Será que o Deus do Kaká é melhor que o nosso?

Hoje pela manhã, em minhas leituras matinais, me defrontei com um texto publicado no site Terra, um artigo de um médico descrevendo a realidade do Sistema Único de Saúde, onde os cidadãos são submetidos a uma desumana escala de sucessivas remarcações de cirurgias. Porém, se não bastasse o descaso, o autor enaltece em seu texto a “paciência” dos pacientes em relação à forma como são tratados pelo Estado.

Além da paciência e conformismo, é possível ver a questão pelo ponto de vista da fé, pois para muitos pacientes esse descaso está relacionado com a vontade de Deus. Se eu aguardando há um ano por uma cirurgia vital, é pela vontade de Deus.

O autor destaca o incômodo com essa passividade, principalmente com essa relação entre desumanidade e vontade de Deus. Porém, há um parágrafo de suma importância no texto:

“Por sugestão do SUS – Sistema Único de Saúde -, todos os pacientes acima de sessenta anos, com traumas ósseos como as fraturas de colo de fêmur, deveriam ser operados nas primeiras setenta e duas horas para diminuir o risco de acidentes vasculares, as tromboses e embolias. Não é o que acontece na prática. Pela vontade de um Deus, que não é o mesmo de Kaká – o Deus do jogador fez que não houvesse crise financeira no Real Madri para que o atleta pudesse ser contratado, segundo entrevista de Caroline Celico, esposa de Kaká e membro da igreja Renascer em Cristo -, e ineficiência do SUS, esse limite pode se estender por meses, geralmente até a morte do paciente.”

É a partir daqui que iniciar minha reflexão.

Primeiramente é preciso lembrar que aqui temos o exemplo típico de uma pedra que clama, pois um médico que nada tinha a ver com religião destaca em seu texto essa triste relação entre um Deus dos pobres e aflitos e o Deus dos ricos e famosos. Podemos ver que a crítica ao SUS fica em segundo plano, pois a intenção do autor é destacar um Deus passivo, mencionado pelos que clamam em meio às dores, e um Deus poderoso, que caminha em ruas de ouro, em meio às turbulências. Então eu pergunto: será que o Deus do Kaká é melhor que o nosso?

Nesses últimos meses, tivemos através da mídia todos os destaques referindo à transação milionária envolvendo a venda de Kaká ao Real Madrid. Em diversas entrevistas, vimos o mesmo referindo que a tal transação milionária se deu em decorrência também da “vontade de Deus”. Será que Deus escolheu a posição social do jogador? Pois de um lado temos a decadência social, onde muitos morrem pela “vontade de Deus”, e de outro lado existe todo o glamour daqueles que se beneficiam também da “vontade de Deus”.

Parece complexo, de que lado Deus está? Do lado dos pobres? Do lado dos ricos e poderosos? É uma questão que envolve também o contexto da igreja brasileira.

Seria fantasioso da minha parte dizer que a eclesiologia faz com que a “vontade de Deus” seja ideológica, em meio a muitas doutrinas? Ou será que não existem esses dois lados também no contexto das igrejas? Por que o valor dos dízimos e contribuições favorece em muito na escolha de cargos, lideranças e atividades dentro de uma igreja? Por que o campo eclesiástico, para o pobre, parece ser tão reduzido dentro da cultura das igrejas?

O pobre só é marketing quando o intuito é angariar mais fundos. Qual igreja não gostaria de ter, em seu rol de membros, diversos “Kakás”, mesmo que para isso não fosse necessário requerer desses membros um posicionamento ético e cristão?

Nessa questão, se Deus tem um lado ou não, trago por referência o texto bíblico de Atos capítulo 10, onde está bastante explícita a relação entre Deus e o homem, através de suas atitudes. Para Pedro, através de sua cultura e suas tradições, o ímpio não tinha parte com a Graça divina. Foi preciso que Cornélio, de posse de uma visão angelical, chamasse Pedro à sua residência, e nessa chegada de Pedro à casa de Cornélio temos uma declaração:

“E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas, mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” – At 10.34-35

Não há, dentro do contexto bíblico, nenhum ponto em referência a acepção ou qualificação humana com relação a posses ou poderes, ao contrário, o exemplo de Cristo nos leva a uma vida prática em torno da igualdade, da justiça, da paz, promovendo a vida a todos. Uma teologia que não se relaciona com a promoção da vida não é bíblica. É preciso que nossos púlpitos, nossos sermões, nossos cânticos, nossas festividades promovam a igualdade de todos diante de Deus. É preciso trazer a nossa cultura evangélica à linguagem da Graça, de que para Deus não há melhores nem piores, e sim filhos e filhas criados a Sua imagem e semelhança.

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