Por que os evangélicos brasileiros têm dificuldades em apresentar um caráter transformado?

carc3a1ter.jpgPor que as igrejas evangélicas brasileiras têm dificuldades de se apresentar à sociedade através dos exemplos frutos da transformação do caráter dos seus fiéis?

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” – 2 Coríntios 5:17

Essa é uma reflexão bastante difícil. Muitos que acompanham este blog talvez possam pensar: “só há críticas ao sistema evangélico brasileiro?”

A questão é que este blog é uma ferramenta de conscientização cristã, e para isso objetivamos refletir a realidade cotidiana. Lamentavelmente, o que temos observado na nossa vivência ministerial em meio à igreja é que muito do que é pregado nos púlpitos não é vivenciado nem praticado por muitos que se dizem “evangélicos” no Brasil.

Está difícil ver no cotidiano exemplos de uma verdadeira transformação que parte do caráter para a consciência genuinamente cristã, à luz dos Evangelhos. O que temos visto são pessoas superficiais, levadas por modismos, metodologias, que produzem conversões emotivas, sensacionalistas, frutos de um evangelho místico, mágico, centrado muito mais no propósito de satisfazer os anseios humanos do que ser um referencial de espiritualidade para seus fiéis.

Os evangélicos brasileiros perderam sua identidade, ou melhor, será que um dia a tiveram? (https://pedrasclamam.wordpress.com/2012/04/18/a-igreja-barasileira-precisa-recuperar-sua-identidade/)

Segundo a Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha em seu livro Do Púlpito às Mídias Sociais:

“A imagem dos ‘evangélicos’ no país foi construída com base na identidade de dois grupos de cristãos não católicos e ortodoxos: os protestantes de diferentes confissões, que chegaram ao Brasil  por meio de missões dos Estados Unidos, a partir da segunda metade do século XXI, e os pentecostais, que aportaram na primeira década do século X. Os grupos protestantes que alcançaram o Brasil por meio de imigração, luteranos e anglicanos, construíram uma identidade própria com aberturas significativas à contextualização/inculturação. (…)

Independente das peculiaridades dos distintos grupos que formam o segmento, os evangélicos brasileiros são identificados nos estudos de religião por: 1) uma predominante leitura fundamentalista (literalista, a partir das ideias dos fundamentos da fé) do texto sagrado cristão, a Bíblia; 2) ênfase na piedade pessoal, na busca da salvação da alma (influência do puritanismo e do pietismo dos pioneiros missionários que vieram do Sul dos Estados Unidos no século XIX ao Brasil; 3) frequentes posturas de rejeição das manifestações culturais não cristãs no país (fruto da mesma ação de missionários); 4) um isolamento das demandas sociais (resultante da espiritualização das questões da existência individual e social), entre elas a participação política. Tudo isso gera uma imagem construída em torno do nome evangélico, centrada nas práticas e ideias do protestantismo missionário do Sul dos Estados Unidos e do pentecostalismo embranquecido, mostrando ao Brasil um segmento cristão predominantemente conservador teologicamente, marcado pela conjunção milenarista e fundamentalista e puritana – arminiana – pietista. Desprovido de tradição litúrgica, com prática centrada na palavra e pouca ou nenhuma ênfase na comunicação visual e/ou simbólica; rígido em relação aos prazeres do corpo e à moralidade cotidiana, por meio de um rompimento com expressões culturais brasileiras, anticatólico e denominacionalista. Sendo assim, a terminologia evangélico é resultado desta forma de identidade.”

Vários são os autores que tentam definir ou interpretar qual a verdadeira identidade dos evangélicos. Dentro da proposta deste artigo, essa perda ou falta de identidade é um dos principais motivos da igreja evangélica brasileira ter dificuldades em formar um verdadeiro caráter cristão em seus fiéis, pois se partirmos do princípio que a igreja não sabe o que é, fica difícil a caminhada.

Falo isso em reflexão do que temos visto. Se imaginarmos que uma igreja como a Metodista do Brasil está enfrentando um processo de neopentecostalização, o que dizer?

Nessa reflexão vamos analisar diversos pontos:

  1. As conversões não ocorrem influenciadas pelas essências do Evangelho, mas sim moldadas dentro dos interesses, programas das instituições, lideranças ou “donos” das igrejas. As igrejas se tornaram “casas de interesses” tanto das instituições, dos líderes e dos fiéis. Em muitos segmentos, o foco é satisfazer esses interesses. Para isso, o Evangelho não é o centro das ações. Tudo gira em torno de metodologias, ideias, reprodução de estratégias, tudo objetivando o crescimento financeiro, de membresia. Isso faz surgir uma igreja muito mais administrativa, burocrática, onde a espiritualidade é simplesmente um termo empregado para justificar que aquele local tem o nome de “igreja”. As conversões também seguem esse rito, ou seja, não se produzem novas criaturas, mas sim cópias. Quem ainda não viu cópias de Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Agenor Duque e outros? O sujeito não tem o direito de escolher a roupa, o corte de cabelo, o vocabulário. Tudo tem que seguir a padronização da instituição e do líder. Até os trejeitos, cacoetes devem ser copiados das lideranças. Se alguém não seguir essa padronização, está fora. O cabeça, ali, não é Cristo, mas sim o “dono” ou líder da igreja. Com isso, não temos conversões ao Evangelho, mas sim um espírito de convencimento onde o objetivo é se tornar uma cópia do líder. É triste, mas essa é a realidade, e olha que estou tentando descrever essa realidade sem me aprofundar nas bizarrices existentes.
  2. Foco em “teologias” e não em uma prática e vivência cristocêntrica.Vemos muitas igrejas mais preocupadas em divulgar suas teologias institucionais do que o próprio Evangelho. O Evangelho só aparece porque ele é a forma de publicar ou justificar as ideias. Há muitos teólogos e líderes que se tornaram verdadeiros especialistas nos fundadores das suas instituições, dando-se a impressão de que sabem mais da biografia dos criadores de sua denominação do que do próprio Cristo. Chego a pensar muitas vezes que nesses espaços o fundador da instituição é o motivo da fé. Isso tem se refletido na formação de muitos pastores, pois a maioria das instituições de ensino teológico são regidas por ideologias, onde não se aprende uma teologia plural, mas sim uma determinada teologia, ignorando as demais. Isso é refletido na falta de uma verdadeira teologia fundamentada na cultura brasileira. As teologias que temos não são frutos de um pensamento teológico brasileiro. Tudo o que temos e vemos vem de fora. Parece que só há sentido em um pensamento teológico se ele for importado. Muitos teólogos brasileiros que ousam quebrar esse círculo não conseguem encontrar apoio e estão isolados com seus pensamentos. Só há continuidade em um pensamento teológico se ele for amparado pelas antigas cátedras acadêmicas. Fora disso, parece não haver teologia. O resultado disso é que somos obrigados a suportar um cidadão como Agenor Duque se autointitulando teólogo. E somos cotidianamente bombardeados por inúmeras heresias travestidas de teologias. Já é sabido que no Brasil a grande maioria dos pastores não tem uma formação teológica consistente, e isso é fruto de vários dos pontos citados acima. Lamentavelmente, em muitas instituições de ensino não se ensina teologia, ensina-se a manutenção, o crescimento e a subsistência da instituição. Por conta disso, muitas são as instituições religiosas no Brasil onde os pastores e líderes têm seus vencimentos calculados de acordo com as metas e objetivos alcançados.
  3. Para muitos evangélicos, a instituição está acima do próprio Evangelho. Pastores estão sendo transformados em funcionários das instituições. São cobrados e os resultados determinam os passos do seu ministério. Os pastores não são avaliados pela consagração, pelo conhecimento, mas sim pelos resultados. Com isso temos igrejas fracas, e muitas que nem sequer podem ser consideradas igrejas. Isso reflete o porquê de tantos pastores que desistem do ministério em tão pouco tempo. Os que permanecem aos poucos vão esfriando na fé, vão abandonando as práticas cristãs e aos poucos se tornam verdadeiros atores, que encenam um personagem: o pastor. O reflexo disso são pastores doentes, igrejas doentes, fiéis doentes. E essas doenças são graves. Os noticiários estão refletindo isso.
  4. Igrejas que não evangelizam. Hoje é comum se acreditar mais em metodologias de marketing e comunicação do que numa evangelização que espelhe os Evangelhos. Evangelização, hoje, para muitas instituições é o marketing pessoal do seu líder. São suas ideias sendo expostas. A exemplo da Universal, onde os versículos bíblicos são fracionados, isolados e em muitos casos nem sequer citados. O pastor ou apresentador usa pseudônimos para se referir a Deus, a Jesus. Tudo se torna um grande espetáculo. O objetivo ali não é levar a pessoa que assiste ou ouve à consciência de que é um pecador e de que Cristo foi enviado por Deus para lhe salvar, e que essa salvação é mediante a Graça (e de graça). Para isso, é preciso que todos os seres humanos se arrependam, convertam seus caminhos e cheguem à reconciliação com o Criador. Temos visto uma grande confusão, onde alguns acreditam que pelo simples fato de se emocionar, chorar ouvindo uma música com fundo emocional é reflexo de uma conversão. Em alguns locais, chamam de discipulado reuniões de adestramento e doutrinação (para não chamar de lavagem cerebral). Sem falar que transformaram o termo missão em reuniões para arrecadação de fundos, transformando a missão da igreja em algo sem fundamento. Muitas das igrejas que fazem algum tipo de evangelização não conseguem fazer sem a ideia centrada de propagar o Reino de Deus, mas sim com o objetivo de abrir mais uma filial da sua instituição. Sem contar que as chamadas missões estão se transformando em verdadeiras empresas de turismo religioso. Temos irmãos e irmãs que em nome da evangelização ou de missões têm visitado diversos países sem apresentar um trabalho consistente em prol do Reino. E mesmo com todas essas viagens, muitos são os que não apresentam transformação de vida e frutos de uma conversão. Muitos projetos de evangelização só têm sentido se trouxer alguma vantagem ou algum lucro à instituição. Essa é a razão pela qual a evangelização de marginalizados é praticamente ignorada por muitas denominações. Temos visto igrejas cercadas por comunidades carentes, e essas instituições nem sequer um programa social possuem. A falta de evangelização tem gerado um crescimento desordenado, fazendo da igreja pequenas porções e não um todo. Os fiéis são vistos como parte do capital das instituições, e não como vidas a serem reparadas, transformadas.

Muitos são os pastores que enxergam e sabem de todos esses pontos aqui citados, porém não conseguem se desmamar do sistema. Muitos se acovardam e vivem e fazem o jogo. Com isso, muitos frequentam a igreja, porém poucos passam por uma verdadeira transformação. E muitos são os que têm uma conversão incompleta, pois foram convencidos de que para seguir a Cristo basta levantar a mão e ir à frente. Recebem uma oração, aprendem a dizimar e ofertar e buscar a vitória. Muitos são os que nada sabem da Graça transformadora do Espírito Santo Consolador.

Estas são algumas razões pelas quais muitos não conseguem completar sua caminhada de fé. Lamentavelmente, o número de fiéis que sai das instituições é maior do que os que entram. As instituições não estão se atentando para o número crescente de “deixados para trás”, os chamados desigrejados, os machucados, os feridos.

Sem contar que muitas são as denominações que não se importam com o fato de, apesar de termos um grande percentual de evangélicos no país, isso não resulte em uma transformação de caráter do brasileiro. Ainda somos reconhecidos como o povo do “jeitinho”, da sensualidade.

Na minha opinião, o grande problema da igreja brasileira é o fato de que muitos crentes não são levados ao arrependimento, à redenção e à santificação através da consciência bíblica. É triste dizer, mas muitos são os que, apesar de frequentar, dizimar, ofertar, ainda assim não se converteram.

precisamosdeumaigreja

O caminho é longo e árduo. Nós precisamos voltar ao Evangelho de Cristo. A igreja precisa deixar de dar lucro e começar a ter, se possível, prejuízos, porém ela precisa ser um instrumento unicamente de Deus para o mundo.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

Esse post foi publicado em Igreja e igreja, nova reforma, novos evangelicos. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Por que os evangélicos brasileiros têm dificuldades em apresentar um caráter transformado?

  1. ANTONIO CARLOS RAMOZZI disse:

    Como em toda crítica, não devemos generalizar!!

    • pedrasclamam disse:

      Me apresente 5 instituições que esteja vivendo fora de pelo menos um dos pontos citados. Ou melhor me site uma instituição religiosa e já estarei feliz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s