Pneumatologia e sociedade: o Espírito que conduz a vida

pombaIntrodução

A pneumatologia é muito mais do que uma matéria acadêmica, pois sua análise nos leva a um solo muito mais fértil. Na pneumatologia descobrimos o agir de Deus na vida humana e também no universo. Da criação até a cruz, na ressurreição e na Igreja de nossos dias, o Espírito Santo se faz presente, conduzindo e consolando o ser humano num mundo tão controverso, em uma vida diária nos caminhos do Pai.

Creio não ser possível descrever a ação da pneumatologia sem a associação com a vida universal. O ser humano está inserido no universo, e com todos os participantes da criação interage com o Criador. Através do pensamento de Jürgen Moltmann e outros autores, busca o sentido do Espírito Santo, que nos conduz em liberdade e vida.

 

1.      Quem é o Espírito Santo

Segundo Moltmann, quando estamos nos referindo ao Espírito de Deus, estamos nos referindo a algo que não possui corpo, que está situado acima de tudo quanto é sensível e terreno. Ao longo da história da Igreja, as definições da ação e do que era o Espírito Santo são bastante controversas.

Moltmann descreve que, indiferente da história e das traduções de línguas, quando dizemos “Espírito de Deus” estamos dizendo: “Deus é um furacão, uma tempestade, uma força no corpo e na alma, na humanidade e na natureza. Podemos definir que o Espírito de Deus se movimenta em favor da humanidade e de toda a criação. Aquele que nega o movimento da natureza divina, nega também a Trindade de Deus.

O Espírito Santo é o movimento de Deus em prol da vida humana, Ele é a força que nos conduz em prol da vida. Em toda a história, o destino da criação se dirigiu ao destino do Filho de Deus e Sua morte redentora, porém é preciso reconhecer que desde o gênesis o Espírito de Deus se movia pela face das águas, em prol da vida humana. É nisso que se manifesta a palavra veterotestamentária ruah: um Deus que se movimenta pela criação em favor da vida. Nisso se manifesta a imagem e semelhança de Deus nos seres humanos: através da imensa compaixão pela vida. Não há como imaginar que o Criador, em toda a história, tenha se empenhado em prol do ser humano sem termos a consciência de Sua plenitude criadora.

Quem é o Espírito Santo? Ele é o Deus presente desde a criação até aos dias de hoje, e por toda a eternidade. A experiência do ruah é para o dia-a-dia, e principalmente nas relações entre o Criador e o universo. O divino é experimentado não somente como pessoa, não somente como força, mas também como espaço, espaço esse de liberdade, onde o ser vivo pode desenvolver-se. Sem a ação do Espírito de Deus não é possível compreender ou viver em toda a criação.

 

2.      Quem é o maior?

A pergunta é presente nos debates inter-religiosos, seja na universidade ou nos contextos diários. É preciso se definir que tanto o Pai como o Filho e o Espírito são conjuntos na ação em prol do universo. O próprio Espírito se mostra como Deus. Ao longo de todo o processo revelador, o Espírito constitui a força ativadora de Deus na história.

Nesse sentido, Ele significa o próprio Deus, enquanto age, inova, abre novos caminhos na história com os homens e mulheres e com a criação. A obra do Espírito reside fundamentalmente em revelar para todos o Filho e Pai, e atualizar o feito libertador do Filho.

“Ninguém conheceu o que há em Deus senão o Espírito de Deus” – 1Cor 2.11.

Não há sentimento de grandeza na Trindade, todos se manifestam no verdadeiro sentido da palavra “corpo”. Não há dimensões ou divisões, são íntegros. Um exemplo máximo de unidade.

O Espírito se encontra sempre junto com o Filho e o Pai, e através disso reforça a mensagem de Jesus, direcionando toda a humanidade  a descobrir os mistérios de toda a Trindade.

 

 3.      O Espírito Santo e o mundo que sofre

No Antigo Testamento, o Deus de Israel é o “Senhor”, mas é ao mesmo tempo Servo de Israel. No deserto, Ele carrega a tocha à frente de Israel, serve a Seu povo como escravo; carrega Israel com seus pecados, entregando-se a Si próprio pelos hebreus, aliando-se de tal forma como um irmão gêmeo, um só corpo e uma só alma com seu povo.

A vergonha de Israel era a vergonha de Deus, o exílio de Israel também era o exílio de Deus, da mesma forma que seus sofrimentos, pois todo aquele que agride Israel agride a honra do nome de Deus.

“Em todas as suas angústias Ele se angustiou” – Is 63.8.

O Deus vivo é o Deus que ama. O Deus que ama comprova Sua presença e caminha conosco em nossos sofrimentos. Desde os primórdios da história de Israel, Deus se manifesta em favor dos que sofrem.

A verdade do Deus sofredor manifestou-se através do cristianismo. É na dor que surgem as perguntas dos seres humanos sobre Deus, pois o sofrimento incompreensível põe em dúvida o conceito que o homem tem dele. O sofrimento de uma criança inocente é uma incontestável contradição da imagem do Deus do céu, bom e todo-poderoso, pois um Deus que deixa os inocentes sofrerem, que permite a morte sem sentido, não é digno de ser chamado Deus. Isso se torna compreensível através de toda a história de Israel.

Deus e o sofrimento se pertencem mutuamente nesta vida. O clamor por Deus através do sofrimento experimentado na dor se pertence. A questão de Deus e a questão do sofrimento são uma só questão. Responder ao homem em meio a tantas dúvidas e incertezas, provocadas pela dor e pelo sofrimento, de que o Pai não o abandonou, mas ao contrário, se fez carne e habitou em nosso meio, é a grande tarefa do Espírito Santo.

A grande mensagem é: “Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos”. A verdadeira tarefa da fé, da teologia, é proporcionar condições de sobrevivência da humanidade em meio a tantas feridas abertas pelo pecado. O Espírito Santo anuncia a todos que na cruz reside a salvação e o perdão dos pecados.

A mensagem para os que sofrem é que Deus é amor, e que amou tanto Sua criação que se fez carne e habitou em nosso meio, e nos deu, em morte de cruz, Seu Único Filho, para que todo o que Nele crê não mais pereça, mas tenha a vida eterna. Esta é a mensagem que o Espírito de Deus apresenta a toda a humanidade. Através de Seu poder, todo o céu se movimenta em prol da Terra, para conduzir os seres viventes no caminho de retorno à casa do Pai.

 

4.      Conclusão

Quanto mais profundo for a experiência da presença do Espírito no coração e na comunidade, tanto maior é a certeza e a convicção em Sua vinda universal.

Em todo o semestre, através da matéria de Pneumatologia, tive contato com todo um conjunto de teorias e conceitos teológicos. Através dessa pesquisa, descobri que a ação de Deus por meio do Seu Espírito não é uma evidência somente de pentecostais, mas sim de todo o Corpo de Cristo em toda a Terra.

O Espírito Santo nos conduz à verdade de que Deus é vivo, presente nas aflições humanas. O Espírito vai além de ser uma força sobrenatural, é também racional, para que possamos entender o sentido do amor, da misericórdia, da justiça e da paz entre os seres. Essa ligação ultrapassa limites puramente humanos. Até mesmo um animal entende a linguagem do amor.

Esse amor revelado pelo Espírito Santo deve ser manifestado através da vida para com toda a criação. Em minha comunidade não há essa compreensão, pois em muitos momentos o Espírito de Deus é somente uma força mística, embasado em fenômenos sobrenaturais. Muitos entram e saem sem compreender e também sem desfrutar do verdadeiro Espírito Santo.

Ao longo de minha vida, vi muitos exemplos incontestáveis da ação do Espírito de Deus, e não foi pelo sobrenatural, mas sim pela voz simples e mansa de um “muito obrigado” de vários pacientes, com os quais convivi no hospital onde trabalho. Descobri que no ambiente da dor e do sofrimento os efeitos da mística, do sobrenatural, que são relacionados com o Espírito de Deus não são compreensíveis nos presídios, hospitais, nas calçadas em meio às noites frias. O Espírito de Deus ressoa de forma diferente, pois Ele se faz representar pela forma humana, manifesta por uma palavra amiga, de ânimo, de força, de uma mão que afaga o sujo, o imundo, o impuro, que sacia a fome e tira a dor daquele que clama a Deus.

Deus é manifesto em forma humana, seja em prol da humanidade ou da natureza. O Espírito de Deus se manifesta em Sua semelhança, seja homem, mulher, branco ou negro. Esse é o movimento do ruah de Deus, que através do tempo se movimenta sobre as águas para dizer a toda a criação que o nosso Deus vive e reina para todo o sempre, e não mudou, é o mesmo de ontem, é hoje e será por toda a eternidade amor, justiça e paz, por meio de Seu Filho Jesus.

Que possamos ouvir a verdadeira voz do Espírito de Deus, que ressoa em toda a criação.

 

Bibliografia

BOFF, Leonardo. A Trindade e a sociedade. Série II: O Deus que liberta seu povo. 5ª. edição – Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da vida – uma pneumatologia integral. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

MOLTMANN, Jürgen. Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo, SP: Ed. Vida, 2006.

(UMESP – FaTeo – junho de 2008)
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Uma resposta para Pneumatologia e sociedade: o Espírito que conduz a vida

  1. Mario disse:

    concordo plenamente que o Espirito Santo é o agente executivo da dividade; e com sublime tem sido o teu agir!

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