Ainda há espaço para o crescimento

Minha indignação e também a idéia de que poderia contribuir com a realidade sócio-cultural-política, e principalmente a situação em que se encontra a igreja evangélica brasileira me fizeram iniciar esse blog. A experiência tem sido bastante significativa, pois com muita ética, respeito e amor tenho expressado minhas opiniões, denunciado e também trazido pontos de reflexão, ora de mudanças, ora de conscientização, de esperança, no intuito de que leitores e leitoras que acessarem esse blog possam ter no seu dia-a-dia uma fonte de reflexão, porém com o objetivo único de edificação, crescimento, e acima de tudo, ser uma válvula propulsora em busca de justiça, paz e dignidade.

Essa introdução é para demonstrar minha alegria em ver que, em meio a erros e acertos, a melhor opinião vem daqueles que nos acompanham. Nesse último mês de julho, tive a oportunidade de participar do 8o. Fórum Regional de Educação Popular do Oeste Paulista (FREPOP), e também sua 5a. versão internacional, evento bastante significativo, que contava com o apoio da UNESP, APEOESP, Petrobras, Ministério da Saúde, UNILINS, entre outros. O objetivo era o debate com os temas “educação popular e diversidade cultural (indígena, africana e camponesa): relação entre espaços urbanos e rurais; religiosidade popular e ação política – um outro mundo é possível”.

Com a participação de convidados de todo o território nacional e também internacionais, dentre esses tive a felicidade de ser convidado para um dos painéis internacionais de debate, sobre educação popular e religiosidade popular na perspectiva do diálogo interreligioso e do engajamento social.

Destaco isso no blog porque o convite partiu do Prof. Dr. Antonio Folquito Verona, um pastor que, em meio a andanças pela internet, descobriu meu blog, e após a leitura de vários artigos, me viu com potencial para participação nesse importante evento.

Foi muito interessante o contato e a diversidade de idéias, pois havia nos painéis comunidades indígenas, camponeses, professores, sociólogos, antropólogos, assistentes sociais, pesquisadores, representantes políticos e até mesmo um pastor pentecostal, para debater com representantes católicos, protestantes históricos, pajés, representantes do candomblé, tema de tamanha importância como o diálogo interreligioso.

Em dado momento, tive a oportunidade de ser entrevistado pela mídia local, e me foi perguntado qual a importância do ecumenismo. Minha resposta foi em nome de algumas pessoas pelas quais tenho um carinho especial, que trouxeram a mim uma grande mudança de paradigma em tudo o que acreditava ser a fé cristã: a Prof. Dra. Magali Cunha do Nascimento, o Prof. Dr. Claudio do Nascimento, o Prof. Ms. Bp. Paulo Ayres, professores durante minha carreira acadêmica na Fateo, que muito me ensinaram sobre o que realmente é o ecumenismo.

O ecumenismo não é simplesmente uma ideologia ou uma visão, mas sim a essência do verdadeiro cristianismo, que se dispõe, a partir da revelação de Cristo para o mundo, em ser o ponto essencial do diálogo entre os seres humanos. Cristianismo não é uma ideologia, é modo de ser, é modo de existir em cada um que o confessa.

É difícil compreender isso. Eu só aprendi estando no meio daqueles que já se desprenderam dos seus vínculos, das suas etiquetas, dos seus rótulos, das suas grifes eclesiais. Isso só conseguem aqueles e aquelas que convivem com a prática contínua das Boas-Novas de Cristo.

A igreja não deve temer o diálogo interreligioso, pois a igreja é firmada pela história, e a história é feita por homens e mulheres que dela participam. Por isso, a mensagem de Cristo ainda permanece: vinde a Mim todos os que estais cansados, e Eu os aliviarei.

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3 respostas para Ainda há espaço para o crescimento

  1. Moacir Teles Maracci disse:

    Muito gratificante ler esse texto. Como conciliar a função de professor da rede pública paulista (Geografia/História) onde lido com alunos e comunidade escolar das mais diversas inclinações religiosas e culturais (e estou falando de uma cidade como Presidente Prudente) com a posição assumida de cristão evangélico. Não se trata de fazer proselitismo em sala de aula, pois nessa “cilada” eu não entro, mas sim de “fazer a diferença”, frase esta bastante cara em algumas congregações evangélicas. Teria eu que abrir mão de meu patrimônio cultural adquirido em anos de faculdades, porque “o conhecimento humano não é nada”? Ou eu posso acreditar na possibilidade de promover um verdadeiro encontro de meus alunos com Deus ao despertar neles o amor próprio, e por extensão, o amor ao próximo? Se o amor é condição “sine qua non” para que o ser humano possa se completar, como entender que uma ideia tão sublime como o ecumenismo que tu defendes encontre tanta resistência especialmente na fração neopentescostal do evangelismo? São perguntas que me perseguem, para as quais não tenho muitas respostas, mas a partir da leitura de suas ideias (e de sua esposa) vejo que não estou louco em crer numa cristandade que efetivamente promova o homem, reconheça ele como sujeito da história e portador da capacidade de buscar a felicidade e assumir os riscos de sua escolha. Costumo dizer que a função docente não é a de fazer a cabeça da juventude, mas pelo contrário, desfazer, para que eles desenvolvam ao máximo suas potencialidades de reflexão. Se em algum momento conseguirmos êxito em nossa tarefa docente, com certeza vai diminuir em muito a “igreja como negócio”, que entre outros pecados transforma Deus em mercadoria, dai que em várias denominações se fala em “o meu Deus ao qual sirvo”. Misericórdia! Estão apropriando do Altíssimo em nome de interesses vis e inconfessáveis. Só com muita oração. A paz de Cristo!

    • pedrasclamam disse:

      Olá Moacir, Graça e Paz.
      Você está totalmente correto em seus raciocínios, e dialogar contigo nessa linha de pensamento é muito bom. Eu e a Vera estamos felizes em ter você como leitor, pois demonstra ser alguém que está além da linha geral de reflexão. É difícil viver em um mundo onde não se pensa, tudo a nossa volta está longe da linha do raciocínio: tudo tão supérfluo, tão raso, material, porém aqueles que são dessa “dimenção” às vezes sofrem, principalmente no contexto evangélico, e ainda mais no meio pentecostal. Queremos pessoas que vivam em Cristo (o ungido), porém sem esquecer do Jesus (salvador), Ele foi muito mais que místico, também foi razão, transcendendo entre céu e terra através das suas relações pessoais. Muitos evangélicos querem viver no céu, porém se esquecem que estamos na terra, lugar onde nos relacionamos com os demais seres viventes. Nessas relações necessitamos de viver como Jesus. Há momentos para a transcendência, porém também tem que haver o momento para a razão, e nisso consiste nossa fé: em ser maduros o suficiente para viver esses momentos, sem ser um religioso desenfreado, e sem ser um ateu. O equilíbrio faz do sujeito religioso algo útil para uma sociedade, pois nesse equilíbrio nasce o verdadeiro cristianismo, que se revela no contato com os demais, dentro do mundo das relações: na escola, no trabalho, no trânsito, no ônibus, ou seja, na vida cotidiana, na vivência natural, fora do “mundinho” religioso. A Bíblia se revela ao ser humano nas esquinas da vida. É ali, onde a natureza humana é confrontada, onde não podemos fechar nossos olhos para “sentir” Deus, mas sim com os olhos abertos e com nosso raciocíonio nos deparamos com nosso verdadeiro “eu”. Nessa tarefa ainda temos muito a crescer em nossa relação com a revelação, com a Palavra e com a vivência com o Espírito Santo de Deus. Para isso é preciso um amadurecimento muito grande das nossas lideranças evangélicas, pois as revelações da Palavra têm que sair dos púlpitos para serem referências para o povo de Deus em suas relações humanas do dia-a-dia. Aí podemos sonhar com um cristianismo que transforme homens e mulheres em “novas criaturas” reveladas na Palavra de Deus.
      Nesse processo acredito que você já deu vários passos. O apóstolo Paulo (o verdadeiro) disse que muitos são como crianças na fé, quem sai desse posto e chega a adolescência espiritual tem por tendência se sentir um tanto isolado no mundo. Mas graças a Deus que isso não é a realidade, aos poucos vamos encontrando os seres humanos que saíram do conformismo e partiram para uma racionalidade também espiritual, onde Deus é companheiro a cada momento, e não meramente uma fonte de contemplação prostrada, mas sim uma força reagente conosco tanto na dor, no fracasso, na alegria dos nossos dias.
      Vamos continuar nossa caminhada de verdadeiros discípulos do Mestre.

      Abração

      Paulo Siqueira

  2. Antonio Folquito Verona disse:

    Olá irmão Paulo e irmão Moacir,

    Graça e Paz também a vocês e a todos os seus!

    Fiquei muito surpreendido e feliz ao ler os comentários do irmão Paulo sobre a sua vinda ao VIII FREPOP – V Internacional. Minha intenção, ao convidá-lo a vir participar do evento, foi a de proporcionar-lhe um espaço de reflexão para que outros irmãos também o ouvissem e vissem um outro jeito de ser evangélico e pentecostal, diferente do padrão midiático, fora das convenções e muito próximo das preocupações cotidianas das pessoas simples de hoje (os chamados “homens de boa vontade”).

    Já havíamos tido a presença, anos atrás, no FREPOP, de outro irmão, um pastor chileno da Misión Iglesia Pentecostal, que voltou já faz algum tempo a seu país. Esse irmão, também muito combativo e crítico, nos deixou um legado bastante significativo de como intervir à luz da Palavra de Deus na realidade que nos cerca. Para mim, particularmente, a voz do irmão Paulo denunciando a “igreja mercado” ou, talvez, mais precisamente “a igreja a serviço do mercado” é algo fantástico. É realmente profético, a partir da concepção bíblica do termo. Isto é, daquele que denuncia o conluio entre os senhores do sagrado (Deus) e os torpes interesses dos senhores das riquezas (dinheiro) e do poder que fazem como se os dois aspectos das relações humanas (espiritual e material) pudessem, dentro das regras do Capitalismo (regidas pela ganância, pela concorrência, pela acumulação e finalmente pela separação social entre as pessoas), estar tranqüila e harmonicamente lado a lado. Sabemos que Jesus foi curto e grosso nessa questão, em várias passagens do N.T. Entretanto, grande parte das organizações que foram, ao longo da História, se outorgando o direito de falar em nome Dele o fizeram associando-se (e em alguns casos tornando-se uma só) ao “Príncipe deste mundo”, ao seu sistema econômico, social e político, à verdadeira Besta de que fala João. Condenam a idolatria dos outros, mas pregam a adoração ao dinheiro dentro de suas comunidades, induzindo tantos ingênuos irmãos a crerem que a Graça Divina seja como uma entre tantas outras mercadorias a se comprar num shopping qualquer.

    O irmão Paulo se rebela a essa concepção anti-evangélica dos “tempos presentes”, da hegemonia religiosa, das igrejas empresas e anda ou nada contra a corrente do mesmismo. É uma voz que clama no deserto: “aplainai os caminhos do Senhor” porque Ele vem! Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo! São palavras duras, mas mostram que para João, assim como para Jesus, não há meios termos, não há “compromissos” com os que exploram o povo e se locupletam com a sua miséria.

    Creio que assim como o irmão Moacir, tantos outros irmãos que também pensam do mesmo modo, cuja Fé não está a leilão e, por isso, não cederam às investidas encantadoras do sistema e de seus lacaios, irão se associar a este blog, criando uma grande rede que se une em Espírito e em Verdade. A Igreja de Deus, espalhada por todos os rincões da Terra e presente em todas as denominações ou fora delas, está unida em torno destes dois princípios fundamentais: a ação do Espírito e a prática do Amor Universal (ágape).

    É nessa perspectiva que construiremos com tantas/os outras/os o Ecumenismo (Que todos sejam Um!) que prepara a vinda do Senhor.

    Um abraço aos dois,

    Folquito

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