Reforma ou Revolução?

Já faz um bom tempo que não me sento para escrever, um reflexo direto do meu estado de indignação diante de tudo o que tenho visto e ouvido sobre a igreja evangélica brasileira. Em meio à angústia de quem milita na tentativa de transformar a realidade, me lembrei de uma pergunta que me foi feita em 2008, por um colega da faculdade de teologia, quando eu apresentava em uma aula ideias de uma nova reforma, baseadas no livro O Equívoco da Igreja de Emil Brunner.

O livro é bastante enfático na análise de que a igreja se perdeu nos caminhos, perdendo com isso a imagem de Cristo. Recentemente um telepastor afirmou em rede nacional que a igreja é business. Essa é a face da atual igreja.

Mesmo que poucos não representem essa realidade, para muitos a igreja não passa de verdadeiros negócios e lugar de oportunismo.

Diante disso, gostaria de pensar alguns pontos.

Qual é nossa identidade? Qual é a face da igreja brasileira? Somos um bom empreendimento para os dias atuais? Pois a impressão que temos é que a igreja se tornou mais uma frente de trabalho e uma fonte de lucro, e isso se reflete diante dos inúmeros pastores profissionais, que encaram a igreja como um verdadeiro meio de sustento.

Tenho observado que muitos pastores até discordam de diversos pontos da realidade de suas instituições, porém diante do “salário” e do vínculo empregatício, se sentem desmotivados a enfrentar a realidade.

Já ouvi de muitos pastores: “o que vou fazer? Já tenho tal idade. Onde vou ganhar o salário que ganho aqui?”. É lamentável, mas a motivação de muitos é o salário, é a estabilidade que o emprego e a profissão oferecem (pois muitas instituições, além dos bons salários, ainda oferecem viagens, moradia, carro, despesas pagas, sem contar o status).

Diante de tudo isso, muitos pastores se calam e repreendem seus ímpetos de uma reforma. Muitos perdem, com isso, os horizontes da verdade e começam a viver uma vida de mentiras e ilusões. Quantos são os pastores que nessa ganância de vencer, de ter status, de ser reconhecidos dentro de seus ministérios se entregam aos caminhos enganosos da maçonaria, vivendo um distanciamento entre a teoria e a prática.

Muitos são os pastores destituídos de autoridade espiritual diante de suas igrejas e membros, por transtornos internos na alma e na mente, em decorrência da escolha dos caminhos tortuosos.

Em meio a tudo isso, surgiu recentemente um novo caminho: tornar-se apóstolo. Um cargo bem acima de pastor, bispo, missionário, que hoje é o auge no contexto evangélico. Ou melhor, o auge é ser apóstolo e dono da igreja.

Um apóstolo não tem que se reportar a membros, ele se reporta só a Deus, pois ele é um mediador entre Deus e os demais membros. Essa é a principal base para os geradores de heresias na contemporaneidade da igreja.

Um apóstolo não serve, é servido. E em muitos meios, o apóstolo não adora, é adorado.

A igreja, em meio aos negócios, ao desejo de exaltação, perde sua espiritualidade e torna-se uma casa de lucros e entretenimento.

Muitos se esquecem que igreja na Bíblia é casa de oração, casa de misericórdia. O papel da igreja diante da sociedade é de servi-la e amá-la como Cristo nos amou. Enquanto na Bíblia as palavras-chave são amor, misericórdia, esperança, paz, santidade, mansidão, perdão, socorro, liberdade, fidelidade, renúncia, nas igrejas da moda as palavras-chave são vitória, bênção, conquista, posse, domínio, fogo, poder, guerra, batalha, pisar, amarrar, crescimento, prosperidade, riquezas etc…

Vivemos uma grande inversão de valores e não mais reivindicamos as essências de um cristianismo fundamentado Naquele que morreu no lugar daqueles que tinham por herança (por seus pecados) a morte. Em muitos cantos, apesar do nome e das inscrições nas paredes, a igreja não é de Cristo, e também não O representa.

Muitas lideranças não portam a Bíblia, e quando fazem menção dela em seus sermões, essa menção é um rascunho muito mal feito do texto bíblico. Com isso, o povo não lê, não reflete e também não pratica os ensinamentos bíblicos, pois a ênfase está em uma metodologia de crescimento e de barganhas, onde Deus é forçado a abençoar, impulsionado por palavras de ordem e desafios financeiros.

Tudo são números. Será essa a nossa identidade? Foi para isso que Deus enviou o Seu Filho ao mundo para morrer?

Outro ponto: a hipocrisia é a saída?

Quando defendi a ideia de que a igreja evangélica brasileira precisava passar por uma nova reforma, muitos se assustaram. O mais assustador é que em muitas igrejas, muitos são os que ainda não sabem que a igreja já passou por uma reforma. Imagine a dificuldade para pensarem numa segunda reforma.

Diante da crise de identidade, da crise de lideranças e da falta de coerência no ensino da Palavra de Deus, pensar em uma nova reforma é um grande absurdo, porém é preciso que alguma coisa aconteça, pois onde vamos parar?

O que eu questiono, além de todas as heresias propostas e praticadas diante de tamanhas crises, é o porquê tantos se calam. Para isso, só tem uma conclusão: muitos se acostumaram a viver na hipocrisia. Diante disso, adquiriram um espírito de inércia, que os impossibilitam de agir. Esse é o motivo pelo qual muitos professores de faculdades teológicas, mesmo sabendo que a teologia de sua instituição é ultrapassada diante dos desafios do cotidiano, mesmo assim continuam ensinando e fazendo da sua teologia uma verdade absoluta.

Essa hipocrisia atinge como uma metástase, atingindo cada canto, e todos se envolvem. Essa é a razão pela qual cultos, encontros, seminários, congressos são tão infrutíferos, pois são reflexos da mesmice, do engessamento de um sistema que não mais gira no eixo cristológico, mas sim num eixo puramente eclesiológico.

Essa hipocrisia tem matado a espiritualidade da igreja. É uma pena que muitos dormem e não se atentam para essas realidades.

Outro ponto que também é bastante devastador é a situação em que se encontram pentecostais e neopentecostais.

Às vezes, chego a duvidar de algumas coisas que vejo sendo praticadas por algumas igrejas desse segmento. A verdade é que não mais sabemos quais as essências e valores de um verdadeiro pentecostalismo, pois o pentecostalismo que estamos vendo é desprovido de uma teologia. O que vemos são fontes místicas e de encantamentos, e não uma teologia fundamentada em preceitos históricos e valores genuinamente cristãos.

Tenho um amigo teológo que certa vez definiu o neopentecostalismo como uma esquizofrenia coletiva, diante dos abusos cometidos. Reuniões onde o êxtase, a balbúrdia lembram muitas coisas, menos um culto ao Deus vivo. Reuniões que vão de banhos de águas encantadas a sal grosso, óleos ungidos, danças, rodopios, gritos, histerias e transes, que fogem de uma racionalidade sadia e de uma espiritualidade calcada, funcional e essencial vinda do conhecimento dos preceitos bíblicos.

Por isso a pergunta do início deste texto: reforma ou revolução?

Digo reforma porque necessitamos voltar ao Evangelho verdadeiro e genuíno de Cristo. E revolução porque acredito que Jesus foi um revolucionário, pois sempre esteve na contramão do sistema religioso vigente.

O Cristo jamais perdeu de vista Sua verdadeira missão, que era estender o Reino de Deus na terra e reconciliar os seres humanos com o Deus Criador. Em Sua luta, jamais se deixou levar pelos encantos e desejos deste mundo. Sempre demonstrou que não era deste mundo, pois o mundo jaz no maligno, que é o deus deste mundo tenebroso.

Muitos preferem se calar, se ocultar, porém eu escolhi clamar alto, pois sou uma pedra que clama.

Há um ditado popular que diz: “quem cala consente”. Porém eu digo: “quem cala-se, aprova e pratica a hipocrisia”. Por isso clamo em voz alta:

O $how tem que parar. Voltemos ao Evangelho puro e simples.

Paulo Siqueira

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