Relativizando o Evangelho: os fins justificam os meios?

O-que-é-EvangelhoPor isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos;
Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade. – 2 Coríntios 4:1,2

Muitos não entendemos como, 500 anos depois de Lutero, a situação de boa parte das igrejas ditas cristãs encontra-se igual ou até pior do que a igreja da Idade Média. Mais difícil ainda é entender como, mesmo nos tempos da Igreja Primitiva, enganos eram sutilmente propagados entre os santos, a ponto dos apóstolos (de verdade) terem que lutar pela pureza da fé.

E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. – Colossenses 2:4

Como corações aparentemente sinceros podem se deixar levar por ensinos enganosos? Como esses ensinos penetram nas igrejas e se tornam parte delas?

E Jesus, respondendo-lhes, começou a dizer: Olhai que ninguém vos engane;
Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. – Marcos 13:5,6

Penso que a resposta talvez esteja na relativização da fé, na falsa crença de que os fins justificam os meios. No caso, o fim seria a rápida e mais abrangente divulgação do Evangelho e, consequentemente, do número de salvos. Os meios, quaisquer que aparentemente levem a esse resultado.

Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo. – 2 Coríntios 11:3

Na relativização da pregação do Evangelho, o mal nem sempre é mal. Ora, Raabe não usou de uma mentira para salvar os anjos? O Apóstolo (de verdade) Paulo não disse que se fazia de tudo para alcançar a todos? Para que o nome de Jesus seja conhecido, vale absolutamente tudo!

Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios. – 1 Timóteo 4:1

A pregação do Evangelho não precisa de vale tudo. A pregação do Evangelho não precisa sequer de mim ou de você. Ser um instrumento de Deus é uma grande honra, pois é algo que independe de nós. Deus não precisa de nossos planos mirabolantes de crescimento de igrejas, nem de milhões gastos em rádio e programas de tevê, nem de campanhas financeiras para arrecadar recursos para propaganda evangelística. Deus é. Deus faz. E Deus é quem provê e usa a quem quer, quando quer. Se até uma mula Ele usou certa vez para exortar um (falso) profeta, se Ele quiser até a nós, com todas as nossas imperfeições e dificuldades, também podemos ser usados. E se Ele não quiser, nem com todo o dinheiro do mundo, nem como emissoras de rádio e televisão nossa pregação prosperará (pois seremos nós com a falsa força do nosso braço, não Deus com o Seu Espírito e Poder).

E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.
Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples. – Romanos 16:17,18

Uma vez que usamos nossa falsa força, de forma até inconsciente tendemos a nos apossar do objeto de conquista. E, uma vez com a posse, podemos usufruir da forma que acharmos melhor. E assim é também com a pregação do Evangelho.

Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. – Efésios 4:14

O fim é louvável: a expansão da pregação do Evangelho. Mas a falta de conhecimento bíblico nos faz acreditar que apenas com nosso trabalho árduo tal objetivo será alcançado. E começam esforços mentais em busca das melhores estratégias para se alcançar a meta: cargos de liderança para fidelizar membros-chave, campanhas com promessas de grandes bênçãos em troca de grandes ofertas, cobrança de grandes cachês para sustentar a mais tecnológica parafernália de som (para atrair os jovens), pouca ou nenhuma ênfase no arrependimento dos pecados e outros temas que possam afastar os dizimistas, grande destaque para rituais judaizantes e místicos (inclusive simulando milagres e expulsões demoníacas) para manter a plateia atenta e fiel, incentivo dito divino para o sucesso pessoal do membro (desejo de dez entre dez brasileiros) por ser filho de Deus. E a lista de estratégias ditas evangelísticas vai longe…

Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.
Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. – Judas 1:10,11

Uma vez relativizada a pregação do Evangelho, também torna-se relativa a conversão do fiel e dos líderes. Sem a luz da Palavra de Verdade, as trevas do pecado têm terreno fértil. As duas horas de culto semanal tornam-se suficientes para justificar nossos pecados e fraquezas. Contanto que um dia tenha dito aceitar a Jesus e dizime e oferte com regularidade, o fiel pode ocultamente manter seus vícios, satisfazer seus desejos, retaliar seus inimigos, fazer negócios com as coisas de Deus.

Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição. – 2 Pedro 3:16

Como um abismo chama outro abismo, a cada dia torna-se mais difícil manter a máscara de santidade em meio a uma mente e a um coração não transformados pelo Evangelho (pois o que vemos em muitas igrejas é relativizado, humanizado, deturpado e não tem o poder divino de transformar a ninguém). Pela misericórdia de Deus, algumas dessas máscaras caem, e com elas seus portadores. O universo gospel torna-se então implacável contra o desmascarado, apontando-lhe com toda a força a malignidade do seu pecado, tratando-o como um ser desprezível, excluindo-lhe dos seus ambientes santos. Digo pela misericórdia divina, pois essa é uma chance real que Deus dá a essas pessoas para que encarem suas fraquezas, para que se arrependam daquilo que faziam escondido entre um culto e outro, e assim para que, humilhados, se rendam verdadeiramente ao Pai, tendo um real contato com o verdadeiro Evangelho. Mas nem todos se arrependem, voltando assim que possível ao vômito que fora exposto, mas Naquele Dia não poderão dizer que não tiveram sua chance. Infelizmente, até a Graça tem sido relativizada, sendo para muitos a desculpa perfeita para se manter em seus maus caminhos.

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.
Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.
Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Não erreis, meus amados irmãos. – Tiago 1:13-16

Para muitos, o Evangelho não é missão: tornou-se profissão. Desde pastores que, por ganhar salário de suas denominações, não podem falar nada além do que a instituição religiosa permite (cerceando muitas vezes a mensagem), até os escandalosos casos de líderes e artistas que enriquecem às custas da boa fé do povo. Como esses conseguirão pregar aquilo que a multidão realmente precisa ouvir, se necessitam fidelizá-la para que continuem lhe dando o sustento ou até mesmo bancando suas excentricidades financeiras? É muito triste ver pastores que, mesmo não concordando com suas lideranças, precisam se calar com medo de perder a provisão de suas famílias. E mais triste ainda é ver líderes que formam verdadeiros impérios religiosos (às custas dos fiéis) e que propositadamente aprisionam os pastores das suas filiais com bons salários. O que aparentemente é uma coisa boa, na verdade se torna bastante ruim, pois faz os liderados dependerem exclusivamente do salário da igreja, deixando de buscar provisão por seus outros talentos, tornando-se verdadeiros reféns da denominação em que servem. E essa, querendo servir aos fiéis um Evangelho relativizado, usará dos pastores-reféns. Um círculo vicioso e maquiavélico.

Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. – Colossenses 2:8

Jesus disse que não é possível servir a dois senhores, e os especificou como a Deus e ao dinheiro. Isso porque o dinheiro é essencial no mundo em que vivemos, seja para adquirir alimentos, roupas, moradia, educação, saúde e toda e qualquer futilidade para alegrar, mesmo que momentaneamente, a alma humana. O desejo de ter dinheiro é tão grande que muitas vezes sobrepuja o desejo de servir a Deus. Mas os mais espertos conseguiram relativizar tanto o Evangelho que pensam ter desmentido a Cristo, sendo possível servir aos dois senhores. Assim, inventaram o comércio gospel, a venda de produtos gospel, de entretenimento gospel. O crente fiel não pode ouvir música “do mundo”, mas deve comprar os cds de música gospel; não deve usar roupas “do mundo”, mas deve comprar roupas das grifes gospel; precisa cancelar o canal de tevê a cabo “do mundo” e contratar o canal gospel; não pode frequentar uma balada “do mundo”, mas sim uma balada gospel.

Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem;
Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo.
Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. – 1 Coríntios 5:9-11

Kit de embelezamento da Rainha Ester, óleo de unção de diversas fragrâncias, bíblias de estudo com a relativização do Evangelho que se deseja ter. Idolatria a personalidades gospel (pois não se pode admirar cantores “do mundo”), votos nos políticos indicados pelas lideranças eclesiásticas, congressos e eventos para dar lucro aos empresários gospel. Teremos essa semana a Expo Cristã, uma feira de negócios gospel, onde haverá Evangelhos relativizados em vários estandes. De tão relativo, será possível reunir num mesmo ambiente presbiterianos, “mundiais” e os da Plenitude, sendo a Igreja Mundial do Poder de Deus considerada como “seita” pela Igreja Presbiteriana do Brasil, e sendo a Igreja Apostólica Plenitude de Trono de Deus, com as mesmíssimas características da Mundial e da IURD, apenas ainda não oficializada como seita por faltar literatura a respeito. E observação: a feira é do líder da Plenitude, mas relativizemos a presença dos presbiterianos a título de tentativa de propagação do verdadeiro Evangelho (nada a ver com lucro, espero!).

Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.
Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.
Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.
Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão. – 1 Timóteo 6:7-11

Para expandir, o Evangelho não pode ser relativizado. A Palavra não pode ser deturpada, pois perde Poder. O ser humano não pode ser afagado nos púlpitos, mimado, satisfeito em sua vida mundana, mas confrontado com a Verdade, Verdade essa que doi, que machuca, que desagrada, que humilha. A Verdade é que temos uma Cruz a ser carregada, se queremos seguir ao Mestre e Senhor. E essa Cruz é o instrumento nossa morte para o Eu, para o mundanismo deste mundo tenebroso. Uma vez mortos para o pecado, realmente viveremos para Cristo. E, servindo a Cristo, não haverá espaço para servirmos também a Mamom.

O Evangelho relativizado conseguiu o seu propósito: hoje temos, só no Brasil, a grande maioria dos cidadãos ditos cristãos. Porém, essa grande maioria não dá testemunhos de fé e de caráter na mesma proporção. Ao contrário, o Brasil ainda é o país onde proliferam o “jeitinho brasileiro”, a luxúria, a corrupção, o desamor. Ao invés de Frutos do Espírito, o Evangelho relativizado traz Frutos de Iniquidade.

A porta que leva à Salvação é estreita, e poucos passarão por ela. Os que vivem e se deleitam num Evangelho relativizado perigam não conseguir passar por essa porta.

Uma marca dos verdadeiros profetas é que eles não eram adorados pelas multidões, pois suas duras palavras afastavam a muitos. Não se corrige um filho passando-lhe a mão na cabeça e dando-lhe um beijinho na face.

Quem ama disciplina. O líder que ama as ovelhas que Deus lhe confiou não lhes poupa as palavras, pois não deseja ter seu sangue nas mãos.

O Evangelho, por si só, tem força para sua propagação. Ainda é o Espírito Santo quem acrescenta as almas, não nossa eloquência ou os meios midiáticos dos quais podemos dispor.

Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! – 1 Coríntios 9:16

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

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