Pentecostes: Deus se une ao ser humano

1  E, CUMPRINDO-SE o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar;
E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.
E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.
E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu.
E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.
E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando?
Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?
Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia,
10  E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos,
11  Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.
12  E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?
13  E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.

Um dos grande desafios para aqueles que tem por objetivo, as verdades bíblicas, são os abusos, relacionados ao poder do Espírito Santo. O tema é tão controverso, que é preciso que seja dado um ponto de partida, para que se vinde os “mágicos, e magos” do pentecostalismo imaginário. Para isto é preciso o preparo ético, e doutrinário, para impedir que a palavra de Deus seja utilizada, em proveito próprio. Para isto trago aqui uma exegese, que esclarece alguns pontos que devem ser analisados pelos adeptos do “retete”, para que descubram os verdadeiros propósitos do pentecostes para os servos e servas do Senhor.

Sempre que nos deparamos com o texto de Atos 2.1-13 somos desafiados pelas ciências bíblicas a resolver um problema de coesão literária. O problema poderia ser resumido em uma pergunta: línguas estranhas ou línguas conhecidas? Para responder a essa pergunta, habitualmente se discute o texto a partir da análise literária e da sua redação.

Neste estudo, vamos apresentar brevemente a solução que as ciências exegéticas dão ao problema da falta de coesão literária, para nos dedicarmos com mais atenção à perícope na forma como ela chegou até nós, buscando compreender as relações sincrônicas entre as suas diversas partes. O desafio é procurar entender o texto com suas articulações e a mensagem que ele pretendia transmitir à comunidade de cristãs e cristãos de Atos.

O problema de coesão que envolve a perícope de Pentecostes pode ser percebido quando encontramos, na descrição do que estava acontecendo, a expressão “ruído”, ou vozes confusas, ininteligíveis (v. 6a) e, já na parte final do relato, encontramos a afirmação de que os apóstolos estariam embriagados (v. 12). Essas duas afirmações nos conduzem para a compreensão de que o relato discorre sobre línguas estranhas. Por outro lado, entre os vs. 4-11 encontramos a descrição do assombro da população, uma vez que cada um ouvia o discurso de Pedro em sua língua materna. Aqui, podemos apontar que o relato discorre sobre línguas conhecidas. A presença em um mesmo relato de línguas estranhas e línguas conhecidas aponta para uma falta de coesão literária. Como resolver esse problema? A resposta dada pela exegese é que temos nessa perícope uma composição formada pela costura de dois relatos diferentes. Um relato básico, que enfatiza as línguas conhecidas (vs. 4 a 11) costurado com um outro pequeno relato que enfoca as línguas estranhas (vs. 6 e 12s).

Assumindo o posicionamento de que a perícope é composta da costura de dois relatos, o nosso desafio é entender o porquê de uma costura tão intrigante. Para tanto, precisamos iniciar a busca de uma resposta a partir do contexto em que vivia a comunidade cristã de Atos dos Apóstolos, bem como para as características literárias do conjunto de Atos 2-5 e à compreensão de todas as imagens das tradições religiosas presentes nessa perícope.

1. Uma comunidade de fronteira

Partiremos da realidade da comunidade que está por detrás do livro de Atos. O que mais se destaca é o conflito de uma comunidade que vive uma experiência de fronteira cultural em um mundo no qual as fronteiras são fluídas e as culturas se tocam o tempo todo. Com isso, os encontros e desencontros do cristianismo do mundo Mediterrâneo (chamado por alguns de cristianismo Paulino) – marcadamente um cristianismo gentílico – se encontra e se entrelaça com a espiritualidade e fé do cristianismo judaico do mundo siro-palestinense. Os conflitos da mesa, da circuncisão, das espiritualidades vão se sobrepondo na tensa relação entre os participantes dessa comunidade. Nesse ponto temos o relato de pentecostes como uma herança comum.

2. Os relatos de fundação de comunidade

A perícope de pentecostes é parte de um conjunto que envolve os capítulos 2 a 5 do livro de Atos onde temos relatos de fundação de comunidade. Esses relatos marcam a identidade da comunidade cristã nascente – mais especificamente a comunidade cristã de Atos. Neles encontramos 3 pilares sobre o qual a comunidade se sustenta: a experiência de pentecostes; o olhar apaixonado e includente ao enfermo na beira do caminho e, finalmente, a partilha dos bens. Nessa perspectiva a perícope ganha uma importância capital. Ela é uma das marcas que identificam esse cristianismo.

3. Encontros

A partir da realidade de uma comunidade que vive os desafios do encontro de culturas, o relato costura duas tradições de espiritualidade distintas. A primeira a espiritualidade helênica, caracterizada pelas línguas estranhas – a glossolalia. A segunda, pela rica simbologia traditiva judaica – as epifanias e as línguas conhecidas.

3.1. As línguas estranhas (vs. 6a e 12-13)

O fenômeno da língua estranha é algo comum na religiosidade greco-romana do primeiro século. Muitos cultos enfatizavam a língua estranha como uma forma de manifestação da divindade e como uma experiência pessoal e extática de contato com essa divindade. A perícope, ao enfatizar essa espiritualidade típica do cristianismo do mundo mediterrâneo coloca a ênfase na comunhão com Deus. A manifestação de Deus provoca uma experiência pessoal de êxtase e experimentação da linguagem divina nos participantes da comunidade.

3.2. As tradições epifânicas e as línguas conhecidas

A essa tradição helênica soma-se o relato marcado pela riqueza da simbologia e das tradições judaicas.

Vento e fogo (vs. 2-3)

Quando lemos o Antigo Testamento, é comum encontrarmos a imagem do vento e do fogo associadas às epifanias. Vento e fogo implicam na manifestação de Deus. No Antigo Testamento elas apareciam cercadas de um respeitoso distanciamento. Tirar as sandálias, olhar de longe, seguir o fogo que vai à frente. A manifestação de Deus acontece em um seguro e respeitoso distanciamento.

Já no texto de Atos a epifania é surpreendente. Ao vento seguem-se línguas de fogo que pousam sobre a cabeça dos discípulos. A cabeça é tocada pela manifestação de Deus. De um lado temos a superação do distanciamento entre a divindade e os seres humanos e de outro, o toque na cabeça tem em diversos textos veterotestamentários, a conotação de bênção – que é uma forma de envio.

Línguas Conhecidas (vs. 4-11)

À superação entre o distanciamento do divino e do humano, segue-se um encontro dos discípulos – judeus – com representantes de todos os povos. A comunicação universal (nas diversas línguas) tem, no imaginário judaico, um sentido especial, uma vez que encontramos nessa experiência uma anti-Babel. Na história da torre de Babel, os seres humanos buscam alcançar a Deus e, com isso, as línguas se confundiram. No Pentecostes, Deus toca os seres humanos e as línguas se unificam. O Pentecostes, a partir da superação entre o distanciamento divino-humano, imediatamente cria a superação das divisões entre os seres humanos. É o desafio para uma experiência aglutinadora de comunidade fronteiriça.

Ao analisarmos o relato de Pentecostes, podemos perceber que as diversas dimensões se conjugam na construção de um princípio de fé que é fundante para a Igreja Cristã. O Pentecostes é um evento comunitário, que parte da experiência com Deus. Porém, na condição de seguidoras e cumpridoras da vontade de Deus, as pessoas que compõem a comunidade experimentam uma ação em unidade que provoca o restabelecimento da comunhão entre os diferentes. Esse processo estimula o avanço missionário da igreja. É o testemunho da ação de Deus, que reconstrói as relações de entendimento entre os seres humanos, quebrando barreiras e, também, restaurando a relação dos seres humanos com Deus.

Em um mundo marcado por fronteiras, pentecostes é superação, é unidade e é encontro. O pentecostes é um convite para experimentar o toque de Deus na comunidade, restabelecendo a unidade e a compreensão entre os diferentes.

 

Estudo apresentado no Simpósio da ASTE – Salvador – 12 de dezembro de 2006.

Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia

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