Pentecostalismo e a Palavra de Deus

Para muitos, o crescimento religioso brasileiro não passa de um processo natural da própria cultura nacional. Fomos colonizados pela cultura e religiosidade portuguesa, fundamentada no catolicismo europeu. No decorrer de nossa colonização, diferentes avanços de movimentos protestantes europeus tentaram introduzir no Brasil sua “evangelização”, porém os interesses econômicos se sobrepuseram aos interesses religiosos.

Com a vinda dos escravos, iniciamos as transformações religiosas no nosso país, nascendo o sincretismo entre catolicismo e as práticas africanas. Porém, com a chegada dos movimentos missionários vindos principalmente dos Estados Unidos, tivemos a introdução do protestantismo histórico e, logo depois, dos movimentos pentecostais. Num breve espaço da história poderíamos sintetizar isso com o crescimento da Igreja nos anos 90 e nos dias atuais, com o surgimento do neopentecostalismo.

Para muitos, o movimento pentecostal representa a verdadeira igreja protestante do Brasil. De fato, o movimento pentecostal é hoje algo notório dentro do cenário religioso brasileiro, mas há pontos a serem destacados.

Para muitos pentecostais, o pentecostalismo é a diferenciação entre os protestantes tradicionais e os adeptos dos avivamentos provindos dos Estados Unidos, principalmente do movimento da Rua Azuza. O grande foco é a força do Espírito Santo, Suas manifestações e uma certa transição entre o natural e o sobrenatural, que nasce desde sensações, arrepios, ao falar em línguas estranhas e que desencadeia em um emaranhado de fenômenos, que podem ir de transes, gritos, visões, alucinações, risos, rodopios, transfigurações, etc. Para muitos, o pentecostalismo não existe sem esses fenômenos sobrenaturais. Apesar de que muitos crêem que o pentecostalismo vem dos movimentos avivalistas americanos, muitos pentecostais jamais leram ou pesquisaram ou ouviram algum sermão que destacasse as verdades ou os contextos históricos do que é realmente o pentecostalismo.

Pouco se tem em material palpável, de forma teológica, sobre o pentecostalismo brasileiro. O que temos são biografias ou histórias institucionais, que contam partes ou fragmentos da verdadeira história, pois no pentecostalismo, desde o seu início, vale o ditado “cada um por si e Deus por todos”.

Os movimentos do cristianismo estão sempre ligados aos movimentos históricos e processos teológicos: um ponto não se desassocia do outro. Não existe pentecostalismo sem processo histórico.

Não é possível acreditar que o pentecostalismo são só sensações. Ele foi formado por homens e mulheres com lutas, com desfechos culturais que ultrapassam as sensações. Houve sim muita dor e ranger de dentes. O pentecostalismo nasce da busca da igualdade, da justiça para todos, nasce na certeza de que todos e todas são imagem e semelhança de Deus, sejam negros, brancos, pobres, ricos, estrangeiros. O pentecostalismo surge em meio às divisões sociais, surge em meio ao esmagamento público dos menos favorecidos, mas nasce também daqueles que pertenciam às altas camadas, e que através da verdadeira ação do Espírito Santo enxergaram essas realidades e realmente se empenharam para que o Reino de Deus fosse levado a todos e todas.

Para muitos pentecostais, o pentecostalismo é coisa da Assembléia de Deus, da Deus é Amor, da Quadrangular. Esquecem-se de igrejas como a Metodista, a Congregação Cristã, que são tão pentecostais quanto as mais tradicionais.

O cristianismo já nasce diverso, exemplos disso são os próprios evangelhos. Mateus não é igual a Marcos, mostrando a diversidade de todo o evangelho. Assim também é o pentecostalismo desde sua formação. O pentecostalismo produz opiniões diversas. De um lado estão os que apóiam com toda força, porém do outro lado estão aqueles que dizem ser a “boca de satanás”. Com isso temos todo um ambiente amplo para o estudo desse fenômeno do pentecostalismo; temos que ter em mente todos seus processos teológicos.

Outro ponto fundamental a ser analisado é que pensar ou interpretar as diferentes formas da multiforma do Deus Criador são meras “picuinhas” teológicas. Enquanto para muitos pentecostais não existe ação do Espírito Santo sem o sobrenatural, para muitos só existe ação do Espírito Santo no natural. São dois extremos. Já tive a oportunidade de ouvir defesas de teses contra o falar em línguas. Do outro lado, já participei de vigílias de uma noite toda onde membros de igrejas protestantes históricas buscavam “o dom de línguas”. Nessa infinita discussão do batismo do Espírito Santo, do falar ou não em línguas, fica para trás todo o sentido e a riqueza do movimento pentecostal.

Por que tudo isso?

O grande desafio é devolver tanto ao contexto protestante histórico como ao contexto pentecostal o sentido da interpretação da Palavra de Deus. Muitos dos fenômenos sobrenaturais que ocorrem em muitas igrejas pentecostais jamais e nunca passariam pelo crivo da teologia de Paulo, jamais seriam aprovadas pelos concílios dos apóstolos, e olha que eles sabiam o que era ação do Espírito Santo! Muitos pastores pentecostais deixaram de estudar a Bíblia. Muitos não sabem interpreta-la. Muitos não sabem a arte de pregar. Não há exegese, não há hermenêutica, não há homilética nos púlpitos. A desculpa para isso é que pregam no poder de Deus, e esse poder que dizem vir de Deus é o poder que confunde, perturba e desvia muitos das verdades do evangelho.

Certa vez fui convidado para pregar em uma igreja protestante histórica. Quando cheguei, os presbíteros dessa igreja, sabendo de minha formação pentecostal, de forma bastante discreta me convidaram para uma sala, e de forma direta me perguntaram: “pastor, podemos ver o esboço do seu sermão?” Eu, apesar de surpreso, abri minha pasta e lhes ofereci meu esboço. Eles se trancaram em outra sala e uns vinte minutos depois retornaram e disseram que meu sermão havia sido aprovado, dando-me as diretrizes da liturgia do culto.

Saí daquela igreja bastante contente, pois havia passado por uma das melhores experiências que um pastor pode passar em seu ministério. Descobri que aquela igreja, há pouco tempo atrás, possuía mais de 700 membros. Com o intuito de provar dos movimentos pentecostais e dos modismos da época, passaram a convidar diversos pastores, bispos, apóstolos, na tentativa de levar aos membros daquela igreja um avivamento pentecostal. Em pouco tempo, essa igreja foi dizimada e restaram pouco mais de quarenta membros. Essa experiência levou a liderança daquela igreja a provar os espíritos e os homens e mulheres que adentravam aquele lugar. Muitos pregadores não passariam por uma prova dessas, pois seus conhecimentos só atingem aqueles que não conseguem raciocinar dentro da revelação e das verdades bíblicas. Muitos pregadores jamais submeteriam seu conhecimento a homens que realmente conhecem a Palavra de Deus. Por isso, se escondem atrás dos fenômenos sobrenaturais. Com isso, a busca do conhecimento da Palavra deu lugar à busca desenfreada dos fenômenos sobrenaturais.

Gostaria de destacar aqui um nome para a pesquisa e aprofundamento daqueles que realmente querem descobrir as verdades sobre o pentecostalismo. O grande autor liberal Henry Van Dusen disse que o pentecostalismo é a terceira força religiosa do mundo: primeiro os católicos, os protestantes históricos e os pentecostais. Ele destaca que o movimento pentecostal “ é o tambor de Deus para o mundo”.

Não existe pentecostalismo sem Bíblia.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”, disse Jesus (Jo 14.6)

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