Compaixão social

O objetivo deste é ser um ponto de referência em busca da reflexão, principalmente através de uma visão mais crítica e pontual de diferentes pontos e acontecimentos do cotidiano. Minha visão é cristã, porém não desprezo diferentes pontos-de-vista de todas as frentes da ciência.

Não poderia me calar diante de um fato marcante nos últimos dias, que foi a execução de uma jovem iraniana de forma covarde, fria, desumana. Uma menina de 23 anos teve seus dias abreviados por uma cultura e um sistema político que despreza de forma única os valores humanos. A jovem foi condenada por um assassinato (que até na última hora negou ter realizado ou participado) sem um julgamento: de forma sumária sua vida lhe foi tirada. Apesar de toda a comoção mundial, nada foi mudado na cultura iraniana. Ela se foi, como muitas na Índia, no Brasil, na África, em todos os cantos do mundo. O que temos feito em prol da vida humana?

Será que ao menos despertamos a reflexão mesmo em nossa família?

Mas aconteceu lá no Irã, o que eu tenho com isso?

Certa vez ouvi uma frase que dizia: “não se dá valor a um desgraçado, enquanto não se prova da mesma desgraça”.

As realidades de uma sociedade estão muito próximas de nós mesmo que não as vejamos. Somos vitimados pela corrupção, pela violência, mesmo que não necessitemos diretamente do aparato do Estado. Seja no trânsito, seja nas estradas, ou até mesmo no meio ambiente, todos somos vitimados, independente de nossa posição social.

Se queremos entender o estado real de uma sociedade, devemos olhar para seus pobres e excluídos.

Quando dizemos que nossa sociedade está doente, isso reflete que as relações humanas também estão doentes, principalmente nossas relações de poder. Seja na igreja, na família, todas essas relações vão refletir a realidade de liberdade e opressão aos indivíduos dentro do seu grupo.

Nos últimos meses estão freqüentes as notícias referindo o descaso dos políticos com a sociedade. Casos como o do deputado que da noite para o dia se descobre ser dono de um verdadeiro castelo, cujo valor está muito superior aos seus ganhos declarados. Também vimos, nos últimos dias, o descaso dos deputados em relação às passagens aéreas, muitas delas utilizadas para turismo de deputados e familiares.
Enquanto isso, muitos sofrem pela falta de saúde, de segurança, de habitação, de saneamento básico e de vida digna.

Tenho a impressão de que estamos vivendo num mundo totalmente paralelo: de um lado estão os ricos e poderosos, que com todo luxo e glamour parecem viver o paraíso na terra; de outro lado estão os pobres e necessitados, desprovidos de vida, de paz, vivendo de forma indigna, não sendo difícil ver seres humanos vivendo em situação muito pior que muitos animais de estimação.

Porém, o que vemos é um número grande de meros espectadores de tanto sofrimento. Acostumamo-nos a ver favelas sendo incendiadas, pessoas sendo esmagadas por enchentes e avalanches de terra em dias de chuva.

Nos grandes centros não é difícil ver seres humanos vivendo do lixo, comendo do lixo e sendo lixo. Já vi várias vezes homens e mulheres jogados ao chão em dias frios, de chuva, mais parecendo um amontoado de lixo do que seres humanos. Sem contar a violência policial, a violência doméstica a crianças, idosos, mulheres, todo tipo de violência.

Há descaso por todo lado. O que dizer da super-lotação dos presídios, dos hospitais? Meu artigo vem despertar que muitos se tornaram espectadores do sofrimento de muitos, nada fazem, simplesmente assistem.

A dor de muitos não nos toca mais. Não há sensibilidade na dor alheia, e o que sinto é que nessa corrida árdua em busca da própria felicidade, muitos não se sensibilizam nem mesmo com os próprios familiares.

“Quem não faz poeira, come”. Este é o ditado que rege o mundo para muitos. Em meio a tudo isso temos o sistema político, que para muitos é o grande culpado. Quero lembrar que todos estão lá devido à escolha de toda a sociedade. O sistema político é o reflexo dessa cultura que insiste em ver somente o próprio nariz.

O descaso para com o próximo é vivenciado em todo canto. Já ouvi o caso de um jovem que filmava uma pessoa atropelada, com o celular, ao invés de socorrer a pessoa que agonizava no chão.

Há uma cultura de ser espectador do sofrimento alheio. Assim como muitos assistiram à crucificação de Cristo, hoje muitos assistem à morte cruel de muitos. Em meio a tudo isso é preciso despertar uma cultura de compaixão social, ou seja, sermos despertos a fazer o bem. Mesmo com pequenas atitudes, podemos mudar essa situação de muita dor.

Assistimos em nosso aconchegante lar, pela nossa TV de última geração, as notícias de enchentes. Ouvimos o depoimento de pessoas tristes porque perderam tudo o que tinham, mas não nos sensibilizamos nem para fazer uma oração por aqueles.

Vejo igrejas mais voltadas para a vaidade de seus líderes e membros do que para a promoção da vida. Vi na TV, em um programa do Discovery Chanel, uma reportagem nos EUA onde uma igreja fornecia aos moradores atendimento médico, realizava exames e até tinha uma aparelho de tomografia. Senti-me mal ao ver aquilo, pois vi o quão pouco nós fazemos em prol do nosso próximo. Responda-me: quantas igrejas você conhece que realiza algum trabalho notório, digno como esse que estou referindo da reportagem? Acostumamo-nos a ver a entrega de cestas básicas, mas como o próprio nome diz é básica. Eu pergunto: você viveria com os itens da cesta básica? Na cesta básica não tem o alimento básico para a vida que é o leite, sem contar que os produtos na sua maioria são de qualidade inferior.

A compaixão social tem que invadir nossas vidas, nossas igrejas, nosso trabalho. Não podemos mais ser espectadores de tamanho sofrimento. Uma sociedade que se mobilize a prestar a assistência à vida, com certeza mudará o rumo de todo um país.

O grande mal que ataca a igreja é a preguiça de pensar e refletir sobre as realidades de nossa comunidade. Nossos sermões fogem das reais necessidades do povo. Somos massa de manobra da individualidade e vaidades de instituições e sistemas humanos.

Certa vez estava eu e um grupo de membros de minha igreja em uma distribuição de alimentos a mendigos, quando fomos abordados por uma senhora, que perguntou a que grupo espírita nós pertencíamos. Respondemos que éramos evangélicos, e ela de forma admirada respondeu:

Eu não sabia que evangélicos faziam caridade!!!

Guardo essa frase em minha mente até hoje. Essa frase mudou minha forma de ser evangélico e também de ver o sofrimento alheio. Não mais sou um espectador, não só porque sou evangélico, mas sim porque sou cristão, e tenho em mim as marcas de Cristo, a responsabilidade social e a compaixão social.

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