Quem quer ser Milionário?

Neste final de semana tive a oportunidade de assistir ao filme “Quem quer ser milionário?”. Foi uma experiência bastante marcante, e então resolvi deixar aqui uma reflexão sobre o filme. Fui ao cinema logicamente movido pela mídia, e também pelos prêmios recebidos, porém o que vi foi muito além que um simples filme, e sim diversos pontos a serem analisados por aqueles que vêem a vida como um eterno aprendizado.

O filme retrata a realidade nua e crua do povo indiano, principalmente a comunidade pobre. Porém, faz uma retratação de vários aspectos, principalmente os sociológicos e antropológicos. Quero aqui opinar e deixar minha visão teológica do longa-metragem.

O primeiro ponto a destacar é a forma como o diretor deu foque nas imagens. Ele prima pela face, no sofrimento enfrentado pelos personagens que são retratados desde a infância, passando pela adolescência, e chegando a fase adulta.

 Cada cena tem como ponto a face. É nítida a intenção do diretor de demonstrar ou passar para o público os sentimentos dos personagens. Vejo nisso uma intenção sociológica, pois em diversas cenas ele também foca pontos da cultura indiana. Neste foco é possível ser tomado pela emoção, pois a dor é transmitida pelos olhos dos personagens. Digo que há uma visão sociológica porque somente aqueles que conhecem a realidade sócio-cultural da Índia podem perceber vários pontos direcionados pelo diretor, que leva em cada cena uma pitada de intencionalidade. Não há somente emoção, há uma visão a ser passada.

Outro ponto a ser destacado é o foco cultural. Apesar de cenas extremamente violentas, o diretor deixa claro que as diferenças de religião e classes sociais são grandes, porém nada está fora do contexto quando se trata da Índia. Uma cena que muito me chamou a atenção é quando um grupo de hindus, armados de barras de ferro e paus, invade a “favela”, que era muçulmana, para espancar até a morte os seus moradores. Espancam, ateiam fogo em pessoas e casas, um tumulto enorme. Diversas pessoas clamam por socorro, porém um grupo de policiais jogam e se divertem sem serem tocados pelas cenas de terror.

Nisso é possível ver que o diretor não quer somente promover diversão ou entretenimento com o filme: há uma crítica sócio-cultural nestas imagens. A história das crianças contadas no filme poderia ser facilmente encontrada em diversas comunidades pobres do Brasil. Cenas de violência policial podem ser contadas às centenas em qualquer comunidade pobre do Brasil, porém o que destaco é o desejo do autor de levar aos pontos mais remotos uma imagem que pode levar à conscientização de que a Índia é muito mais do que um local para a exploração capitalista.

Na cena onde um dos meninos leva um casal de americanos para uma incursão em uma “favela”, e quando retornam o automóvel que haviam estacionado havia sido totalmente depenado, o motorista do casal espanca o garoto com muita violência, mas ele não se defende. Porém, o garoto diz uma das frases em que me sustento para declarar que o autor tem uma intenção também sociológica, mesmo que inconsciente. Ele diz: “vocês não queriam conhecer a Índia? Esta é a Índia!!!”

A Índia que muitos americanos não querem conhecer, e também a novela global não quer mostrar.

“Quem quer ser milionário?” demonstra, através de imagens, os frutos da globalização em sua fase mais cruel: a uniformidade.

Ser pobre por quê? Tenho que buscar a qualquer custo a prosperidade da América ou da Europa, mesmo que para isto tenha que usar a violência. Esse é o foco, as mortes, as drogas, a prostituição, a mendicância, que demonstram o quão miserável é aquele povo.

Cenas facilmente vistas em diferentes pontos do globo, por quê?

Porque são reflexos da globalização que cria e que desperta uma realidade de uniformidade. Planta-se idéias, e idéias de consumo. Não posso viver sem o celular, ou a roupa de grife, ou o tênis Nike, pois assim não sou um “cidadão” moderno ou atualizado.

Com isso, todos querem ser milionários, custe o que custar, seja por violência, corrupção, prostituição, não importa se o meio seja lícito ou não: o importante é ser um consumidor.

Assim nasce a cultura desumana que o filme descreve, mesmo na forma de um romance imaginário.

Minha intenção é despertar o diálogo dos diferentes focos do filme; já que a Academia o premiou, então é um meio de reflexão.

Outro ponto a salientar é o aspecto teológico. O filme descreve pontos referentes à religião, pois os personagens são muçulmanos. Há milhares de religiões existentes na Índia, esta diversidade está intrínseca na realidade cultural e também nos conflitos e sofrimento daquele povo.

Para um ponto de vista teológico, vou partir de três experiências que há muito me tocam. Não são minhas, mas sim de três missionários que ali estiveram com o intuito de levar àquele povo um pouco de paz e vida através das boas novas de Cristo Jesus.

A primeira experiência foi de um missionário que desembarcou no aeroporto e aguardava o pastor que estaria lhe hospedando. Ao chegar, descobriu que o local em que ficaria não era distante do aeroporto, então seria necessário alguém para carregar as bagagens que eram muitas, ultrapassavam uns 70 kg. Logo chega um senhor franzino, caquético, com uma carroça onde havia um local para as malas e um pequeno banco onde se sentava o dono das malas. Aquele homem, sem dizer uma única palavra, se prostrou diante do pastor e começou a colocar as malas no veículo. O missionário, fitando os olhos no senhor, não acreditou que seria possível aquele homem lhe carregar as malas, e ainda por cima levá-lo. Logo começou a se recusar a se sentar, e muito menos deixar levar as malas que eram muitas e também com grande peso. Porém o pastor que lhe acompanhava lhe implorou que não procedesse daquela forma, pois poderia causar transtornos, e o missionário repetia: “ele é um senhor franzino”, e o pastor lhe pedia que não falasse ao homem, pois ele era de uma “casta” inferior e aquilo era seu trabalho por toda a vida, pois era a vontade dos “deuses”. O missionário, totalmente inconformado, não acreditando naquilo que via e ouvia, em desespero, abraçou fortemente ao homem, quebrando todos os “protocolos” da viagem e provocando espanto em todos os que os cercavam.

Com isto reflito que o verdadeiro reconhecimento da humanidade, quebra todas as regras. O cristianismo é a única religião que se fundamenta no amor ao próximo, não importando quem ele seja.

“É ser humano, é imagem de Deus”, dizia Dietrich BONHOEFFER. No amor ao próximo nasce o verdadeiro sentido na vida.

A segunda experiência vem de uma missionária que ficou na Índia por quase dois anos. Para ser enviada ela passou por três anos de treinamento e preparo em um reconhecido seminário brasileiro. Após todos os treinamentos, ela foi enviada a diversas favelas do Rio de janeiro e Recife. Morou, comeu e viveu juntamente com famílias carentes. Após todos estes treinamentos, foi enviada à Índia com a certeza de que estava preparada. Porém, em poucos meses descobriu que na verdade nem todos os treinamentos foram necessários para o verdadeiro preparo. Apesar de todo o preparo, nada se assemelhava à realidade ali vivida. Ela havia experimentado a pobreza e a necessidade, porém em momento algum havia provado a miséria, e acima de tudo uma miséria vinda de pontos dogmáticos da religião, pois na Índia a miséria é em muitos casos vontade dos deuses, ou seja, ser miserável ou pertencer a uma casta inferior é imutável, pois ninguém pode ir contra a vontade e o destino preparado pelos deuses. Além de tudo vem a consciência de ser maldito e desgraçado.

O grande sofrimento é viver em um ambiente onde a esperança não está presente nos diálogos, nas orações, enfim, aquele que ali nasceu ali vai morrer. Em muitos casos a morte é a verdadeira vitória.

No filme todos ficam admirados pelo fato do rapaz acertar a todas as questões do programa de auditório, pois ele era pobre. Um miserável que nasceu para ser simplesmente miserável não pode ser mais que isto. Esse é o grande foco do filme, o fato de um garoto pobre se destacar em um programa de auditório. De forma surpreendente o jovem envolve todo o país ao redor da televisão.

A terceira experiência e para mim a mais marcante foi a experiência de um pastor que,  em viagem à Índia para uma série de conferências, após ser pego no aeroporto pela igreja que organizava a conferência ele se dirigia ao hotel quando o carro parou em um farol. Diversos meninos moribundos, cegos, deficientes físicos cercaram o carro. Ele,  totalmente comovido, abaixa o vidro e retira uma nota de dólar para doar a um dos meninos. Nisso ele é subitamente contido pelo pastor, então recolhe a nota, porém quando abaixava o vidro uma mão ressequida adentrou o interior do carro, e tocando no pastor dizia: “ama-me”, repetidamente dizia “ama-me”. Aquilo foi um forte golpe em todos os que estavam no carro.

Para muitos, a solução para a pobreza é dar dinheiro, dar comida, com isto vemos diversas campanhas televisivas em torno de organizações não-governamentais que combatem a pobreza. Porém, dificilmente a palavra amor é o centro das doações. Em geral, o amor é o veiculo de marketing para melhor arrecadação.

O amor é a força que emerge do Evangelho de Cristo, alavancando os cristãos a serem tocados pelo clamor dos que sofrem no mundo.

No filme, o foco não é o sofrimento dos meninos, a dor dos que morrem com a fome, as diferenças sociais, mas sim todo o foco da mídia ao redor de um programa de televisão, onde um podre favelado pode se tornar um milionário. Há uma cena onde adultos e crianças se sentam em frente à uma loja de eletrodomésticos, onde um número muito grande de TVs estão ligadas no mesmo programa.

Apesar da pobreza, da fome, de todas as injustiças sociais, a TV reúne a todos diante de um mesmo objetivo. Ricos e pobres se unem em torno da máquina da globalização. Sem perceberem, estão sendo conduzidos pela “mão invisível” do capitalismo, que adentra ruas, vielas, casas, barracos e mansões, levando a mensagem central do capitalismo que é o consumismo, a coisificação do ser humano. Sem se aperceberem, a linguagem midiática invade os pensamentos e ações de cada indivíduo, nascendo de forma progressiva uma nova cultura.

Isto não é um acontecimento somente da Índia, mas de todos os países onde os pobres e famintos são a maioria.

Quem quer ser milionário? Todos aqueles que se deixam envolver pela máquina da mídia mundial, que de forma silenciosa traga a todos em um frenético transe em busca de saciar sua sede contínua de prazer e vaidades. Mesmo que em busca da sobrevivência, somos impulsionados a correr atrás dos tesouros desta terra, mesmo que para isso seja necessário sacrificar vidas humanas. Mas esse é grande segredo do filme “Quem quer ser milionário?”: entreter, de forma simples, sem contradizer, ou ir contra o mercado e a mídia de exploração capitalista.

Será essa a razão de tantos prêmios? Esse é o desafio que faço a partir deste texto a todos e todas que buscam a compreensão deste mundo tão desigual, injusto, desumano, porém criado por  Deus.

Shalom.

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2 respostas para Quem quer ser Milionário?

  1. Tania Regina disse:

    Estimado Paulo, Graça e Paz te sejam multiplicadas.
    Parabéns pela reflexão proposta.
    Lá pelo meio do texto já estava a pensar, parece um certo incômodo, mas não. Isso é a realidade em que estamos mergulhados. Tenho observado que o povo evangélico, assisti diariamente a novelas, tanto globais, quanto outras. Ouço comentários assim: “Ah, mas é só diversão, para espairecer, desplugar do dia-a-dia, anti-stress…” e por aí vai.
    Todo ano o tal reality show, adentra os lares brasileiros, mostrando a nossa futilidade.
    E a pergunta, quem quer ser milionário querido, é respondida em uníssono por todos, cristãos ou não.
    A outra pergunta é: Como repudiar isso?
    Ainda é preciso digerir isso de forma cristã, mas o que de momento me vem a mente é:
    Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm.
    Acho que perdemos o foco daquilo que nos convêm. Arriscando aqui, ser tida como ultrapassada, vou um pouco mais além, e escrevo: Não retires os marcos antigos, para que em caso de necessidade possais voltar e encontrar o caminho.
    Continuo a refletir…

  2. PAULO disse:

    Obrigado, grande amiga.

    A grande questão é que perdemos o foco central de nossas vidas. O Reino de Deus, é trocado por qualquer fonte de felicidade, mesmo que momentanea. Sendo assim cresce a busca continua por fontes, nascendo assim o sofrimento humano.

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