A propósito das eleições: o mundanismo de lideranças do campo evangélico

A propósito das eleições: o mundanismo de lideranças do campo evangélico

Magali do Nascimento Cunha http://midiareligiaopolitica.blogspot.com.br

“Mundanismo” é um termo comum no mundo evangélico brasileiro. Diz respeito à atitude de pessoas que não são evangélicas e se rendem aos prazeres da vida como beber, fumar,  cultivar uma sexualidade fora da moralidade religiosa, frequentar de baladas/barzinhos/shows seculares. O teólogo reformado estadunidense H. Richard Niehbur, no final dos anos 1940, deu mais consistência ao termo, quando escreve sobre responsabilidade e irresponsabilidade cristã. Niehbur classifica como “mundana” a atitude de igrejas e lideranças que, em nome de poder, prestígio e acomodação na ordem social, assimilam valores deste mundo (competição, violência, intolerância, injustiça, mentira), incompatíveis com os valores do Evangelho de Jesus Cristo (amor, a misericórdia, a paz, a reconciliação, a justiça, a verdade). Niehbur relaciona a esta reflexão sobre irresponsabilidade cristã, por exemplo, as igrejas alemãs que se renderam à ideologia nazista no período. O mundanismo, para o teólogo norte-americano, ao contrário do senso comum evangélico, é uma traição ao Deus que a igreja serve, pois substitui Deus pelo “lugar ao sol” na sociedade (quem quiser ler parte do texto de Richard Niehbur que trata do tema, produzi uma tradução disponível aqui).

Esta reflexão me vem, inevitavelmente, à mente todas as vezes que tenho acesso às postagens de material do pastor-presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia na internet (seja no microblog Twitter, seu mais forte veículo nas mídias sociais, seja nos vídeos que produz para o seu programa ou para postar nos seus sites).

Imagem: vídeo do site Verdade Gospel

Ao encarnar a personagem daquele “que diz as verdades, doa a quem doer”, e se torna, portanto, “o polêmico”; que está sempre com o dedo em riste e com a voz exaltada; que abusa do deboche, da ironia e de palavras grosseiras; o pastor Malafaia assume postura de violência verbal, “popularesca” e vulgar. Quem assim se pronuncia quer disseminar seu pensamento e opinião “ganhando no grito”, não necessariamente com argumentos consistentes e verdadeiros. E esta postura tem apelo e resposta. Responde ao imaginário que dá forma à cultura brasileira do que é “coisa de macho”, de “homem de verdade”. E como pastor midiático, ele se equipara a outras celebridades que atuam na mesma linha como Ratinho, Wagner Montes, Geraldo Luis, Marcelo Rezende, e também à linguagem de programas como “Casos de Família”, do SBT,  e “Teste de Infidelidade”, da RedeTV!.

A tipologia da irresponsabilidade cristã, de Richard Niehbur, se aplica ao perfil do pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Isso se dá na medida em que, em nome de um “lugar ao sol” no concorrido campo religioso evangélico e na arena pública, ele privilegia linguagem e atitudes consonantes com os “valores do mundo”, como violência, intolerância, competição, mentira. Assim, descarta os valores evangélicos que, historicamente, caracterizavam o perfil dos pastores evangélicos. Ou seja, uma prática baseada na simplicidade, na cordialidade, no diálogo, no bom trato com as pessoas, na misericórdia, no amor incondicional/desinteressado, respeito, verdade. O discurso dele tem sido baseado no princípio superado pela fé cristã do “olho por olho, dente por dente” e não no “caminhar a outra milha… dar a outra face”, pregados pelo modelo dos cristãos, Jesus de Nazaré, crucificado pelos políticos e pelos religiosos da época justamente por ensinar este tipo de atitude contra os “valores do mundo”.

Por meio de sarcasmo e deboche associados a expressões vulgares, banais e grosseiras, o pastor Malafaia não só ensina, espalha e estimula violência simbólica, como manipula as palavras com uso da retórica do terror para fins políticos. Esta prática já era adotada por ele há algum tempo, mais intensamente desde o período eleitoral de 2010, na busca de espaço religioso e político. Desde 2013, ao se tornar um defensor do deputado federal e pastor assembleiano Marco Feliciano (PSC-SP), envolvido em polêmicas em torno de racismo e homofobia (ler mais sobre isto aqui), o pastor Malafaia ganhou mais destaque na arena política e reforçou ainda mais o discurso bélico e seus recursos. Com isso conquistou admiradores e, ao mesmo tempo, a antipatia de amplos setores evangélicos. O pastor ampliou espaço na rede social Twitter e na produção de vídeos-mensagens veiculados no seu site “Verdade Gospel”.

O ápice desses movimentos foi alcançado no processo eleitoral de 2014 quando o pastor Malafaia passou a liderar uma cruzada contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e contra a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Nesse período, não se evidencia o caráter pastoral de sua atuação (apenas cinco mensagens religiosas entre 1.035 postadas em período monitorado, como se verá adiante). No entanto, o pastor Malafaia encarnou uma postura política aguerrida na campanha anti-PT e anti-Dilma. Ele abandonou a campanha do Pastor Everaldo (PSC) para declarar apoio a quem passou a se destacar nas pesquisas – a candidata Marina Silva (PSB), que, em 2010, ele havia atacado e repudiado. “Qualquer um menos Dilma” passou a ser o lema do religioso que, no segundo turno, declara voto no candidato de oposição Aécio Neves (PSDB).

Nesta reflexão não está sendo considerada a atitude política de oposição do pastor nem a referência ideológica com a qual ele embasa todo o seu discurso. O pastor está correto em advogar direito à comunicação e à liberdade de expressão, quando criticado pelo conteúdo de suas postagens e vídeos. Este pensamento reflete uma tendência sociopolítica no Brasil, refratária aos avanços sociais alcançados na última década e meia. É parte do processo democrático e suas disputas.

O que interessa aqui é o “mundanismo” (conforme a tipologia de Niehbur) abraçado pelo pastor Silas Malafaia para alcançar o seu objetivo de ser oposição. Isto é, o fato dele não ter a identidade que se espera de um pastor evangélico, dentro dos princípios elencados acima. O pastor diz que sua atitude se dá em defesa dos cristãos e da causa evangélica. No entanto, até mesmo com este argumento parece negar os valores evangélicos, uma vez que assume a máxima maquiavélica de que “os fins justificam os meios”.

Os Evangelhos relatam momentos em que Jesus de Nazaré se deu o direito de expressar ira em ações (quando expulsou vendilhões do templo) e em palavras (em debates com os religiosos de sua época, a quem chamou de “raças de víboras” e “sepulcros caiados”). O contexto indica que o fez na sua vocação de profeta que denunciava explorações e injustiças mas que, acima de tudo, disseminava palavras de consolo e esperança, em nome de uma religião libertadora que dava voz e vez aos mais desprezados. As palavras de Jesus, mesmo duras, eram sábias, coerentes com o nível de seus debatedores, pautadas na justiça e na verdade. Há uma enorme diferença aqui.

Um monitoramento básico do Twitter do Pastor Silas Malafaia,  que vem sendo frequentemente replicado em matérias de diferentes mídias, religiosas ou não, é ilustrativo disto.  De 5 a 18 de outubro (às 19h20) foram 1.305 tuítes (média de 93 por dia). Nestes 14 dias, foram 1.301 tuítes de campanha política “anti” e quatro com versículos bíblicos (Romanos 8.39b, em 7/10; João 5.4, em 8/10; Colossenses 3.14, em 13/10; Provérbios 26.12, em 16/10) e um com uma oração mesclada com texto bíblico no dia das eleições, o 5/10: “Deus abençoe o Brasil, e o Espírito Santo ilumine a mente dos brasileiros. Esse é o dia que fez o Senhor, regozijemo-nos e alegremo-nos dele”. Ou seja, quase 0% de mensagens pastorais e quase 100% de campanha política “anti”, com linguagem que faz uso de sarcasmo, deboche, vulgaridade, banalidade, grosserias, intolerância, distorção de informações. A seguir uma seleção de exemplos categorizados do tipo de linguagem utilizada nas postagens (alguns exemplos estão para além da data de monitoramento pois se destacaram como “muito acessados”):

Linguagem chula/vulgar

Sarcasmo/deboche:

Manipulação/distorção de informações e lançamento de dados “bombásticos” sem base comprobatória:

Para concluir

Esta seleção é um pequeno extrato que ilustra a linguagem predominante no discurso do pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. A quantidade de seguidores, admiradores e defensores revela o retrato do universo cristão hoje no Brasil, marcado por uma crise de valores e por uma identidade híbrida: usando os termos de Niehbur, busca-se ser evangélico com princípios “mundanos”.
Ao mesmo tempo, o espaço que as grandes mídias dão para a livre expressão do pastor Silas Malafaia, autoriza/credencia o seu discurso e revela as opções desses grupos midiáticos, responsáveis por boa parte do que brasileiros/as sabem. Este é o tipo de religioso que as mídias noticiosas querem destacar: “popularesco”, exótico e grosseiro. E isto é amplamente reproduzido pelos veículos religiosos. Vale lembrar que além de ter sido entrevistado por boa parte dos principais jornais e revistas, durante o processo eleitoral, supostamente falando em nome dos evangélicos, no dia 8 de outubro, um debate entre os candidatos a governador do Estado do Rio de Janeiro, promovido pela revista Veja, teve o pastor Malafaia como “convidado especial”. Não se poderia esperar outra coisa senão uma destacada pergunta ao candidato Marcelo Crivella, marcada por sarcasmo, palavras vulgares e intervenções debochadas.

Este texto foi produzido para estimular uma reflexão. Estas questões levantadas são apenas um caso, um exemplo a ser tomado para se tentar medir a quantas andam o nível dos valores ressaltados no campo evangélico em disputa no Brasil. O silêncio das lideranças das igrejas históricas e pentecostais sobre a crise que se revela é mais um sinal de que “as pedras clamarão”.

Postado por Magali do Nascimento Cunha 

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