Educação e o reencantamento da vida na família

  1. Introdução

 

 

“Educar é o processo pelo qual aprendemos uma forma de humanidade, e ele é mediado pela linguagem. Aprender o mundo humano e aprender uma linguagem, porque ‘os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.’”[1]

 

 

 

No dia 28 de outubro de 2007, foi publicada em toda a mídia a entrevista do governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho (PMDB) onde, de forma aberta, declarava que o aborto era a única forma de conter a violência. Declarou também que as taxas de fertilidade de mães faveladas são uma “fábrica de produzir marginal. Não tenho a menor dúvida de que o aborto (como política pública) pode conter a violência”. Ainda citou os autores do livro “Freakonomics”, escrito na década de 90 e que descreve a redução da violência nos Estados Unidos, porém o livro está intrinsecamente ligado à legalização do aborto em 1973 pela Suprema Corte.

Este trabalho não tem o intuito de discutir o aborto, mas utilizo-me dessa notícia e de toda a polêmica gerada em torno dela para iniciar um pensamento de como os homens públicos tratam da família.

 O governador do Rio de Janeiro descreve o pensamento de muitos, de que a violência, principalmente nas grandes metrópoles, está relacionada à degradação sócio-econômica da família. É na família que se inicia o problema. Para Cabral, não importa se de forma violenta, o aborto traria o equilíbrio para essas famílias. O mesmo governador, em defesa à sua tese, usa índices econômicos do Primeiro Mundo.

A base deste trabalho não é discutir o aborto, mas sim a família, pois a família não é só base para a violência, mas também é a base para a vida social de toda a comunidade. Para isso, é necessário refletir, para que a sociedade busque respostas para os problemas do cotidiano, e entre eles, a violência é o que mais se destaca.

Para a execução deste trabalho, elaborado junto às aulas de Pedagogia na Faculdade de Teologia, com o Prof. Bp. Josué Adam Lazier, além dos debates, foi utilizado como material de pesquisa o livro “Educar para Reencantar a Vida”, do Prof. Dr. Jung Mo Sung.

 

  1. O que é a família?

No dia 7 de outubro de 2007, o jornal Folha de São Paulo publicou um caderno especial intitulado “Família Brasileira”, onde diversos pesquisadores traçaram um perfil da família no país. O caderno abrange diversas questões, como sexualidade, maternidade e trabalho, homossexualidade, hábitos.

A pesquisa do Datafolha visitou 211 municípios, entrevistando 2.093 pessoas. Dentre os muitos dados obtidos, algo é notório: a família brasileira está mudada.

Depois de décadas, a família brasileira está mais tolerante, ou mais atualizada, dentro de muitos conceitos, porém ainda muito tradicional em outros. Dentro disso, ter uma definição do que é família nos dias de hoje seria uma tese muito complexa.

A família só pode ser definida por aqueles que participam do contexto. O que é família em São Paulo não é família em Minas Gerais, nem no Nordeste, nem nos Estados Unidos, e talvez também não seja no Japão. O que temos são conceitos puramente culturais de família. Temos um conceito moral, religioso, social, político, cada um vendo a família através de seu prisma.

A família, para o político, é totalmente diferente da família para a ciência. Definir família só é possível através de conceitos puramente técnicos, ou sociológicos, ou teológicos, etc.

A estrutura familiar, ao longo da história, também sofreu transformações. O que dizer das famílias atuais, formadas sem a presença do pai ou da mãe, ou até as famílias formadas por dois pais ou duas mães? Como vemos, a família mudou. Os pais, mães e filhos, todos, através dos aspectos histórico-sociais e também teológicos, se transformaram.

A definição de família só é possível com a compreensão da vida cotidiana, pois a família é feita no dia-a-dia. Só assim é possível compreender todas as transformações sofridas pela família ao longo da história.

  1. A vida e a família

“Se perguntarmos a qualquer pai ou mãe porque que eles querem que seu filho ou sua filha estude, que vá à escola e consiga uma boa educação, a resposta será mais ou menos essa: “é porque nós queremos que ele ou ela tenham uma vida boa, ou uma vida melhor, pois se não estudar vai ter uma vida difícil””[2].

Com essa declaração, podemos ver que o propósito da família é sempre para o bem, e que a educação tem seu papel de suma importância na formação e nos valores familiares. A família é formada pelo interesse comum de dar continuidade à vida. Dessa forma, o viver está intrinsecamente ligado com o ser família.

A antiga fórmula familiar, com pai, mãe e filhos, já não é suficiente para abarcar as novas relações sociais geradas pelas mudanças pelas quais a humanidade passou nos últimos anos. A vida familiar é a vida cotidiana, onde valores vão e vem, juntamente com o dia-a-dia familiar. A família dos avós não serve de exemplo para hoje, onde o divórcio é o meio mais rápido de resolver os problemas que, anteriormente, eram resolvidos com o diálogo, a tolerância e o conformismo.

Quantas famílias, que durante décadas, foram forjadas dentro de um ambiente fantasioso de paz, liberdade e respeito, porém quem determinava regras e normas era o ser masculino, formado pelo pai, avô ou marido? Quantas mulheres, que durante décadas, não tiveram voz, e foram simplesmente relegadas à função materna, sem expressar desejos, valores, opiniões, pelo simples fato de não serem a “cabeça” do lar?

Porém, a dinâmica da vida muda ao longo da história, e vemos que a formação familiar sofreu bruscas transformações, em decorrência do caos sócio-político, das guerras, da fome, das drogas, da violência urbana. A família tomou caminhos e valores nunca antes esperados. O que dizer, hoje, dos altos índices de lares onde a mulher é a provedora? O que dizer de famílias constituídas através de uma união homossexual? São as transformações decorrentes da vida. A família só pode ser entendida pela compreensão da vida.

 

  1. Educar para viver

Falar de família sem falar de educação se torna uma tarefa difícil. O grande desafio da família é ser a extensão do mundo. Todos os membros da família são cidadãos do mundo: pais, filhos, a escola, a igreja, a universidade, o Estado, devem ter a consciência de que somos criados para o contexto mundial. De forma intrínseca, somos ligados a cada parte do planeta.

O que acontece na minha família pode até parecer insignificante, mas tem seu contexto mundial. A exemplo disso, o que dizer do caso da família Richthofen, onde a própria filha manipula o assassinato dos pais? Um crime de repercussão internacional, trazendo à tona a degradação da família.

E tantos outros exemplos locais existem, que demonstram que a família brasileira e as famílias do mundo necessitam de auxílio!

”Reencantar a vida e a educação na família é uma tarefa fundamental e urgente! Para isso, apelos ou condenações morais não são suficientes. É preciso desvendar e criticar o sentido da vida dominante na nossa sociedade, e propiciar meios para que as pessoas possam repensar o sentido das suas vidas e encontrar ou elaborar um outro que seja mais humano e encantado” (SUNG, 2006, p. 13)[3].

Muitos projetos familiares não incluem o outro em seu contexto: vive-se como se o mundo existisse num paralelo distante. Muitos jovens saem de casa sem a consciência dos valores humanos. Exemplo disso são parte do cotidiano, como os jovens de classe média que, no Rio de Janeiro, espancaram uma empregada doméstica, por pensar que fosse uma prostituta; os jovens de  Brasília, que incendiaram um índio que dormia em uma calçada. Não havia neles nenhuma noção de vida humana. Qual o valor de uma prostituta, de um índio, de um pobre, qual o valor de um ser humano menos favorecido?

A educação deve ser para a vida, para a promoção dos seres viventes. Por que será que estamos vivendo a completa degradação de toda forma de vida do planeta? Isso é o retrato da verdadeira desvalorização da vida, desde o seu princípio básico que é a família.

A família se forma de maneira inconsciente, desprovida de valores sólidos como amor e fé. Tudo se torna passageiro, supérfluo, seguindo os meios que norteiam o sentido do capitalismo mundial, onde a valorização da vida deu lugar para o consumo. Com o encantamento do consumo, desencantou-se a vida, e dessa forma a educação.

Educar para quê? Para consumir? Para ser “alguém na vida” mais do que o outro? Os valores materiais ditam as regras: quem tem o conhecimento, quem domina os valores materiais dita as regras e tem o poder. Não nos percebemos, mas o que é mais poderoso é o que é invisível aos olhos. A família deixou de ser um local de vida, pois seus membros não se perceberam, mas seus valores foram aos poucos transformados pelo sentido invisível do mundo.

Com isso, temos uma grande confusão mundial, onde não se sabe mais para onde ir. A família é o seio da vida, onde nascem valores perpétuos. É inadmissível um Estado, uma nação que não se dedique à família, e que não combata todas as forças contrárias ao seu bem-estar. A violência infantil, a violência contra a mulher, a exploração sexual, o aborto são degradações sociais que nascem na família, levando ao mundo seres transformados por valores adversos.

“O que sabemos com certeza é que o nosso ambiente, o nosso mundo, está mudando, como não poderia deixar de ser. Mas, a velocidade dessa mudança está sendo tão grande que muitos não estão conseguindo se adaptar aos novos tempos. Essa incapacidade de adaptação ou a falta de conhecimento necessário para processar as novas informações do ambiente estão condenando muitas pessoas à morte, ou a uma vida infra-humana. Alguns conseguem se adaptar às novas tecnologias e ao novo ambiente econômico, mas se perdem no tocante ao sentido da vida. Sem sentido, ou com um sentido de vida ainda confuso, se perdem em uma vida marcada pela corrida sem fim pelo sucesso, que gera ansiedade, angústia, agressividade e outras formas de desumanização. O sucesso econômico aparece muitas vezes como sinônimo de qualidade de vida, de uma vida bem sucedida, e, com isso, a própria noção de qualidade é substituída pela noção de quantidade, e a noção de boa vida pela de uma vida de conforto e excesso. Nós, humanos, não queremos estar somente vivos, necessitamos sentir que vale a pena viver, necessitamos de um sentido de vida, que faça as pequenas coisas, que compõem o nosso dia-a-dia, terem sentido e valor. Somos diferentes! Não necessariamente melhores, mas diferentes em relação às outras espécies. Saber dessas diferenças é fundamental para nossa discussão sobre a família e a educação no sentido da vida” (SUNG, 2006, p. 25)[4].

 

 

 

 

 

 

 

  1. A Igreja e a Família

A família é o sentido máximo da existência da comunidade de fé. Através da Igreja, temos a consciência de que o propósito de Deus está na formação e no bem-estar da família. A família é a comunidade da graça, e faz parte dos propósitos divinos para o mundo. O próprio Deus foi o criador da família. Cabe à Igreja cuidar da instituição primeira na vida de todos os seres humanos, e também a compreensão de todas as mudanças sociais e espirituais decorrentes no mundo.

A Igreja precisa ter consciência de que em toda realidade social não se pode dialogar com idéias puramente filosóficas ou sociológicas. É preciso haver a interpretação dessa realidade, e pensar também através do Reino de Deus. A Igreja necessita de novas teorias de ação social, e também novas teologias, que entendam e tragam suporte para as constantes transformações sociais que partem para o seio da família. A Igreja, através de sua teologia, deve elaborar melhor seus conceitos político-sociais; a Igreja tem que mostrar ao mundo em caos sua espiritualidade, através de sua “voz profética”.

Ao longo da história mundial, a Igreja sempre foi o divisor de águas. O que vemos hoje é uma Igreja refém das mudanças do mundo, sem respostas, sem direção. A globalização seduz pela fascinação do consumo; o consumismo não satisfaz as relações familiares, pois a família não se enquadra nas lógicas econômicas. A lógica da globalização desumaniza.

O grande desafio da Igreja é mostrar ao mundo que devemos amar ao mundo como Deus o ama. É a função da Igreja demonstrar isso, pois se ela não fizer, ninguém fará. A Igreja tem que voltar a ser a assembléia dos santos, e investir no seu bem maior, que é a família. A Igreja faz parte da formação e continuidade da família.

Quando vemos que a Igreja se afasta da família sem se perceber, ela está contribuindo para o caos social do mundo. É preciso investimento, a Igreja deve ser instrumento de educação, transformação, reestruturação da família. É necessária a compreensão de que a Igreja deve redescobrir os tesouros de suas tradições, que sempre foram o cuidar da família, através de seus fundamentos básicos, como o casamento, o batismo, a ceia e o ensino da Palavra.

A Igreja é a comunidade onde os discípulos são formados. Os reflexos sentidos no mundo, de certa forma são refletidos na Igreja. O que dizer do homossexualismo, que de forma gradativa se reflete hoje na Igreja? O que dizer às famílias sobre fatos tão presentes dentro do lar, como violência, fome, pobreza, doenças, drogas, enfim, as desilusões da vida?

A Igreja se demonstra indefesa, dentro da avalanche de destruição que assola a humanidade. A Igreja deve resgatar a soberania de Jesus sobre o mundo. A fé não é só tradição, é também a prática. A Igreja não é a solução global, mas sim a esperança para aqueles que sofrem e estão perdidos no caos do mundo.

A Igreja deve ser entendida através da família. Valores como amor, perdão, o diálogo, e acima de tudo, a valorização da vida, devem ser estendidos ao mundo através da Igreja e suas famílias. 

  1. Conclusão

Concluir esse trabalho não me traz satisfação, pois sei que o assunto, em sua complexidade, é um grande desafio. Como pastor, sinto-me desafiado a cada dia, junto à comunidade, vir a ser um diferencial para a vida de muitos, porém tenho a impressão de que a cada dia me torno incapaz de suprir as necessidades individuais e familiares dos membros de minha comunidade.

Primeiramente, porque nunca sabemos a verdadeira realidade que hoje envolve uma família. Há todo um “oculto” envolvendo as famílias. Nem sempre a verdade é explícita. Quando o caos se instala em uma família, há sempre a surpresa de todos, principalmente da comunidade. Dá-se a impressão de que o pastor e os demais membros da comunidade cristã não devem interferir em diversos pontos que envolvem a família.

Vejo isso pelo distanciamento da Igreja como agente de transformação de vidas, através da família. O pastor tem muito mais atributos burocrático-administrativos do que atributos espirituais, para o cuidado de vidas. Com o crescente desafio da economia globalizada, o pastor precisa buscar suprir a quantidade, e nem sempre há condições para qualidade.

Com isso, o que temos são programas vazios, desmotivados, e que muitas vezes, até mesmo pela necessidade, se desviam das verdadeiras necessidades da comunidade. Dessa forma, a comunidade cristã, na sua maioria, reflete o que realmente é a família mundial: o lugar do “oculto”, onde prevalece o individual, cada um que carregue sua cruz.

Assim, os cultos se tornam rotinas semanais, que nem sempre provocam alívio ou esperança, sendo muito mais fácil encontrar uma família inteira à frente da televisão, vendo futebol no domingo, do que inteira na Igreja.

A família cristã necessita de um avivamento, que deve também nascer no seio da Igreja, através da sede de justiça e de amor uns para com os outros. Sou bastante pessimista com a realidade da família e da Igreja, diante das tamanhas transformações que ocorrem no mundo, porém ainda creio que Cristo é o mesmo ontem, hoje e para toda a eternidade, e que nada, nem o inferno, irá prevalecer sobre a Igreja.

 

  1. Bibliografia
  • ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. 4ª. Ed. Campinas, SP: Papirus, 2000.
  • SUNG, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

[1] ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. 4ª. edição. São Paulo: Ed. Papiros, 2001. p. 72.

[2] SUNG, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. p. 9.

[3] SUNG, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. p. 13.

[4] SUNG, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. p. 25.

(UMESP – Novembro de 2007)
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Uma resposta para Educação e o reencantamento da vida na família

  1. José disse:

    Sou discipulo de Jesus, casado e amo meu Jesus. Estou realizando palestras junto as escolas aqui na Bahia, sobre as drogas e a familia. estou pesquizando sobre essa degradação dos valores da familia na sociedade. por favor, me ajudem pela gloria de Deus. se voces tiverem algum material estastistico relacionando a degradação da familia com o passar dos anos ao aumento da violencia, drogas, prostituição e etc…

    meu email é esse tambem: jose_e_viviane@hotmail.com
    obrigado!

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