Pentecostalismo enigmático

pentecostesComo poderíamos definir o atual pentecostalismo no Brasil? Com certeza não é uma tarefa muito fácil. Recentemente em um evento fiz uma pergunta  a um dos convidados: seria possível definir se as Igrejas Assembleia de Deus Vitoria em Cristo e do Brás, são realmente pentecostais??  O professor fugiu da resposta, falou e falou e nada respondeu.

Sinceramente diante do que tenho visto neste dois ministerios, e em suas lideranças o neopentecostalismo entrou para ficar em suas açãoes, cultos e reuniões. As vezes me pergunto do porque ainda sustentam o nome de Assembleia de Deus.

 

Sei que esta pergunta está dificil de ser respondida, pois a igreja está perdida em sua identidade, em sua tradição e em sua essência. Hoje lamentavelmente estamos perdidos em nossas relações com o cristianismo histórico e referencial. Não podemos nos classificar como a igreja primitiva de Atos 2:42-44: E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.

 E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos.

 E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.

 

Com o surgimento do Neopentecostalismo e do movimento apostólico ficou muito mais difícil definirmos o que realmente está acontecendo com a igreja brasileira. Já sabemos que igrejas Metodistas, Batistas, já sucumbiram às tentações do neopentecostalismo e movimento apostólico. O que estamos vendo foge do caos e se aproxima do pandemônio.

É preciso definir essas duas palavras para entrarmos na gravidade do problema enfrentado pela igreja.

Caos: Designação de desordem, confusão, balbúrdia ou barafunda; Referente a indistinção ou desarranjo; perturbação ou transtorno. Para os gregos o caos era antecedente de abismo.

Pandemônio: Origem  ETIM ing. pandemonium, palavra criada por Milton, no Paraíso Perdido (1667) para designar o palácio de Satã; significados: associação de pessoas para praticar o mal ou promover desordens e balbúrdias; mistura confusa de pessoas ou coisas; confusão.

 

 

As duas definições podem parecer semelhantes, porém na sua essência são bastante diferentes. Porém, ao avaliarmos a situação da igreja dentro de um contexto de responsabilidade bíblica, hermenêutica e exegética, confesso o temor e assombro com a realidade.

Atualmente a realidade assistida no contexto de algumas denominações só pode ser classificada como herética e próxima da apostasia. Algumas denominações podem ser definidas como tudo, menos como igrejas genuinamente cristãs. Por quê? Simples, suas práticas, ritos e cerimônias não refletem o texto bíblico e muito menos as tradições cristãs através da história do cristianismo. É preciso que saibam que apesar dos avanços e transformações do mundo, o cristianismo prossegue com suas essências inabaláveis.

 

Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?” E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”. Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás                                                                        ( Lucas I0:26-28)

 

 

Avaliação bíblica

 

À luz do texto bíblico, estamos vivendo dias dos profetas Isaías, Oseias e Amós. A igreja e suas lideranças avançam rumo à apostasia, com heresias frutos de desvios de caráter, enganos, vaidades, irresponsabilidades e cegueira espíritual de seus lideres. A igreja se tornou uma casa de negócios, como afirmou Silas Malafaia. Dentro desse aspecto, o cuidado com a pregação bíblica não mais importa, está em segundo plano. Isso é refletido nas letras das músicas, das pregações, no ensino.

Essa realidade é descrita na metodologia aplicada em muitos seguimentos vindos do pragmatismo americano, classificados como: células, GI2, MDA. Sistematizações que transformaram a igreja em um mecanismo de lucro e barganhas, onde fiéis são clientes de uma organização econômica. Os frutos dessa máquina podem render poder politico, econômico, social aos que souberem manipular as Escrituras em proveito próprio. O povo, ou melhor, os fiéis, são o retrato de uma nação já acostumada à manipulação oriunda de uma colonização já envolta no sincretismo religioso, onde o místico, mágico já estão inseridos. Para o brasileiro, o sagrado e o profano caminham próximos, não distinguidos à luz da bíblia, pois a bíblia é algo difícil. Observa-se que o sujeito religioso no cenário brasileiro não se assusta com a manipulação e o engano vindos das lideranças. Não se assustam com a falta dos textos bíblicos nos cultos, nas cerimônias e no dia a dia da vida religiosa.

Já ouvi uma fiel dizer que não precisa da bíblia, pois seu pastor sabe tudo da bíblia. Esse engano já foi experimentado na história do cristianismo, com as missas em latim e a proibição dos fiéis leigos de possuir a bíblia.

Isso está se repetindo em muitos segmentos ditos evangélicos no Brasil. O ensino foge da realidade bíblica, do verdadeiro cristianismo. Isso é claramente percebivel no cotidiano dessas igrejas. Por exemplo, não se ensina a Reforma Protestante, os Pais da Igreja. Não está incluso nos ensinos a história da igreja, pois toda essência é focada no imediatismo cotidiano. As relações dentro desse contexto é puramente material, a espiritualidade é uma forma  de negócio, pois gira no propósito de lucrar. A benção é uma forma de lucro tanto do líder, quanto da instituição e do fiel, não importando para isso que o texto bíblico fique de lado. Não importa se o pastor não porte a bíblia, não importa se os textos são adulterados, importa que dê resultados. Não importa quem Deus é, mas sim o que Ele produz.

 

No início fiz a pergunta: como definir se uma igreja é ou não pentecostal, afinal é possível definir se uma igreja é realmente metodista, presbiteriana, anglicana, etc. Não é mais possível, e vou mais a fundo, está difícil definir se uma igreja é realmente cristã, pois na verdade perdemos nossa identidade confessional.

Os motivos disso são muitos, vou destacar alguns:

 

Teologias intencionais

 

 

Não temos mais uma teologia cristã, e sim teologias intencionais. Hoje as universidades, seminários, cursos são puramente intencionais. A formação dos alunos seguem preceitos de doutrinação, domesticação, pois ao serem formados os alunos terão que agir dentro de propósitos já estabelecidos. Essa é a realidade de muitas instituições de ensino religioso. A teologia foge dos preceitos bíblicos e históricos do cristianismo e passam a ser puramente intencionais. Se o curso é metodista, nada foge do metodismo; se quiser estudar um teólogo liberal, vai encontrar dificuldades. E vice-versa, se o curso é pentecostal vai encontrar dificuldades para pesquisar teólogos fora da linha pentecostal. É uma teologia intencional, longe do cristianismo comum, não pode ser diferente pois, afinal, os que estão ali vão servir aos seus segmentos.

Mal sabem os futuros pastores que suas instituições esperam que eles atinjam as metas estabelecidas, em número de membros e financeiramente. E que seus ministérios estarão mais ligados ao cumprimento dessas metas do que ao conhecimento  adquirido. Ou seja, tem que dar fruto, tem que entreter o povo, tem que fazer a igreja crescer tanto em números como financeiramente. O amor ao próximo, o social, o aconselhamento, a pastoral… ora, alcance as metas e isso vai acontecendo naturalmente.

Já fui acordado de madrugada em minha casa por mães e pais pedindo ajuda, pois seus filhos estavam desaparecidos. Perguntei onde estavam seus pastores e eles responderam que o pastor não atende  àquela hora e, para falar com o pastor, era preciso marcar uma hora. Muitos jovens em hospitais ou com problemas judiciais que não podiam contar com ajuda pastoral, pois seus pastores estavam condicionados a estruturas muito mais empresariais do que pastorais. Quantas igrejas que possuem um poder econômico superior a muitas empresas e nada fazem pelo social de suas comunidades!  Com pastores e lideranças inacessíveis ao povo, pois vivem como verdadeiros astros do mundo gospel. Vivem cercados de seguranças, vivem com uma estrutura totalmente empresarial. O povo é visto a distância, o acesso só facilitado pelo poder econômico ou pelos benefícios da relação oferecidos. Sem contar as igrejas de pai para filho, ministérios que vivem de heranças ministeriais – não importa o talento ou capacitação dos demais, a igreja tem um herdeiro. São inúmeras as igrejas e membros fragilizados por lideranças sem carisma, sem capacitação ministerial ou pastoral. Ministérios fundamentados no histórico do pai ou do avô.

Anos atrás me chegou a história de uma certa igreja, onde o filho recebeu de herança uma igreja vinda da administração de 40 anos do pai. Em pouco tempo, o camarada passou a andar com carros de luxo, mudou-se para um bairro de luxo e uma grande mansão. Em poucos anos se descobriu que o camarada vivia em poligamia, pois tinha uma família na cidade onde estava a igreja e outras duas famílias em cidades ao redor. Após a descoberta, muitas irmãs relataram que eram assediadas cotidianamente, e eram ameaçadas a não denunciar aos seus familiares. O camarada herdou a igreja, porém era um pecador que ainda não tinha passado por uma verdadeira conversão. Pena que não posso contar muitos dos casos que chegam a mim, decorrentes do mesmo problema. Igrejas herdadas por vínculos familiares.

 

Fragmentação

A igreja não mais vive ou prega a unidade, tudo é motivo para a divisão. Divisões fruto de intrigas, iras, vinganças, ódio. Essa é a clara realidade de que falta caráter e espiritualidade realmente cristã nas lideranças. Falta perdão, humildade, simplicidade, muitos querem o poder a todo custo. Anos atrás soube de uma igreja no interior de SP que teve a presidência disputada a bala. Membros divididos pelos interesses dentro e fora e ao redor da igreja, armados, querendo a todo custo tomar posse do bem maior: a igreja e seus benefícios. Quer um retrato mais real da situação da igreja brasileira? Sem contar as inúmeras histórias que vão parar na justiça. Sem contar as que caem no  esquecimento popular. Hoje, cada denominação é encarada como um segmento dentro do contexto religioso. Todos estão à caça do sujeito religioso, e para isso é preciso apresentar seus produtos. Seguem as regras de mercado, onde os diferentes produtos são ofertados aos interessados. Como disse Edir Macedo, é dá ou desce. Temos igrejas para todos os segmentos: igrejas do rock, da dança, da cura, da prosperidade, do milagre urgente. Temos a igreja para tirar os vícios, o mal olhado, arrumar namoro e casamento. Tem igreja para rodar, pular, correr, rir, chorar, enfim, tem para todo gosto. O triste é que, com tantas igrejas, o brasileiro ainda seja tão desumano, antiético, corrupto, violento, mal educado. Ou seja, a multiplicação de igrejas pouco está fazendo no caráter do povo. Muitos vão à igreja dançar, gritar, cantar, porém ao saírem pouco reproduzem do verdadeiro cristianismo, do fruto dos ensinos de Cristo e seus verdadeiros apóstolos.

Temos um cristianismo sem vida real em Cristo Jesus.

 

 

Universo gospel

Não poderia deixar de citar esse segmento do universo evangélico. Onde foi parar a música?  Vi, dias atrás, em uma postagem do facebook uma discussão sobre louvor. Uma pessoa disse que devemos louvar a Deus pelo que Ele faz. Entrei no debate e disse: não, minha irmã, nós devemos louvar a Deus pelo que Ele é, pois é através da Sua existência que tudo o mais nos é feito. Foi para adorá-Lo que nós fomos criados. Adoramos a Deus por Sua existência em nossas vidas, por Sua fidelidade, por Sua soberania, amor, graça. Pelo universo criado a nosso dispor, ou seja, há inúmeros motivos para louvarmos a Deus. Por que vemos tantas músicas fora do contexto bíblico? É sabor de mel, é determina, restitui, dá o que é meu. Tem músicas que ao invés de levar-nos à Espiritualidade, ao sagrado, simplesmente nos entretêm. O universo gospel reflete claramente a realidade descrita nesse artigo, segue o mesmo contexto: business.

A música é um elemento de culto e não um produto a ser explorado. Tenho participado de muitos eventos do universo gospel nos últimos anos em todo o país. O que tenho visto é de assustar. Os cantores, cantoras, bandas se tornaram astros como no mundo secular. Ou melhor, não é possivel diferenciar um cantor gospel do cantor secular, os universos se uniram. Há de tudo: histeria, gritos, desmaios, muito choro, ou seja, os astros do universo gospel se tornaram cantores como os demais. Sem contar os cachês e o alto custo da promoção desse universo. Hoje as grandes empresas do universo musical exploram com veemência o ramo gospel. Quem sofreu com isso foi a igreja, pois os cultos se tornaram shows, onde o que se vê é tudo, menos adoração e louvor. Vemos cantores cobrando e exigindo coisas inimagináveis para um culto ao Senhor. O gospel tirou da música sua fonte de Espiritualidade e ação do sagrado. Só se vê emoções e lucros, nada mais. Hoje temos todos os ritmos e formas de músicas, porém pouco vemos de músicas que levem à reflexão e conversão. Ainda me lembro do tempo em que a música era uma forma de ação do Espirito Santo na conversão e libertação de quem adentrava a igreja para cultuar a Deus.

É preciso que os músicos saibam que o culto é para o Senhor e o espaço da igreja é para a Espiritualidade. Usar este espaço para o puro entretenimeto é prostituição e idolatria. Tenho visto pessoas gritarem os nomes de artistas e bandas, sem se atentar que o culto é para Deus. Recentemente participei de um evento onde os apresentadores tiveram que repreender a plateia diante da histeria ao anunciar um determinado artista. Onde vamos parar, sabendo que em muitas igrejas a música toma praticamente quase todo tempo do culto? Restando pouco tempo para a Palavra, isso faz com que a figura do músico seja em muitos redutos superior a do pastor. É preciso deixar claro: igreja é igreja, casa de show é outra coisa, a mistura não resulta em algo bom. Hoje vemos igrejas com baladas, louvorzão, com o slogan de alcançar os jovens, porém se esquecem que é preciso incentivar a integridade, a santificação, a responsabilidade para enfrentar os desafios da vida. Tenho notícias de jovens que engravidaram em retiros, vigílias, encontros, etc. Também tenho relatos de jovens que passaram a usar drogas depois de algumas amizades em algumas igrejas, onde havia muita música e muitas festas. Ou seja, é preciso haver bom senso, responsabilidade de quem lidera esse tipo de evento ou movimento. Gospel ou não, é preciso que promova a vida.

 

Enriquecimento desordenado de instituições e líderes a todo custo

Isso mesmo, enriquecimento, muito luxo, muitos bens, muitas vaidades. Pastores fazendeiros, donos de muitas terras e bois, cavalos, carros de luxo, aviões, roupas de grife, muitas joias, plásticas, viagens, muita mídia. Pastores colecionadores de motos, cavalos, botas, sapatos, relógios, anéis, perfumes. Ou seja, tudo o que a vaidade pode proporcionar às custas do dinheiro vindo de ofertas e dízimos. Pastores possuidores de fortunas que poderiam tirar a fome e a pobreza de muitos, porém isso não se cogita em hipótese nenhuma. Pobreza é do diabo, declara Edir Macedo. O povo é pobre porque não tem fé. Ele se esquece que a bíblia declara em Romanos 10:17: “Logo a fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela Palavra de Cristo”.

Em muitas instituições o culto se resume à coleta de ofertas e dízimos, e a pregação é simplesmente um pretexto para a coleta. Tudo gira em torno da prosperidade, promessas, desafios, sacrifícios. Vale tudo para conseguir a riqueza prometida pelos pregadores. Em algumas igrejas, o salário do pastor é segundo as metas financeiras alcançadas, forçando o pastor a não ter medidas quando o assunto for dinheiro. Com isso muitos, na busca incansável por riquezas, se atiram nos sacrifícios propostos, porém não percebem que nesses ministérios quem realmente enriquece são as lideranças. Há um exército de frustrados, enganados, roubados por essa teologia do engano.

Temos hoje no Brasil até jurisprudências relacionadas com o estelionato de muitas igrejas e líderes. É preciso equilíbrio nas emoções ao adentrar esses locais. Em muitos templos estão usando até hipnose e técnicas de neurolinguística para poder induzir os fiéis a dar tudo o que possuem. Muitos induzem em seus discursos os fiéis a dar o dinheiro do aluguel, do pagamento de dívidas familiares, sem contar os desafios impostos em cima de empréstimos dos fiéis. Ou seja, vale tudo no propósito de construir os maiores templos e possuir os melhores bens. Esse espírito de ganância é também referencial no sentido de barganhar os fiéis aos partidos e políticos nos períodos eleitorais. O número de membros vale por cabeça em muitos ministérios, pois cada um representa um voto, e cada voto representa poder político e financeiro. Assim tem crescido muitos ministérios, que ampliam suas conquistas aos olhos de todos, dando o sentido de que conquistaram a  terra para Deus. Porém vemos que os cofres das lideranças estão cada dia mais cheios.

Essas barganhas políticas tiram da igreja a autoridade de cobrar o sistema político diante da incompetência de gerir a máquina pública em prol das necessidades da população. O que temos visto são políticos eleitos com o voto dos evangélicos, porém ao chegar no Congresso e no Senado, nada fazem prol do povo, pois ali estão para representar as instituições que os apoiaram ou a seus próprios interesses. A chamada bancada evangélica nada faz em prol dos interesses públicos, ao ponto de ser um grupo praticamente nulo no cenário político. Hoje, se não bastasse o enriquecimento das lideranças, o alvo é desfrutar dos favores vindos da máquina pública. São verbas públicas para financiar eventos (exemplo: marcha para Jesus, encontros, shows, lançamento de cds, livros, construção de templos, custeio de viagens), sem contar o tal passaporte diplomático que muitas lideranças fazem questão de publicar sua posse. Outro ponto é cada segmento, por ter seus representantes tanto no Senado como no Congresso, ficar a cada dia tentanto puxar a sardinha para seu fogo, aprovando projetos de concessões de rádios, jornais, canais de TV e outras fontes de comunicação. Tudo isso resulta em constantes fotos com políticos, sem contar a presença de políticos nos eventos promovidos pelos segmentos. Ou seja, política e religião têm sido bastante rentáveis às instituições religiosas e seus líderes.

A riquza de muitos líderes contrasta com a pobreza de um país todo, e muitos não estão nem aí com isso. Dizem fazer trabalhos sociais, porém o montante gasto com o social não chega a um décimo do seu gasto com roupas e luxos.

Em uma nação como o Brasil, saber que um pastor coleciona cavalos, carros, relógios, chega a ser ofensivo, pois o valor mínimo do luxo poderia matar a fome de muitos. Poderia dar vida digna a muitos miseráveis. Já andei ao redor dos grandes templos na Av. Celso Garcia, em São Paulo. É uma região onde inúmeros imigrantes da América Latina e África se amontoam em cortiços, em becos mal iluminados. Falta água, falta espaço, falta tudo. Crianças correm nuas, homens e mulheres com semblantes caídos. Nitidamente falta esperança a esses seres humanos. Os grandes templos fazem sombra à esses cortiços e becos. Porém, esses seres são invisíveis a muitos membros e líderes em seus carros e em suas roupas de grife nos cultos e reuniões. É a igreja como instrumento de desigualdades e segregação, pois a igreja em seu discurso e ações cotidianas não faz questão de ver os pobres e menos favorecidos. Isso é totalmente contrário à tradição cristã. A recomendação aos apóstolos de Jesus era que eles não se esquecessem dos pobres e viúvas. Os dízimos e ofertas foram instituídos para os pobres, as viúvas e os necessitados. Se dízimos e ofertas estão proporcionando riquezas e luxo algo está errado, pois onde há riquezas e luxo não há compartilhamento. A riqueza e o luxo na história  normalmente são frutos da exploração de um grupo ou de uma classe.

O título desse artigo é pentecostalismo enigmático porque acredito que só haverá uma solução para tudo isso se nos definirmos como verdadeiros cristãos. Os metodistas querem ser pentecostais, porém estão indo para o neopentecostalismo. Não vai demorar e teremos um apóstolo dito metodista. Precisamos e com urgência definir nosso pentecostes vindo das marcas da igreja de Cristo. Não basta simplesmente crescer numericamente ou enriquecer, é preciso ter um caráter cristão. Como pode um país que se diz cristão ser uma vergonha mundial na educação, saúde, segurança, saneamento básico, infraestrutura? Somos o país da falta de caráter, da falta de honestidade, do jeitinho antiético para tudo. Isso é manifesto pela corrupção, pelas desigualdades sociais, pela colonização exploradora, pela imposição da religião, porém agora também é manifesto pelos escândalos frutos das ditas igrejas evangélicas. O que dizer dos inúmeros casos de líderes e instituições evangélicas envolvidas nos escândalos de corrupção do país? O que dizer do escândalo envolvendo família de pastores  querendo entrar em outro país com dinheiro não declarado na cueca, na bíblia? Os inúmeros casos de estupros, pedofilia e demais casos envolvendo membros e líderes evangélicos?

Como disse, saímos do caos para cair no pandemônio, pois hoje há pessoas que convivem e apoiam essa situação. É lamentável, porém é a realidade.

Não sabemos mais a diferença dos profissionais da fé e dos falsos profetas de um cristão real e verdadeiro.

No meio desse pandemônio todo, graças a Deus que há aqueles e aquelas que não se dobram aos deuses e valores deste mundo. Pessoas que guardaram seus corações em Cristo e seus tesouros estão na Glória com Deus.

Posso citar um pessoa ímpar no estudo do verdadeiro pentecostalismo histórico. É o Prof. Dr. Bispo Paulo Aires, da UMESP. Uma referência no estudo do pentecostalismo desde suas fontes primárias, tanto do pentecostalismo americano como do latino americano e do Brasil. Uma pessoa que acredita que o pentecostalismo tem algo a oferecer ao povo brasileiro, no sentido de proporcionar uma fé palpável e possível tanto aos mais desfavorecidos, como aos mais abastados. Uma fé cidadã, plural, fundamentada nas Escrituras, calçada na vida cotidiana, onde cada ser humano é capacitado com a responsabilidade social e com as ferramentas que possibilitam a construção de mundo melhor. Um pentecostalismo onde os dons e serviços partem do equilíbrio entre os seres humanos e o universo que os cerca. Bispo Paulo é um camarada que faz com que você queira saber mais sobre o assunto, pois suas experiências ministeriais retratam que é possivel viver o pentecostes bíblico sem as extravagâncias observadas no universo pentecostal.

Outra pessoa a quem referencio é a Profa. Dra. Magali Cunha. Em seu livro Explosão Gospel temos um referencial consciente e responsável do que realmente é o gospel desde sua fundação. Profa. Magali é uma pessoa que conhece a fé em diferentes culturas. Uma visão abrangente no sentido global. São duas pessoas que deveriam ser referencial quando falamos em pentecostalismo e universo gospel. Tive a felicidade de ter os dois como mestres, e acredito que suas reflexões me cativaram a ter o senso crítico sobre o tema.

Minha luta tem sido contínua em denunciar, orar e lutar para que essa situação seja mudada. Creio ser possível viver o Evangelho de Cristo, e isso faço e vivo na comunidade em que colaboro. É preciso que os mercenários da fé saibam que Cristo ainda é honrado por muitos, que nem todos querem fazer parte do pragmatismo cotidiano de muitas instituições. Creio que a cada dia esse rebanho será despertado pelo Espírito Santo de Deus fazendo o verdadeiro pentecostes, que é a aproximação do Criador à suas criaturas mediante a graça e amor incondicionais, pois nada temos a não ser nosso louvor e gratidão contínua. Somos devedores, somos agraciados pelo sacrifício de Cristo na cruz, favor também imerecido, porém suficiente para nossa reaproximação com o Criador. Essa é a verdadeira mensagem do pentecostes. Essa é a verdadeira igreja pentecostal, a que reconhece a revelação de Cristo ao mundo, e mediante isso proclama ao mundo através de suas ações cotidianas refletidas na Palavra de Deus que: Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:I6). Com o exercício diário da convivência, mesmo com os diferentes da fé, refletimos  a paz que só Cristo dá. Paz essa refletida na vida, seja ela simples ou abastada, pois os verdadeiros tesouros estão distantes deste mundo que jaz no maligno.

Ora, sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não é escravo do pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o protege, e não permite que o Maligno o possa tocar. Estamos cientes de que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. Da mesma forma, temos pleno conhecimento de que o Filho de Deus é vindo e nos tem concedido entendimento para reconhecermos o Verdadeiro. E nós estamos vivendo naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna. …                                                                                             I João 5: I8-20

 

Voltemos ao evangelho puro e simples. O $how tem que parar.

 

A Deus toda honra e toda gloria.

 

Paulo Siqueira

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