a desfiles de helicópteros, carros, comitivas de seguranças, a roupas e relógios importados, tudo no único propósito de ser aquele que comanda a massa evangélica.

Porém, muitos não aprenderam nada com o êxodo católico. Os fiéis católicos, quando perceberam a decadência de sua igreja, viram nos evangélicos a esperança de algo novo e santo para a continuidade de uma vida de fé. Mas os evangélicos, ao perceberem a decadência das suas instituições, estão partindo para três caminhos:

a) Muitos estão se tornando desigrejados, ou seja, aqueles que não querem a igreja, aqueles que se negam a seguir lideranças gananciosas, que buscam os seus próprios interesses. Uma característica central desses desigrejados é que eles foram fiéis ao extremo, cumpriram todas as orientações, todos os sacrifícios, tudo o que lhes fora ordenado. E o que conseguiram foram frustrações, feridas profundas e marcas para uma vida toda. E muitos chegaram a essa conclusão descobrindo as verdades encobertas por muitos ministérios.

b) O exército dos deixados para trás, que são os que não conseguiram caminhar e cumprir as regras das instituições. Entre eles estão muitos pastores, líderes de louvor, presidentes de grupos, tesoureiros, músicos, líderes de grupos de oração, pessoas que, apesar dos seus esforços, muitas vezes foram trocados por pessoas melhores e com maior capacidade de cumprir os objetivos da instituição. Muitos são pastores que envelheceram e hoje não se encaixam mais na moldura da instituição. Entre esses, estão aqueles que foram derrotados pelas adversidades da vida, seja por uma doença familiar ou pela perda do emprego, ou pela perda do status que tinha. Alguns ministérios não possuem tempo para lidar com pessoas problemáticas, com feridas profundas ou com qualquer tipo de problema que traga mais gastos do que lucros, pois em algumas instituições até um milagre pode dar lucro.

c) Apostasia. Muitos evangélicos estão apostatando da fé. Alguns partem para outras religiões, principalmente as asiáticas e as de matriz africana e espiritismo. Porém, um grande número está se tornando ateus.

Muitos são os que ficam se alternando entre essas três lacunas apresentadas. Alguns até se aventuram a frequentar um culto ou outro, porém descobrem que ou a realidade está igual, ou muitas vezes está bem pior.

Tenho tido contato com essas pessoas nos últimos anos, principalmente pelas redes sociais. Lamentavelmente, esse quadro para muitos resulta em um aprisionamento dentro de uma depressão profunda, de um universo à base de medicações controladas, de pessoas que têm aversão à religião e a religiosos e muitos são os que estão se entregando ao suicídio.

O que esperar de uma entidade que se diz espiritual, porém espetaculariza e comercializa suas ações? O que esperar de uma entidade que não sabe se relacionar com as verdades do Evangelho e que, ao invés de ser reconhecida como uma fonte de verdade, é estigmatizada como uma entidade que produz engano e dores?

Muitas igrejas, hoje, podem ser definidas como a fábula do médico e do monstro: ora se apresenta como uma fonte de cura, libertação e vida, ora ela se transforma em algo que esmaga, sufoca, tira a liberdade e exerce uma coerção para nos tirar tudo.

Muitas igrejas são um misto de verdades e mentiras, ilusões, fábulas, e eu chamo tudo isso dos paradoxos da religiosidade. E entre eles eu destaco a fé institucional versus a fé comercial versus a fé necessária.

O paradoxo entre o academicismo versus a falta de conhecimento, ou o místico, o mágico, o espetaculoso versus a espiritualidade bíblica.

Poderia descrever muitos outros.

Chego ao final deste artigo como aquele que tem a esperança de que a igreja brasileira pode ser aquilo que a Bíblia diz que ela é. Tenho acreditado nisso e tenho vivido isso a cada dia, através da luta dentro do Movimento pela Ética Evangélica Brasileira, dentro dos artigos que escrevo neste blog, nas ações do dia a dia, nas ministrações por onde tenho passado, porém a luta maior se trava nos encontros diários com aqueles e aquelas que, ao me encontrar, relatam um pouco de tudo o que descrevi aqui.

É nesses encontros diários que nasce em mim a esperança de que uma igreja melhor é possível. E para isso cabe a denúncia no intuito de despertar reflexões, consciências no sentido puramente cristão e bíblico.

Não tenho propósito de outras coisas, a não ser de acreditar que, como Jesus disse aos fariseus em João 8:36: “se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”.

A DEUS toda a honra e toda a glória.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

Paulo Siqueira

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2 respostas para O que esperar dos evangélicos no Brasil?

  1. Filomena Gonçalves disse:

    Excelente artigo,muitas razões descritas aqui me fizeram desistir de frequentar a igreja,no meio das assembleias de DEUS,virou uma universal,só pedir,pedir,campanha disto,campanha daquilo…E o verdadeiro evangelho nem sai do papel,só pequenos versículos para o que convém no momento.Mas noto que a minha fé esmoreceu imenso,sinto a falta do ESPÍRITO SANTO,mal oro,sinto falta do 1°amor,da Santa Ceia,mas não quero compactuar com o engano e com aquilo que nos metem pela guela adentro…Presentemente quando entro numa igreja,saio vazia,conforme entrei,e isso não é só no brasil…não…sou portuguesa evangélica…e aqui é precisamente igual.Um bem haja para si…Que DEUS nosso protetor nos livre dos lobos em pele de cordeiro e o abençoe pelo excelente trabalho…ass. Filomena

    • pedrasclamam disse:

      Obrigado por seu comentário. Estamos vivendo dias descritos pelos autores bíblicos. apesar de tudo minha irmã precisamos estar firmes, pois: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões, os vossos anciãos terão sonhos; Atos 2.17
      Fique na paz.

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